Estudo Nacional mostra que ônibus elétricos serão peças-chave para redução de custos operacionais, com menores tarifas para passageiros e maior retorno para as empresas
Publicado em: 16 de julho de 2026
Entretanto, a necessidade de importação de baterias para alguns modelos e a infraestrutura limitada ainda são desafios a serem superados. Dependência externa no setor ferroviário também preocupa
ADAMO BAZANI
Os 187 projetos de transporte coletivo previstos para as 21 maiores regiões metropolitanas do Brasil, cada uma com mais de um milhão de habitantes, deverão consumir cerca de R$ 437 bilhões nos próximos 30 anos. O pacote inclui aproximadamente três mil quilômetros de redes de trilhos e corredores de ônibus de alta capacidade (BRTs), além da incorporação de 6,6 mil ônibus elétricos e 2,4 mil carros metroferroviários.
Pode parecer um investimento elevado, mas, além de melhorar a mobilidade da população, esses recursos tendem a reduzir os custos para cidadãos, governos e operadores ao longo do tempo.
A lógica é simples: quanto melhor a infraestrutura, menores tendem a ser os custos de operação e manutenção.
E os ônibus elétricos despontam como um dos principais elementos desse processo.
É o que aponta o ENMU (Estudo Nacional de Mobilidade Urbana), elaborado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em parceria com o Ministério das Cidades.
Os resultados foram divulgados em 1º de julho de 2026 e noticiados em primeira mão pelo Diário do Transporte.
O editor-chefe e fundador do Diário do Transporte, Adamo Bazani, juntamente com os jornalistas Arthur Ferrari, Yuri Sena e Vinícius de Oliveira, vem trazendo uma série de reportagens especiais sobre o ENMU, com recortes e abordagens exclusivas.
Segundo uma das conclusões do estudo, embora os ônibus elétricos apresentem um custo inicial maior de aquisição, a operação passa a ser significativamente mais barata, tornando o investimento vantajoso no médio e longo prazo.
A combinação de ônibus elétricos, corredores com maior velocidade operacional e melhor desempenho dos coletivos, além da ampliação das redes de trilhos, tende a reduzir os custos operacionais dos sistemas de transporte. Como consequência, há potencial para diminuir as tarifas pagas pelos passageiros, reduzir a necessidade de subsídios públicos e, ao mesmo tempo, ampliar o retorno para investidores e operadores privados.
A cidade de São Paulo, que possui a maior frota de ônibus elétricos do Brasil, com 1.759 veículos, representando cerca de 80% da frota nacional, já começa a sentir esses benefícios.
De acordo com planilhas da SPTrans (São Paulo Transporte), empresa responsável pela gestão do transporte coletivo da capital paulista, operar ônibus elétricos tem sido, em média, cinco vezes mais barato, embora sua aquisição ainda seja aproximadamente três vezes mais cara do que a dos modelos movidos a diesel.
“Gastamos R$ 25 mil por mês em diesel por ônibus na cidade de São Paulo. A eletricidade para os modelos verdes do mesmo porte custa R$ 5 mil. Isso só o custo da energia. A manutenção também é mais barata. A conta deve fechar antes do que esperávamos. Investir em eletrificação é uma medida em prol do meio ambiente, mas também da economia da cidade, além da redução dos custos com saúde”, afirmou o prefeito Ricardo Nunes, em 21 de junho de 2026, durante a apresentação de mais 500 ônibus elétricos para o sistema municipal.
Desafios ainda precisam ser superados
Apesar dos benefícios econômicos apontados pelo estudo, ainda há desafios importantes para a consolidação da eletromobilidade e da expansão dos sistemas de trilhos no Brasil.
No caso do transporte ferroviário, o diagnóstico elaborado pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades mostra que a produção nacional ainda é limitada.
Há poucas plantas industriais instaladas no País, como a Alstom, em Taubaté (SP), e, mais recentemente, a chinesa CRRC (China Railway Rolling Stock Corporation), em Araraquara (SP). Além disso, grande parte da capacidade produtiva já está comprometida com projetos de expansão atualmente em execução, reduzindo a possibilidade de atender rapidamente a novas demandas de grande porte.
O estudo também aponta que:
- cerca de 60% dos sistemas de sinalização e controle ferroviário dependem de componentes importados;
- 100% das máquinas tuneladoras, utilizadas na construção de túneis para metrôs subterrâneos, são importadas;
- há escassez de engenheiros especializados capazes de conduzir simultaneamente diversos grandes projetos ferroviários.
No caso dos ônibus elétricos, o cenário é mais favorável, mas ainda apresenta limitações.
Segundo o ENMU, considerando todas as marcas atualmente comercializadas no Brasil, aproximadamente 59% do conteúdo dos componentes dos veículos é nacional. Ainda existem desafios relacionados à importação de baterias para parte dos modelos, à capacidade das redes de distribuição de energia das cidades para abastecer grandes frotas e à autonomia das baterias, que ainda não inspira plena segurança para alguns operadores.
Oportunidade para a indústria nacional
Para o ENMU, aquilo que hoje representa um desafio também pode se transformar em oportunidade.
O estudo aponta potencial para atração de novas indústrias ao Brasil, fortalecimento das empresas nacionais já estabelecidas e desenvolvimento de tecnologias próprias, gerando empregos, renda e inovação dentro da estratégia da Nova Indústria Brasil.
Esses empregos tendem a ser mais qualificados, exigindo maior formação técnica e oferecendo salários superiores à média da indústria tradicional.
Caso os investimentos sejam intensificados desde agora, o Brasil poderá, inclusive, tornar-se um polo exportador de tecnologias para transporte coletivo na América Latina.
O ENMU conclui que a cadeia produtiva dos ônibus elétricos apresenta perspectivas mais favoráveis de nacionalização e expansão industrial do que o setor ferroviário, que ainda depende de avanços significativos na produção local de equipamentos e tecnologias.
O estudo resume esse cenário da seguinte forma:
“Conteúdo local calibrado por elo: alto em ônibus elétricos e baterias (Nova Indústria Brasil prevê +25 pontos percentuais na cadeia de ônibus elétricos); realista em trilhos e sinalização, onde não há base produtiva ativa; combinação de crédito e incentivos tributários (Finame, Reidi e Mover), aliada à estabilidade regulatória.”
Produção nacional amplia benefícios
A diretora-presidente da Eletra Industrial, única empresa brasileira a desenvolver tecnologia própria para ônibus elétricos, Milena Braga Romano, afirmou ao Diário do Transporte que a evolução da eletromobilidade demonstra que, quando a produção é nacional — e não apenas a montagem dos veículos —, os benefícios econômicos e sociais são maiores.
“Estamos há praticamente 30 anos acreditando na eletromobilidade. Nossos ônibus têm índice de nacionalização entre 95% e 98%. O que antes era visto como loucura passou a ser sonho, depois virou realidade e, agora, tende a se tornar praticamente uma exigência. Frotas eletrificadas trazem vantagens em todos os aspectos. Quando a produção, e não apenas a montagem, é nacional, os ganhos são maiores. Toda a cadeia produtiva da Eletra é composta por parceiros instalados há décadas no Brasil. O ônibus nacional oferece maior flexibilidade para atender às diferentes características operacionais do País, gera empregos, fortalece a indústria brasileira e transforma o Brasil em referência tecnológica. Não é mais uma opção; é uma estratégia”, afirmou Milena.
Série especial do Diário do Transporte
Entre os diferentes enfoques que o Diário do Transporte vem apresentando sobre o ENMU (Estudo Nacional de Mobilidade Urbana) estão:
- A apresentação geral do estudo e de seus principais resultados;
- A necessidade de fortalecimento da gestão metropolitana e os desafios decorrentes da ausência de redes plenamente integradas, com análise do especialista e ex-secretário municipal de Transportes de São Paulo e ex-presidente do Metrô de São Paulo, Sergio Avelleda;
- O diagnóstico sobre segurança jurídica e as oportunidades de modernização dos contratos para viabilizar os investimentos, atualizar os serviços e aumentar a flexibilidade operacional, com análise da advogada especializada em Direito Empresarial Liana Variani;
- A falta de transparência na gestão da arrecadação, da bilhetagem eletrônica e dos indicadores de cumprimento de metas;
- A eletrificação da frota de ônibus e a expansão das redes de trilhos, mostrando que a redução dos custos operacionais já é uma realidade, embora persistam desafios relacionados à ampliação da produção nacional e da infraestrutura, com entrevistas do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e da diretora-presidente da Eletra Industrial, Milena Braga Romano.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



Ainda assim isso não justifica a proibição total e amadora de novos ônibus a combustão aqui em SP, e nem a ausência de qualquer plano de transição.
Por consequência a nossa frota diesel vai envelhecendo aos milhares, poluindo ainda mais o ar, e anulando totalmente o zero carbono dos 1,7 mil ônibus elétricos (vários dos quais encostados por falta de infraestrutura).
Sem falar no alto preço tabelado dos elétricos, que a indústria insiste em praticar e São Paulo (pricipalmente) paga sem questionar.
Não concordo com O ESTUDO
Ônibus elétricos são 3 vezes mais caros que os a combustão. Segundo que a desvalorização na revenda é baixo e terceiro vida útil será complicada.
por enquanto é
IMPRESSÃO SUA, PORQUE OS NÚMEROS E A CONCLUSÃO NÃO SÃO DO SITE E SIM DO ESTUDO NACIONAL, SEU BABACÃO, É SÓ LER
Outro fator que em princípio sería vantajoso aos elétricos é a sua maior vida útil tecnicamente estimada.
Porém isso depende tanto das condições da infraestrutura viária quanto de se respeitar os limites técnico-operacionais do veiculo, além do cuidado e assiduidade com as manutenções. E aí é que o bicho pega!
Tomando-se a realidade de São Paulo que é a atual “referência” brasileira no setor, fica difícil ser otimista nessa questão. São vias esburacadas e sem reparos por toda a cidade, superlotações diárias e rotineiras nos horários de pico, e manutenções dos ônibus já sabidamente precarizadas e neglicenciadas ao máximo por empresários-frotistas muquiranas..
Prova disso são os vários dos nossos ônibus elétricos já batendo lata com menos de cinco anos rodados.
E aí estamos falando de ônibus elétricos que custam três vezes mais pra se comprar, e que na prática acabam durando igual ou até menos do que os seus similares a diesel.
Boa, Santiago! Os antigos “Elétricos” q operei e q mantive durante os anos 1990, tinham MTBF de 2.500 km (média temporal entre falhas). Os antigos (e ótimos O-365) tinham MKBF de 22.000 km. Os O-371, infelizmente, tinham apenas 7.000 km de MKBF. Os equipamentos eletrificados de hoje em dia têm confiabilidade muito – mas muito, mesmo! – mais alta do que as q tínhamos há 4 décadas. Os tróleibus da antiga URSS (fabricados na antiga Iugoslávia) duraram 50 anos, ou seja, a mesma expectativa de vida dos carros de metrô. Espanta-me ouvi-lo dizer q os elétricos atuais estão desmilinguindo…
Laurindo,
Também entendo que os atuais eletricos sejam projetados pra durar mais tempo.
Porém pra que isso se cumpra eles precisam operar em condições minimamente próximas ao recomendável, algo que aqui em São Paulo está fora da realidade.
Santiago: os elétricos da EMTU operaram por pelo menos 16 anos no corredor ABCD. Não tenho o dados de seu desempenho, mas que duraram mais do que os não-elétricos, duraram…
Esse corredor, como vc bem sabe, tem condições privilegiadas de piso. Se aplicados a tais condições, não só eles, como os “puramente mecânicos” duram mais. Repito: na antiga URSS, onde 70% de todos os elétricos do mundo se localizavam, ele operaram durante mais de 50 anos.
Concordo. Porém lembremos que os ônibus urbanos (inclusive elétricos) fabricados naqueles tempos, seja na Cortina de Ferro ou até mesmo nos Estados Unidos, eram praticamente “tanques-de-guerra” feitos tanto pra aguentarem trancos quanto pra terem longa duração.
A filosofia industrial era ainda outra, e a segurança e robustez ainda pautavam fortemente a fabricação desse tipo de veiculo. Diferentemente de hoje, em que o corte de custos e os dividendos em Bolsa determinam o quê e como será fabricado.