Recursos do MOVE 2 para renovação de ônibus e caminhões praticamente se esgotam; setor sente falta de crédito para modernizar frota -E AGORA?
Publicado em: 29 de julho de 2026
Dos R$ 21,1 bilhões disponibilizados pelo programa, apenas R$ 2 bilhões foram destinados aos ônibus e foram os primeiros a acabar. Empresas afirmam que demanda por financiamento continua elevada e pedem não somente linhas de crédito pontuais e sim, política permanente
ADAMO BAZANI
Os recursos do Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVE) destinados ao financiamento da renovação de frotas de ônibus e caminhões praticamente se esgotaram dois meses após o início das operações, desde 29 de maio de 2026. As adesões podem ser feitas até 28 de agosto.
O cenário reacende uma preocupação antiga das empresas de transporte de passageiros, de cargas e de caminhoneiros autônomos: a escassez de crédito para modernizar a frota em um momento de juros elevados, aumento dos custos operacionais e exigências ambientais cada vez maiores. O editor-chefe e criador do Diário do Transporte, Adamo Bazani, conversou com frotistas, operadores e representantes de montadoras e encarroçadoras.
Ao todo, o programa disponibilizou R$ 21,1 bilhões em financiamentos, dos quais, pouco mais de R$ 20 bilhões já foram comprometidos. Entretanto, desse montante, apenas R$ 2 bilhões foram reservados para ônibus, enquanto a maior parte dos recursos foi direcionada ao segmento de caminhões.
Um dos destaques do MOVE, no caso dos ônibus, foi o financiamento em taxas e prazos melhores que a média de mercado, de ônibus de fretamento e rodoviários.
E esses são os segmentos mais carentes de incentivos. Não que urbanos não precisem, principalmente para o pequeno e médio operador, mas, ainda, para os “ônibus da cidade” há linhas como o PAC e condições mais favoráveis no Finame.
Os rodoviários e fretamentos contam mais com linahs negociadas diretamente pelos bancos e, novamente, por conta do risco maior e do baixo poder de negociação, pequenas e médias empresas de ônibus mais sentem.
O mesmo ocorre com os transportadores de cargas, sejam autônomos ou empresas menores.
Na avaliação de empresários e especialistas do setor, o esgotamento da linha demonstra que existe demanda reprimida por financiamentos e reforça a necessidade de novos programas específicos para o transporte coletivo.
Necessidade supera recursos disponíveis
O transporte coletivo brasileiro convive com uma frota envelhecida em diversas regiões do país.
Além da necessidade de substituir veículos antigos, as empresas enfrentam novos desafios, como a aquisição de ônibus menos poluentes, modelos elétricos e veículos movidos a combustíveis alternativos, investimentos que exigem volumes elevados de capital, no caso dos urbanos.
Nos rodoviários e fretamento, entre os desafios estão a alta competitividade nestes setores e o maior nível de exigência dos passageiros.
O usuário do urbano quer um ônibus melhor e confortável. Quem usa rodoviário e fretamento não quer só isso: quer um veículo que ofereça toda a comodidade para viagens longas.
Mesmo empresas economicamente sólidas têm encontrado dificuldades para renovar a frota devido ao elevado custo financeiro dos empréstimos.
A taxa básica de juros (Selic) permanece em patamar elevado, aumentando significativamente o custo das operações de financiamento de longo prazo, justamente o tipo de crédito mais utilizado para aquisição de ônibus novos.
Crédito continua sendo principal obstáculo
Nos últimos anos, representantes das transportadoras e da indústria têm defendido que a dificuldade para obtenção de crédito passou a ser um dos principais gargalos para a renovação das frotas.
Embora programas como o MOVE e iniciativas vinculadas ao Novo PAC tenham ampliado temporariamente a oferta de financiamentos, o volume de recursos ainda é considerado insuficiente diante das necessidades do setor.
No caso dos ônibus, o desafio é ainda maior porque a aquisição de veículos depende frequentemente de contratos públicos, equilíbrio econômico-financeiro das concessões e previsibilidade regulatória.
Empresas também relatam que diversas instituições financeiras continuam exigindo garantias robustas, elevando o custo das operações e reduzindo o acesso principalmente para operadores de médio porte.
Indústria também acompanha preocupação
A rápida utilização dos recursos também preocupa os fabricantes de chassis, carrocerias e componentes.
Nos últimos anos, a indústria de ônibus ampliou investimentos em novas tecnologias, eletrificação, conectividade e veículos de menor emissão de poluentes.
Entretanto, o ritmo de produção depende diretamente da capacidade das operadoras de obter financiamento.
Sem novas linhas de crédito ou reforço dos programas existentes, representantes do setor avaliam que poderá haver desaceleração nas encomendas, especialmente após o encerramento dos recursos atualmente disponíveis.
E agora?
O esgotamento dos recursos coloca em evidência a necessidade de novas políticas públicas voltadas especificamente ao transporte coletivo.
Muito mais que linhas pontuais, de incentivos, que são bem vindas, logicamente, mas não suficientes, os diversos segmentos de transportes querem uma política permanente de renovação de frota.
Mas, enquanto essa mudança, que é mais estrutural e leva mais tempo para serem implantadas, existem as alternativas defendidas pelo setor:
- ampliação do orçamento destinado exclusivamente aos ônibus em futuras etapas do MOVE, o que, no momento, é descartado;
- criação de novas linhas de financiamento com juros mais baixos para renovação de frota;
- reforço das operações do BNDES, da Finep e de bancos públicos;
- ampliação dos programas do Novo PAC destinados à mobilidade urbana;
- criação de mecanismos permanentes de financiamento para a descarbonização do transporte coletivo.
Outra reivindicação recorrente é a criação de instrumentos que reduzam o custo financeiro para aquisição de ônibus elétricos, cujo preço ainda permanece significativamente superior ao dos modelos convencionais movidos a diesel.
Renovação é considerada estratégica
Especialistas lembram que renovar a frota não representa apenas a compra de veículos novos.
Ônibus mais modernos oferecem menor consumo de combustível, menores emissões de poluentes, redução dos custos de manutenção, maior confiabilidade operacional, mais conforto aos passageiros e melhores condições de trabalho para motoristas.
Por isso, entidades do setor defendem que programas de financiamento não sejam tratados apenas como incentivo à indústria, mas também como política pública de mobilidade, sustentabilidade e segurança viária.
Com os recursos do MOVE praticamente comprometidos, a expectativa do mercado agora se volta para o Governo Federal e as instituições financeiras, na esperança de que novas linhas de crédito sejam anunciadas para evitar uma interrupção no ciclo de renovação das frotas brasileiras, especialmente no transporte coletivo, segmento que recebeu apenas cerca de 9,5% dos recursos disponibilizados pelo programa.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



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