Missão da CNT revela como governança e financiamento sustentam mobilidade integrada em Barcelona

Experiência apresentada a executivos brasileiros do setor de transporte evidencia diferença entre modelo europeu integrado e a fragmentação ainda comum no Brasil

ALEXANDRE PELEGI

A delegação brasileira formada por líderes empresariais e institucionais do setor de transporte embarcou na sexta-feira, 24 de abril de 2026, para a Missão Internacional do Transporte na Espanha, organizada pelo Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL). A iniciativa tem como foco fortalecer a liderança e preparar o setor para as rápidas transformações tecnológicas que impactam a mobilidade, ao mesmo tempo em que expõe executivos brasileiros a experiências internacionais consolidadas.

A abertura oficial da Missão ocorreu no sábado à noite (25), com a presença do presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, do ex-presidente e fundador do SEST SENAT, Clésio Andrade, além de representantes da Embaixada do Brasil na Espanha e de autoridades brasileiras.

Já nos primeiros dias da agenda, realizada na última semana de abril, o grupo teve contato direto com um dos exemplos mais emblemáticos da Europa: o modelo de gestão da Área Metropolitana de Barcelona. A apresentação técnica, feita aos participantes da missão, detalhou como a mobilidade é tratada como um sistema integrado, articulado com o planejamento urbano, o financiamento público e a governança institucional — um contraste evidente com a fragmentação ainda presente em boa parte das cidades brasileiras.

MODELO DE BARCELONA

Barcelona, escolhida como base da missão, funciona como um verdadeiro laboratório de mobilidade. A cidade e seu entorno metropolitano, com 36 municípios e cerca de 3,3 milhões de habitantes, operam sob uma lógica unificada, na qual o transporte coletivo urbano é gerido de forma centralizada sempre que os deslocamentos ocorrem dentro desse território. A integração não é apenas operacional, mas também tarifária e institucional, permitindo ao usuário transitar entre diferentes modos com regras únicas, algo que, na prática, simplifica a experiência do passageiro e aumenta a eficiência do sistema.

É um choque positivo perceber como o transporte aqui não é tratado de forma isolada, mas como parte de uma política urbana maior”, afirma Luana Fleck, da Viação Ouro e Prata. A percepção é compartilhada por outros integrantes da delegação, que destacam o impacto direto da organização institucional sobre os resultados operacionais. “Quando a gente vê a integração tarifária funcionando de verdade, percebe o quanto ainda temos a avançar no Brasil”, diz um executivo participante da missão. Para outro integrante, o aprendizado vai além da tecnologia: “Essa experiência mostra que não é só inovação. É governança, decisão política e continuidade de projeto”, resume outro participante da delegação brasileira.

Os dados apresentados reforçam essa visão. Apenas cerca de 23% dos deslocamentos na região metropolitana são feitos por transporte individual, enquanto mais da metade ocorre por modos ativos, como caminhada e bicicleta. O transporte público responde por cerca de 20% das viagens, resultado de décadas de políticas urbanas e de mobilidade alinhadas. Esse desempenho está diretamente associado ao desenho urbano — com serviços distribuídos e menor necessidade de deslocamentos longos — e a uma estratégia consistente de priorização do transporte coletivo.

Outro aspecto que chama atenção dos participantes é o modelo de financiamento. Cerca de 40% do orçamento metropolitano é destinado à mobilidade, com forte presença de recursos públicos, incluindo transferências municipais e tributos específicos. A tarifa paga pelo usuário cobre apenas parte do custo do sistema, girando em torno de 40%, sendo o restante financiado pelo poder público. Esse arranjo permite manter tarifas acessíveis e, ao mesmo tempo, garantir qualidade e expansão do serviço.

Mesmo com a participação de operadores privados, o controle do sistema permanece público, inclusive com parte da frota pertencendo ao próprio ente metropolitano, o que amplia a capacidade de indução de políticas, como a renovação dos veículos e a transição energética. Esse desenho institucional também sustenta a implementação de políticas integradas, como zonas de baixas emissões, redes cicloviárias coordenadas entre municípios, sistemas de bicicletas compartilhadas, gestão unificada de estacionamento e expansão da infraestrutura de recarga elétrica.

A missão internacional, segundo a CNT, tem como objetivo justamente ampliar essa visão estratégica entre os líderes do setor, com horizonte de médio e longo prazo, incluindo cenários projetados até 2035. A proposta vai além da observação técnica: busca provocar reflexão sobre o papel do transporte dentro de um sistema maior, que envolve cidade, economia e qualidade de vida.

Enquanto Barcelona opera com integração institucional, tarifária e de planejamento, metrópoles brasileiras ainda enfrentam fragmentação entre modos, operadores e níveis de governo. Mais do que uma diferença de modelo, trata-se de uma diferença de abordagem: de um lado, o transporte pensado como sistema; de outro, ainda como a soma de serviços.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. LAURINDO MARTINS JUNQUEIRA FILHO Martins Junqueira disse:

    Beleza de visita! Lembremo-nos, apenas, que o planejamento urbano em Barça começou nos anos 1200, ou seja, há mais de 800 anos. Eles, portanto, têm a planificação incorporada na gestão da cidade. São Paulo, nos últimos 90 anos (segundo Tácito Silveira), teve cerca de 40 planos feitos e todos descontinuados… Ademais, uma observação importante: depois do excepcional plano feito por Jordi Borja para as Olimpíadas dos anos 1980, a cidade se tornou tão famosa que a máfia russa (depois do fim da URSS em 1992) comprou grande parte dos imóveis do centro (e das praias espanholas). E fez isso para explorar o turismo na chamada Costa do Sol. A população local teve que se transferir para a região metropolitana, o que causou grande insatisfação popular e a criação de tributos sobre o air-b&b. Barcelona é tida como uma das 12 Cidades Globais, as quais concentram a maior quantidade de fluxos (de todos os tipos) dentre todas as demais. São Paulo ocupava o 12o. lugar em 1983. Assim, a planificação metropolitana da circulação (e não da mal-dita “mobilidade”) é apenas parte da planificação total de uma cidade. Abçs.

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