Eletromobilidade

Empresa de ônibus processa governo da Escócia após subsídios beneficiarem compra de veículos chineses

Maior operadora independente de ônibus da Grã-Bretanha questiona na Justiça distribuição de £ 45 milhões para eletrificação da frota e afirma que recursos deveriam priorizar substituição de veículos a diesel e a indústria local

ADAMO BAZANI

A maior operadora independente de ônibus da Grã-Bretanha, a McGill’s Buses, ingressou com uma ação judicial contra o governo da Escócia para tentar anular a distribuição de recursos do programa de eletrificação da frota de ônibus do país.

A empresa, controlada por  James Easdale e Sandy Easdale, questiona a forma como foram distribuídos £ 45 milhões (cerca de R$ 330 milhões) do programa Scottish Zero Emission Bus Challenge Fund – ScotZEB3, destinado à compra de ônibus de emissão zero, de acordo com agências internacionais.

Segundo a companhia, seu pedido de uma subvenção de £ 4,3 milhões para adquirir 33 ônibus elétricos produzidos pela fabricante escocesa Alexander Dennis (ADL) foi rejeitado, enquanto concorrentes receberam recursos para comprar principalmente veículos da fabricante chinesa Yutong. A informação foi divulgada inicialmente pelo jornal The Telegraph e confirmada por outros veículos britânicos, como STV News e Route One.

A McGill’s apresentou recurso ao Competition Appeal Tribunal (CAT), tribunal especializado em questões de concorrência e subsídios públicos no Reino Unido.

No processo, a empresa sustenta que o governo escocês não teria realizado adequadamente a análise prevista pelas regras britânicas de controle de subsídios e pede que todo o processo de seleção seja revisto. A existência da ação também consta na relação oficial de processos do Tribunal.

De acordo com a empresa, o programa teria financiado projetos voltados à expansão de operações, quando sua finalidade declarada seria reduzir emissões por meio da substituição de ônibus movidos a diesel.

Críticas à compra de ônibus chineses

O principal alvo das críticas é a startup Ember, sediada em Edimburgo, que recebeu aproximadamente £ 13 milhões para adquirir 100 ônibus elétricos da Yutong, maior fabricante mundial de ônibus, sediada na China.

Além da Ember, outros operadores também receberam recursos para aquisição de veículos chineses:

  • First Bus: cerca de £ 6 milhões;
  • Stagecoach: aproximadamente £ 4,6 milhões.

Já outras empresas contempladas optaram por fabricantes britânicos:

  • Rock Road: cerca de £ 11,5 milhões;
  • Lothian: aproximadamente £ 5,6 milhões.

Esses dois projetos incluem a compra de 153 ônibus, sendo 30 da Wrightbus, da Irlanda do Norte, e 123 da Alexander Dennis.

Defesa da indústria escocesa

Para Sandy Easdale, coproprietário da McGill’s, a decisão prejudica tanto a indústria local quanto a renovação ambiental da frota.

Segundo ele, a proposta da empresa permitiria substituir ônibus a diesel atualmente em operação, além de contribuir para preservar empregos na Alexander Dennis, tradicional fabricante escocesa instalada em Falkirk.

No ano passado, o próprio governo escocês havia apoiado financeiramente a empresa durante um programa de manutenção de empregos, depois que a fabricante sinalizou a possibilidade de transferir parte da produção para Yorkshire, na Inglaterra.

Easdale também criticou a falta de transparência na seleção dos projetos.

“Temos decisões envolvendo grandes quantias de dinheiro público sendo tomadas por pessoas que não se identificam e sem transparência. Recursos pagos pelos contribuintes deveriam ser distribuídos de forma totalmente aberta e com prestação de contas”, afirmou o empresário, segundo veículos britânicos, ainda de acordo com a agência.

Empresa possui ônibus chineses:

A própria McGill’s já opera uma grande frota de ônibus elétricos da Yutong, adquiridos em programas anteriores de financiamento público. Inclusive, o setor especializado britânico lembra que a empresa foi beneficiária das fases anteriores do ScotZEB e também comprou veículos chineses naquela ocasião.

Ou seja, a discussão jurídica não é exatamente contra ônibus chineses, mas contra a forma como o governo distribuiu os recursos nesta terceira fase do programa e contra o fato de a proposta da McGill’s, baseada em ônibus fabricados na Escócia, ter sido rejeitada.

Governo evita comentar

A Transport Scotland, órgão responsável pelo programa, informou que não comentará o caso por se tratar de um processo judicial em andamento.

O governo ressaltou, entretanto, que a McGill’s já foi beneficiada em etapas anteriores do programa de eletrificação.

Segundo a administração escocesa, a empresa recebeu anteriormente £ 8,7 milhões para aquisição de 41 ônibus elétricos, além de participar de um consórcio contemplado com £ 41,7 milhões e obter recursos por meio de outro programa destinado à compra de 68 veículos de baixa emissão.

Debate vai além da disputa comercial

O caso chama atenção porque coloca em debate uma questão cada vez mais frequente em diversos países: até que ponto políticas públicas de descarbonização devem priorizar apenas a redução das emissões ou também estimular a indústria nacional.

Na prática, a McGill’s sustenta que os recursos públicos deveriam privilegiar projetos que substituam ônibus movidos a diesel e fortaleçam fabricantes locais, enquanto o governo escocês defende que a seleção seguiu os critérios técnicos estabelecidos pelo programa de incentivo à mobilidade de emissão zero. A decisão agora caberá ao Tribunal da Concorrência, que analisará se houve ou não violação das regras britânicas de controle de subsídios.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo