Eletromobilidade

Richele Cabral, da SEMOVE, diz que volta dos passageiros ao transporte público no RJ pode gerar impacto climático igual ao da eletrificação de toda a frota de ônibus do país

Richele Cabral, Diretora de Mobilidade Urbana da SEMOVE

Diretora de Mobilidade Urbana da Federação das Empresas de ônibus do Estado do Rio ressaltou que a eletrificação só gera ganhos ambientais plenos com passageiros de volta ao transporte público

ALEXANDRE PELEGI

A diretora de Mobilidade Urbana da SEMOVE (Federação das Empresas de Mobilidade do Estado do Rio de Janeiro), Richele Cabral, defendeu que a requalificação do serviço de transporte público coletivo é condição central para qualquer política efetiva de sustentabilidade ambiental. A avaliação foi apresentada durante o painel “Soluções para a requalificação do serviço de transporte público coletivo”, no segundo dia do Fórum de Transição Energética do DETRO-RJ, realizado nesta quarta-feira, 04 de janeiro de 2026.

Segundo Richele, recuperar a demanda perdida no estado do Rio de Janeiro teria impacto equivalente, em termos de redução de emissões de CO₂, ao da eletrificação de toda a frota de ônibus do país, o que evidencia que a agenda climática no transporte vai além da troca tecnológica dos veículos .

“Sem passageiro, não existe sustentabilidade. O transporte público, por si só, já é mais eficiente, mais seguro e mais limpo do que o transporte individual”, afirmou.

Transporte público é estruturalmente mais eficiente

Dados apresentados no painel mostram que o transporte público por ônibus é mais de oito vezes mais eficiente energeticamente que o automóvel e mais de 20 vezes mais eficiente no uso do espaço viário. Além disso, apenas 0,32% das vítimas de acidentes de trânsito estavam em ônibus, reforçando o papel do modo coletivo na segurança viária e na redução dos custos com saúde pública.

Colapso da demanda na última década

Richele apresentou números que evidenciam a dimensão da crise do modelo atual. Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, entre 2014 e 2025, o sistema de ônibus registrou:

  • Queda de 48% na frota em operação, de 19.574 para 10.142 veículos;
  • Redução de 49% no número de passageiros pagantes, de cerca de 160 milhões para 81,5 milhões (média mensal);
  • Diminuição de 52% nos quilômetros rodados;
  • Queda de 53% no número de viagens realizadas.

“Isso significa menos oferta nas ruas e mais pessoas migrando para modos individuais, que ocupam mais espaço e poluem mais”, destacou.

Migração para carro, moto e aplicativos

Pesquisas da COPPE/UFRJ e da CNT/NTU indicam mudanças profundas no padrão de deslocamento. Em nível nacional, a participação do ônibus caiu de 45% em 2017 para 31% em 2024, enquanto o uso do automóvel subiu de 22% para 30%. Os serviços por aplicativo passaram de 1% para 11%, um crescimento de cerca de 1.000%, e o uso de motocicletas também avançou de forma expressiva .

Em 2024, 30% dos entrevistados afirmaram ter abandonado totalmente o ônibus, quase o dobro do registrado em 2017. Desses usuários, 72% migraram para o transporte individual motorizado, seja carro ou moto, próprios ou por aplicativo.

Tempo de viagem é o principal fator de rejeição

As pesquisas apresentadas mostram que tempo de viagem e tempo de espera no ponto são os principais motivos para o abandono do ônibus, superando inclusive o custo da tarifa. No pós-pandemia, mais de 30% das respostas apontaram o tempo como o fator determinante para não usar o transporte público .

Além disso, estudos da COPPE indicam que 73,2% das pessoas percebem impactos negativos do tempo de deslocamento na qualidade de vida, com reflexos no humor, no bem-estar mental e físico e na produtividade no trabalho.

Richele destacou que há espaço real para recuperação da demanda. Pesquisa específica sobre usuários de motocicleta mostrou que 78% estariam dispostos a migrar para o ônibus caso houvesse redução significativa no tempo de viagem. Se o ônibus fosse até cinco minutos mais rápido, a taxa de disposição para retorno ultrapassaria 40% .

“Isso mostra que priorização viária não é detalhe técnico, é política pública central”, afirmou.

Caso Goiânia como referência

Como exemplo de reversão da tendência de queda, Richele citou Goiânia, que já recuperou 100% da demanda pré-pandemia. Entre as medidas adotadas estão subsídio tarifário compartilhado, governança metropolitana, expansão de corredores, priorização semafórica e investimentos em informação ao passageiro.

Na capital goiana, a velocidade média dos ônibus em corredores prioritários aumentou de 16 km/h para até 22 km/h, com ganhos diretos de confiabilidade e atratividade do sistema.

Ao final, Richele reforçou que tecnologia é parte da solução, mas não suficiente isoladamente.

“Ônibus elétrico parado no congestionamento não transforma a cidade. Sustentabilidade também passa por planejamento, eficiência e pessoas usando o sistema”, concluiu.


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    Até pouco tempo atrás os gestores consideravam o tempo de viagem no transporte público somente a partir do momento em que o passageiro embarcava no modal (ônibus ou trem).
    Finalmente conseguiram agora entender que o que realmente conta é o tempo total gasto en todo o trajeto porta-a-porta, incluindo os deslocamentos a pé até o modal e especialmente o tempo de espera pelo(s) modal(is).

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