Empresa de ônibus processa governo da Escócia após subsídios beneficiarem compra de veículos chineses
Publicado em: 21 de julho de 2026
Maior operadora independente de ônibus da Grã-Bretanha questiona na Justiça distribuição de £ 45 milhões para eletrificação da frota e afirma que recursos deveriam priorizar substituição de veículos a diesel e a indústria local
ADAMO BAZANI
A maior operadora independente de ônibus da Grã-Bretanha, a McGill’s Buses, ingressou com uma ação judicial contra o governo da Escócia para tentar anular a distribuição de recursos do programa de eletrificação da frota de ônibus do país.
A empresa, controlada por James Easdale e Sandy Easdale, questiona a forma como foram distribuídos £ 45 milhões (cerca de R$ 330 milhões) do programa Scottish Zero Emission Bus Challenge Fund – ScotZEB3, destinado à compra de ônibus de emissão zero, de acordo com agências internacionais.
Segundo a companhia, seu pedido de uma subvenção de £ 4,3 milhões para adquirir 33 ônibus elétricos produzidos pela fabricante escocesa Alexander Dennis (ADL) foi rejeitado, enquanto concorrentes receberam recursos para comprar principalmente veículos da fabricante chinesa Yutong. A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal The Telegraph e confirmada por outros veículos britânicos, como STV News e Route One.
A McGill’s apresentou recurso ao Competition Appeal Tribunal (CAT), tribunal especializado em questões de concorrência e subsídios públicos no Reino Unido.
No processo, a empresa sustenta que o governo escocês não teria realizado adequadamente a análise prevista pelas regras britânicas de controle de subsídios e pede que todo o processo de seleção seja revisto. A existência da ação também consta na relação oficial de processos do Tribunal.
De acordo com a empresa, o programa teria financiado projetos voltados à expansão de operações, quando sua finalidade declarada seria reduzir emissões por meio da substituição de ônibus movidos a diesel.
Críticas à compra de ônibus chineses
O principal alvo das críticas é a startup Ember, sediada em Edimburgo, que recebeu aproximadamente £ 13 milhões para adquirir 100 ônibus elétricos da Yutong, maior fabricante mundial de ônibus, sediada na China.
Além da Ember, outros operadores também receberam recursos para aquisição de veículos chineses:
- First Bus: cerca de £ 6 milhões;
- Stagecoach: aproximadamente £ 4,6 milhões.
Já outras empresas contempladas optaram por fabricantes britânicos:
- Rock Road: cerca de £ 11,5 milhões;
- Lothian: aproximadamente £ 5,6 milhões.
Esses dois projetos incluem a compra de 153 ônibus, sendo 30 da Wrightbus, da Irlanda do Norte, e 123 da Alexander Dennis.
Defesa da indústria escocesa
Para Sandy Easdale, coproprietário da McGill’s, a decisão prejudica tanto a indústria local quanto a renovação ambiental da frota.
Segundo ele, a proposta da empresa permitiria substituir ônibus a diesel atualmente em operação, além de contribuir para preservar empregos na Alexander Dennis, tradicional fabricante escocesa instalada em Falkirk.
No ano passado, o próprio governo escocês havia apoiado financeiramente a empresa durante um programa de manutenção de empregos, depois que a fabricante sinalizou a possibilidade de transferir parte da produção para Yorkshire, na Inglaterra.
Easdale também criticou a falta de transparência na seleção dos projetos.
“Temos decisões envolvendo grandes quantias de dinheiro público sendo tomadas por pessoas que não se identificam e sem transparência. Recursos pagos pelos contribuintes deveriam ser distribuídos de forma totalmente aberta e com prestação de contas”, afirmou o empresário, segundo veículos britânicos, ainda de acordo com a agência.
Empresa possui ônibus chineses:
A própria McGill’s já opera uma grande frota de ônibus elétricos da Yutong, adquiridos em programas anteriores de financiamento público. Inclusive, o setor especializado britânico lembra que a empresa foi beneficiária das fases anteriores do ScotZEB e também comprou veículos chineses naquela ocasião.
Ou seja, a discussão jurídica não é exatamente contra ônibus chineses, mas contra a forma como o governo distribuiu os recursos nesta terceira fase do programa e contra o fato de a proposta da McGill’s, baseada em ônibus fabricados na Escócia, ter sido rejeitada.
Governo evita comentar
A Transport Scotland, órgão responsável pelo programa, informou que não comentará o caso por se tratar de um processo judicial em andamento.
O governo ressaltou, entretanto, que a McGill’s já foi beneficiada em etapas anteriores do programa de eletrificação.
Segundo a administração escocesa, a empresa recebeu anteriormente £ 8,7 milhões para aquisição de 41 ônibus elétricos, além de participar de um consórcio contemplado com £ 41,7 milhões e obter recursos por meio de outro programa destinado à compra de 68 veículos de baixa emissão.
Debate vai além da disputa comercial
O caso chama atenção porque coloca em debate uma questão cada vez mais frequente em diversos países: até que ponto políticas públicas de descarbonização devem priorizar apenas a redução das emissões ou também estimular a indústria nacional.
Na prática, a McGill’s sustenta que os recursos públicos deveriam privilegiar projetos que substituam ônibus movidos a diesel e fortaleçam fabricantes locais, enquanto o governo escocês defende que a seleção seguiu os critérios técnicos estabelecidos pelo programa de incentivo à mobilidade de emissão zero. A decisão agora caberá ao Tribunal da Concorrência, que analisará se houve ou não violação das regras britânicas de controle de subsídios.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


