Transporte rodoviário na era da Inteligência Artificial: decidir melhor passa a valer mais do que operar bem, diz especialista
Publicado em: 5 de maio de 2026
O advogado Ilo Löbel da Luz alerta: empresas que dominam dados ganham vantagem enquanto modelos tradicionais perdem fôlego
ALEXANDRE PELEGI
A decisão da Amazon de utilizar inteligência artificial para conduzir entrevistas de emprego em larga escala chamou a atenção do mercado global. Mas, mais do que uma inovação em recursos humanos, o movimento revela uma transformação estrutural: a transferência do processo decisório para modelos baseados em dados.
No transporte rodoviário de passageiros, essa mudança já começou — ainda que de forma silenciosa. Tradicionalmente, decisões estratégicas como definição de linhas, ajuste de tarifas e expansão operacional sempre estiveram associadas à experiência acumulada de gestores. O “feeling” de quem conhece o mercado há anos ainda é, em muitos casos, o principal guia.
Para o especialista em mobilidade e tecnologia aplicada ao setor, Ilo Löbel da Luz, esse modelo está sendo rapidamente substituído.
“O que está acontecendo não é apenas a adoção de tecnologia. É uma mudança de poder dentro das empresas. A decisão deixa de ser baseada na intuição e passa a ser feita por modelos matemáticos inteligentes, capazes de processar um volume de dados que nenhum ser humano conseguiria”, afirma.
Segundo Ilo, o paralelo com a Amazon é direto. “A Amazon não está apenas automatizando entrevistas. Ela está dizendo, na prática, que decisões complexas podem ser tomadas por sistemas. E isso, no transporte, já está acontecendo.”
Ele explica que a transformação vai além da eficiência operacional. “Hoje, você consegue definir rotas, horários, preços e até a alocação da frota com base em modelos analíticos robustos. Não é mais uma questão de apoio à decisão. Em muitos casos, o modelo já é a própria decisão.”
Essa mudança altera profundamente a dinâmica competitiva do setor. Empresas que dominam dados e conseguem processá-los com rapidez passam a operar com maior precisão, reduzindo desperdícios e ampliando margens. Em contrapartida, operadores que continuam baseando suas decisões exclusivamente na experiência passada tendem a reagir mais lentamente às mudanças do mercado.
“O setor sempre valorizou muito quem opera bem — e isso continua sendo importante. Mas o jogo mudou. Agora, quem decide melhor, com base em dados, começa a abrir vantagem estrutural”, diz.
Para Ilo Löbel da Luz, há um ponto crítico que ainda não está claro para boa parte das empresas. “Muitas organizações acham que estão inovando porque digitalizaram processos. Mas digitalizar não é decidir melhor. O diferencial está em transformar dado em decisão de forma rápida e consistente.”
O especialista também chama atenção para o risco de uma falsa sensação de controle. “Quando a decisão é baseada apenas na experiência, você tem conforto, porque domina o passado. Mas o mercado não é mais sobre o passado. É sobre o que está acontecendo agora — e o dado captura isso com muito mais precisão.”
O avanço da inteligência artificial no transporte rodoviário faz parte de um movimento mais amplo de digitalização da economia, no qual a capacidade de análise de dados passa a ser um diferencial estratégico tão relevante quanto a própria operação.
Na prática, o setor começa a viver uma transição silenciosa, em que o controle das decisões migra gradualmente das pessoas para os sistemas. O papel do gestor, nesse contexto, também muda: deixa de ser o decisor principal e passa a atuar como intérprete e direcionador de modelos.
“Não é que o ser humano deixa de ser importante. Ele muda de função. Sai do papel de quem decide sozinho e passa a ser quem entende o modelo, questiona e direciona. Só que, para isso, precisa de uma nova capacidade — a de ler dados”, afirma.
O caso da Amazon, portanto, não é um ponto fora da curva, mas um sinal claro do que está por vir. E, no transporte rodoviário, a questão que se impõe é direta.
“Quem continuar decidindo como decidiu nos últimos 20 anos vai perder espaço. Não porque opera mal, mas porque decide pior”, conclui Ilo Löbel da Luz.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


