Ônibus acumulam alta de 10,8% no ano, mas outubro registra recuo na produção e nos emplacamentos, diz Anfavea
Publicado em: 14 de novembro de 2025
Apesar do ritmo firme em 2025, mês teve impacto das turbulências no mercado externo e da desaceleração dos pesados
ALEXANDRE PELEGI
O balanço de outubro divulgado pela Anfavea mostra que o mercado de ônibus segue sustentando parte do dinamismo do setor automotivo em 2025, embora o mês tenha trazido um desempenho mais fraco. No acumulado de janeiro a outubro, a produção de ônibus chega a 19.660 unidades, alta de 10,8% em relação ao mesmo período de 2024, desempenho superior ao dos caminhões, que recuam 7,3% no ano. Mas o cenário mensal foi bem diferente: outubro registrou 2.134 ônibus produzidos, uma queda de 23,4% sobre setembro e retração de 11,6% frente a outubro do ano anterior.
Nos emplacamentos, o comportamento foi semelhante. As 1.970 unidades licenciadas representaram estabilidade em relação a setembro, com leve alta de 0,8%, mas um recuo expressivo de 23,5% na comparação com outubro de 2024. Apesar disso, o movimento acumulado do ano segue mais favorável, indicando que a demanda por transporte coletivo mantém alguma robustez, impulsionada por renovações de frota urbana e rodoviária e por compras programadas em grandes sistemas.
No mercado externo, o impacto foi ainda mais pesado. As exportações de ônibus, que acumulam crescimento de 49,2% no ano, sofreram um tombo de 35,9% em outubro na comparação com setembro. A principal razão foi a forte queda no comércio com a Colômbia, que reduziu em 92% as importações de veículos brasileiros no mês devido à suspensão temporária do acordo de livre comércio. A associação relata que o entendimento bilateral foi renovado por mais um ano, após articulação do governo brasileiro e das montadoras, o que deve permitir a normalização gradual dos embarques.
O comportamento dos pesados também ajuda a explicar parte do cenário. A Anfavea destacou que a crise do crédito, com taxas de juros elevadas e inadimplência crescente, continua afetando diretamente os caminhões, cujo desempenho no último trimestre representa, segundo a entidade, “a perda de um mês inteiro de produção”. Em contraste, os ônibus têm resistido melhor à oscilação econômica, com resultado anual positivo mesmo diante das dificuldades do mês.
Enquanto isso, o mercado total de autoveículos viveu seu melhor momento em 12 meses, com 260,7 mil unidades emplacadas em outubro, alta de 7,2% sobre setembro, embora ainda 1,6% abaixo de outubro de 2024. O segmento de ônibus não acompanhou esse ritmo, mas seu desempenho acumulado mostra que há demanda reprimida e planos de renovação em andamento, o que tende a manter o setor relevante para a recuperação da produção nacional de pesados.
Mesmo com a oscilação mensal, a leitura geral mostra que 2025 tem sido um ano de retomada gradual para o transporte coletivo, com indicadores que, no conjunto, seguem superiores aos de 2024, especialmente nas exportações e na produção acumulada. A expectativa do setor para os últimos meses do ano é de estabilidade, com possível aceleração em dezembro em virtude de entregas programadas e normalização parcial do fluxo para mercados estratégicos.
Ônibus elétricos ganham espaço no Brasil
O recorte dos veículos eletrificados no balanço de outubro da Anfavea reforça uma tendência que também se reflete no transporte coletivo: os ônibus elétricos avançam, mas ainda de forma gradual. O ambiente brasileiro continua particularmente favorável para esse tipo de tecnologia, já que a matriz elétrica nacional — com predominância de fontes renováveis — garante emissões significativamente menores quando comparada à de outros países. Estudos apresentados pela própria entidade mostram que um ônibus elétrico rodando no Brasil emite cerca de 50% menos do que o mesmo veículo operando na Europa, e muito menos que em mercados altamente dependentes de carvão, como China e Estados Unidos.
Ainda assim, a participação dos veículos pesados eletrificados no total de emplacamentos nacionais segue pequena quando comparada aos leves, nos quais os híbridos e elétricos já somam 11,2% das vendas de outubro e apresentam crescimento anual de 73,1% no mês e 58,3% no acumulado do ano. Nos pesados, a curva é menos inclinada. A renovação de frota de ônibus elétricos ocorre majoritariamente por meio de grandes contratos públicos ou de concessões de transporte urbano, que dependem de cronogramas de licitações, financiamentos específicos e infraestrutura de recarga — fator que ainda limita a expansão mais acelerada.
Mesmo assim, operadoras em capitais como São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e Salvador ampliaram pedidos ou renovaram compromissos com metas de eletrificação, impulsionando as primeiras ondas de produção nacional e importação desses modelos. O impacto direto já aparece na indústria: fabricantes de pesados vêm incorporando modelos elétricos e híbridos a gás em sua estratégia de descarbonização, condição que se tornou central nas apresentações da Anfavea na COP30, onde a entidade reforçou que a redução das emissões no transporte coletivo passa obrigatoriamente por duas frentes — eletrificação e biocombustíveis avançados.
O ritmo de crescimento dos elétricos no transporte coletivo deve ganhar corpo nos próximos anos, acompanhando movimentos de investimentos municipais e pressões regulatórias por redução de emissões. Mas, por enquanto, o avanço é consistente, embora lento, condicionado principalmente ao custo dos veículos e à necessidade de infraestrutura urbana integrada. A leitura geral é de maturação: a tecnologia deixa de ser experimental e passa a fazer parte da rotina de planejamento das cidades — e o balanço de 2025 confirma essa tendência.


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
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