MP arquiva investigação contra NEXT Mobilidade por idade da frota e conclui que incêndio em ônibus em Ribeirão Pires foi criminoso
Publicado em: 15 de julho de 2026
Segundo o Ministério Público, ficou comprovado que a empresa e a Artesp estavam em tratativas para a renovação dos ônibus. Ocorrência foi em meio à onda de ataques contra coletivos
ADAMO BAZANI
O MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) arquivou uma investigação aberta contra a empresa NEXT Mobilidade, que opera linhas intermunicipais metropolitanas entre cidades do ABC Paulista e a capital, sobre suposto descumprimento dos limites de idade da frota.
O documento é de 23 de junho de 2026, com a publicação no Diário Oficial do Estado desta terça-feira, 14 de julho de 2026.
A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social também concluiu, com base nas apurações da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) e da Polícia Civil, que um incêndio em um ônibus da companhia, ocorrido em 31 de maio de 2025, na Rodovia Índio Tibiriçá, em Ribeirão Pires (SP), embora tenha envolvido um veículo mais antigo, não foi causado por falha mecânica, elétrica ou deficiência de manutenção, mas teve origem criminosa.
A conclusão é da promotora Cíntia Marangoni, em manifestação também assinada pelo analista jurídico Vinícius Bianchi Carvalho.
“Com efeito, o primeiro núcleo da representação, relativo ao incêndio do ônibus de prefixo 81.625, foi objeto de apuração pela ARTESP, que concluiu, a partir dos elementos apresentados, tratar-se de evento de origem criminosa, atribuído à ação de terceiros, sem nexo demonstrado com falha de manutenção, omissão operacional da concessionária ou deficiência fiscalizatória da Agência Reguladora. A própria concessionária apresentou documentação relativa ao contexto de ataques e vandalismo contra ônibus, com registros policiais e comunicação às autoridades competentes, inexistindo, neste ponto, elemento mínimo apto a caracterizar ilícito civil de natureza coletiva imputável à empresa ou omissão relevante do Poder Público”, diz a promotora.
A ocorrência foi justamente no período da onda de ataques contra ônibus na Grande São Paulo, entre o fim de maio e o início de setembro de 2025, noticiada em primeira mão pelo Diário do Transporte. Foram ao menos dois mil coletivos atacados, a maioria por apedrejamento, embora também tenham sido registrados casos de incêndio.
Apesar de o núcleo central dos ataques estar relacionado à transferência de contratos de empresas de ônibus da capital paulista, envolvendo a Transwolff — alvo de outra investigação do Ministério Público por suposta ligação com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital) —, outras ações criminosas, sem relação direta com a disputa envolvendo a zona Sul de São Paulo, acabaram ocorrendo no mesmo contexto.
Foi o que, segundo a suspeita da Polícia Civil, teria ocorrido no caso do ônibus da NEXT Mobilidade.
O Diário do Transporte noticiou o incêndio na ocasião.
Relembre:
Idade da frota
Sobre a idade da frota, a promotora informa que a NEXT Mobilidade alegou haver critérios e limites distintos conforme o sistema de linhas e a tecnologia empregada nos veículos. Como exemplo, citou os trólebus do Corredor ABD, que, por serem elétricos, podem operar por até 30 anos. Já os ônibus convencionais possuem limite de idade entre 10 e 12 anos, conforme o tipo de veículo.
A empresa também argumentou que vem substituindo gradualmente os ônibus mais antigos, processo que depende do reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, e sustentou que, na época da denúncia apresentada ao Ministério Público, no início de 2026, a idade média da frota era de 5,72 anos, abaixo do limite contratual de seis anos.
“Quanto à idade da frota, a concessionária afirmou que a denúncia teria considerado, de forma indevida, veículos pertencentes a sistemas contratuais distintos, com regimes próprios. Sustentou que, no denominado Sistema Remanescente, a idade média da frota seria de 5,72 anos, inferior ao limite contratual de seis anos, ao passo que, no Sistema Existente, haveria veículos sujeitos a parâmetros diferenciados, inclusive em razão da tecnologia empregada, com previsão contratual de vida útil superior para determinados tipos de veículos. Alegou, ainda, que veículos com idade mais elevada estariam submetidos a inspeções periódicas e manutenção intensificada, bem como que a renovação integral da frota dependeria de definição regulatória e da recomposição do equilíbrio econômico-financeiro contratual, especialmente em razão da substituição gradativa por veículos de motor traseiro.”
A Artesp, por sua vez, discorda da metodologia utilizada pela NEXT Mobilidade para calcular a idade média da frota e informou ao Ministério Público que instaurou um processo administrativo sancionador para apurar a questão.
Assim, para a promotora, não ficou caracterizada omissão da agência reguladora.
“A instauração de inquérito civil pelo Ministério Público, nessa conjuntura, somente se justificaria caso houvesse elementos mínimos de omissão regulatória qualificada, tolerância indevida, favorecimento da concessionária, desvio de finalidade, dano ao erário, risco concreto não enfrentado pelo Poder Público ou qualquer indício de improbidade administrativa. Nada disso, porém, emergiu da instrução preliminar. Ao contrário, os elementos colhidos indicam que o risco noticiado foi absorvido pela atuação regulatória própria: o incêndio foi apurado como fato de terceiro, sem nexo com falha da concessionária, e a possível irregularidade contratual relativa à idade da frota passou a ser objeto de processo administrativo sancionador instaurado pela ARTESP, órgão técnico competente para interpretar o contrato de concessão, fiscalizar sua execução e impor as sanções cabíveis.”

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes.



Bom dia!
O mais engraçado é que, quando se fala da frota vencida de São Paulo, com seus 12, 13 anos de uso, o sistema é criticado.
Agora, no ABC, carros com 13, 14 (como é o caso deste 81.625), ou até mesmo 15 anos (a Next possui veículos ano 2011 circulando), são considerados normais.
Equilíbrio financeiro? Perdoe-me, Next… Não é o Grupo que está em 1° lugar na vendagem de ônibus elétricos? Não é o Grupo que investiu maciçamente em Belém do Pará? Não é o Grupo que está expandindo a operação pelo Interior do Estado? Não é o Grupo que defende que os salários do ABC são os maiores, mas paga metade do salário de Sorocaba?
Enfim, mais um paradoxo do maravilhoso Grupo ABC! hahaha…
Abraços!
Excelentes indagações.
Fala, Rodrigo! Tudo em paz?
Muito obrigado pelo reconhecimento! Infelizmente, a Next deixa a desejar em muitos quesitos não divulgados, porém, sentidos pelos passageiros e colaboradores.
Confesso que fiquei feliz, quando o Grupo assumiu o transporte no ABC, retirando empresas arcaicas. Mas, ao mesmo tempo que ela possui Know-how, expertise e uma estrutura enorme, acaba se perdendo em processos que mais parecem práticas dos anos 80!
Um abraço!
Verdade Gerson! Além de ser uma empresa que se vendeu para o autoritarismo das últimas gestões de transporte da cidade de São Paulo, aceitando lenientemente o encurtamento e desativação de linhas, sem ao menos questionar ou ouvir seus passageiros.
E ainda assim, segue igual as predecessoras, mantendo frota velha e inadequada.
O que não pode é denunciá-la sem provas robustas pois senão, acontece o que aconteceu no relato desta ótima reportagem.
A sanha dos técnicos e analistas em logística em encurtar linhas, desativa-las e diminuir percursos, não é a eficiência, é manipular o ir e vir das pessoas e economizar recursos de frota e combustível.
Começou na cidade de São Paulo em meados de 2010 e ampliou pela RMSP e agora segue em todo o Brasil.
Inclusive há objetivos políticos e econômicos escusos por detrás disso.
A desculpa dos transbordos gratuitos é rasa e em toda lide judicial em que alguém refuta isso, as bancas de advogados apelam para prerrogativas dos municípios, criando hermenêuticas rasas e de aparente lógica. Mas se esquecem o primordial: Que eles deve GERIR o transporte em prol da municipalidade e que o ir e vir não pode ser tolhido por meios de pagamento ou de check-point. O transbordo gratuito deve ser VANTAJOSO AO CIDADÃO, mas eles fingem serem cegos.
Depois que a SPTrans ganhou a ação contra a Associação dos Moradores do Jardim Jaú e Adjacências, que foi amplificado pela interferência justa do MP-SP, todo analista e gerente de planejamento de linhas joga na cara esta ação e diz que têm prerrogativas até acima do presidente da república para fazerem o que querem no sistema de transportes, e isso é uma bravata, uma meia-verdade que apenas juízes corporativistas e que não analisam profundamente os casos aceitam.
Como deu certo em SP, ampliaram pela RMSP e pelo Brasil todo.
Mas isso vai acabar!
Não sou contra a racionalização do transporte, nem contra os métodos de bilhetagem atuais e nem a trocalização dos sistemas de transporte, mas estes, devem serem feitos em prol da população, do município, de regiões metropolitanas e não a favor somente de castas políticas ou de narrativas em prol de certos grupos empresariais.
O lobby dessa empresa é fortíssimo. Vide o patrocínio a sites desse tema, além de políticos “do nada” replicando versões deles.
Excelente reportagem.
E, para quem tem um pouco de entendimento aprofundado, consegue compreender que, representações como esta, de argumentação rasa, só acabam fortalecendo os denunciados e acaba, de certo modo, diminuindo a vontade dos cidadãos de representarem no Ministério Público do Estado de SP.
Por isso, que um cidadão, Associação de Bairro ou ONG, DEVEM APURAR ANTES os fatos, procurando os meios administrativos antes, levantando PROVAS CONCRETAS e não apenas seguirem pelas narrativas dos boletins de noticiários da grande mídia; geralmente, eles não têm aprofundamento suficiente na área de mobilidade urbana e as interações com a política, vida social e com demais setores públicos, como saúde, segurança e tecnologia. Apenas canais como este, que têm verdadeiro aprofundamento na área, é que têm reais condições de informar corretamente o que de fato acontece no setor de mobilidade.
Representações rasas como esta, estragam o trabalho de pessoas sérias que querem melhorar a mobilidade urbana da RMSP, da cidade de SP e da nação brasileira.
É por isso que eu, sempre me atenho a detalhamento técnico e a situações factuais, do que criar qualquer representação no MP-SP com factóides ou ilações.
E peço para que, quem entende de mobilidade, CONTINUE APONTANDO AS FALHAS DO SISTEMA, pois é assim que se busca a excelência e NÃO SE INTIMIDE COM VITÓRIAS APARENTES DE AUTARQUIAS E OPERADORAS, ELAS ESTÃO PARA NOS SERVIR E DE MODO CORRETO, EFICIENTE E A FAVOR DA POPULAÇÃO E MUNICIPALIDADE, COMO SEMPRE BEM APONTOU O EXMO. SR PROCURADOR DO ESTADO, DR. SAAD MAZLOUM, NA ÉPOCA QUE ERA PROMOTOR DE JUSTIÇA DO PATRIMÔNIO PÚBLICO DA CAPITAL E INSTAUROU A INVESTIGAÇÃO NO MP-SP JUNTAMENTE COM O DR. SILVIO MARQUES, QUE SERVIU DE LASTRO PARA TODAS OS OUTROS PROCEDIMENTOS IMPORTANTES NA AREA DE MOBILIDADE URBANA DA CAPITAL E RMSP.
Espero que a Next e a ARTESP, ao invés de relaxarem, fiquem mais alertas e melhorem os serviços, ao invés de comemorarem.
Morro de rir dessa galera achando que o MP tem alguém isento, e não apenas por politicagem.