FlixBus vence na Justiça Europeia e reacende discussão sobre regulação e concorrência na ANTT
Publicado em: 9 de outubro de 2025
No Brasil persiste o desafio de conciliar inovação tecnológica e novos modelos de negócio com a segurança jurídica e a equidade regulatória
ALEXANDRE PELEGI
O Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) rejeitou um recurso apresentado pelo governo da Espanha contra decisão da Comissão Europeia que autorizava a FlixBus a operar uma linha internacional entre a Alemanha e a Espanha com permissão para vender passagens dentro do território espanhol, em trechos como Madri–Barcelona — prática conhecida como cabotagem.
A sentença, publicada em 7 de outubro de 2025, manteve o entendimento de que a Espanha não apresentou provas suficientes de danos graves e irreparáveis que justificassem suspender a autorização, abrindo o mercado de longa distância espanhol a novos concorrentes e rompendo com o modelo histórico de concessões exclusivas.
A decisão tem repercussão direta sobre o debate brasileiro. Assim como na Europa, o Transporte Rodoviário Interestadual de Passageiros (TRIP) enfrenta o desafio de conciliar inovação tecnológica e novos modelos de negócio com a segurança jurídica e a equidade regulatória.
Para analisar as lições que o caso europeu traz ao Brasil, o Diário do Transporte ouviu o consultor Ilo Löbel da Luz, especialista em regulação da ANTT, mobilidade e inovação no transporte de passageiros.
Europa dá um recado: não basta temer a concorrência, é preciso provar os riscos
Segundo Ilo Löbel, a principal mensagem do caso FlixBus é a mudança de paradigma sobre o papel do Estado frente à concorrência.
“O Tribunal europeu inverteu a lógica”, explica. “A Espanha alegava risco à sustentabilidade do sistema, mas não apresentou evidências. O TJUE deixou claro que não se bloqueia inovação com base em suposições. Quem quer restringir o mercado precisa demonstrar, com dados concretos, que a entrada de um novo operador causará prejuízos graves e irreparáveis.”
Para o consultor, essa lógica deveria inspirar o debate brasileiro.
“Ainda há no Brasil uma cultura de proteção preventiva — a ideia de que é melhor travar a mudança antes que ela aconteça. O problema é que isso desestimula a inovação e perpetua ineficiências. Precisamos aprender a regular a partir da experiência, não do medo.”
Paralelos com o modelo brasileiro
A decisão europeia reflete dilemas familiares à regulação da ANTT. O sistema brasileiro convive com autorizações recentes e concessões antigas, algumas ainda amparadas por decisões judiciais, num mosaico de regimes operacionais distintos.
“O caso espanhol é quase um espelho do nosso”, afirma Löbel. “Lá, as concessões exclusivas travaram a entrada de novos operadores, como a FlixBus. Aqui, ainda discutimos como equilibrar abertura e responsabilidade. A ANTT tem avançado — com consultas públicas e ajustes regulatórios —, mas o desafio é consolidar um marco que permita competição sem abrir mão da equidade.”
Ele lembra que o mercado brasileiro também enfrenta pressões semelhantes às vistas na Europa, com novas plataformas digitais e modelos de operação mais enxutos tentando disputar espaço com operadoras tradicionais.
“Não é um conflito entre o antigo e o novo”, diz. “É uma disputa por coerência. Todos devem jogar sob as mesmas regras.”
Capilaridade e equilíbrio: um debate que se repete
Assim como na Espanha, parte do setor brasileiro argumenta que a abertura de mercado pode ameaçar a capilaridade do transporte regular, concentrando serviços em rotas rentáveis e deixando regiões menores descobertas.
“Esse é o mesmo argumento usado pelo governo espanhol”, observa Löbel. “E o TJUE respondeu de forma precisa: o problema não está na concorrência, mas na ausência de políticas públicas que garantam cobertura onde o mercado não chega. A solução não é fechar o sistema, é criar instrumentos de compensação.”
Para o especialista, o Brasil já discute mecanismos que poderiam cumprir esse papel, como fundos de universalização, subsídios cruzados ou incentivos operacionais regionais.
“O Estado pode e deve atuar, mas como regulador e indutor, não como barreira”, reforça.
O que a decisão ensina à ANTT e ao Brasil
Löbel resume o aprendizado europeu em uma frase:
“Inovação com regras claras é o verdadeiro equilíbrio.”
“A decisão do TJUE mostra que a modernização do transporte depende de uma regulação justa, não de mais regulação”, diz. “O futuro do transporte rodoviário está em garantir que todos partam das mesmas condições — segurança, qualidade, responsabilidade — e que a disputa aconteça no que realmente importa: atendimento, eficiência e experiência do passageiro.”
Para ele, o desafio da ANTT é consolidar esse novo marco sem romper a base de confiança construída ao longo das décadas.
“O transporte regular é uma política pública essencial. Mas isso não significa que precise ser imutável. A regulação deve proteger o passageiro, não o status quo.”
Conclusão: o futuro se constrói com equilíbrio
A decisão europeia, ao liberar a cabotagem da FlixBus, não acabou com o modelo de concessões espanhol, mas obrigou o país a repensá-lo. No Brasil, a reflexão segue o mesmo caminho.
“Harmonizar o ambiente de negócios não significa andar para trás”, conclui Löbel. “Significa permitir que o progresso avance sobre uma base sólida e justa. A competição só é real quando todos estão sob as mesmas regras. Esse é o aprendizado que o ‘caso FlixBus’ oferece — e que o Brasil não pode ignorar.”
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



Lendo essa matéria só lembro do jogo FernBus Simulator, o game tem rotas reais e atende grande parte da Europa.
Como leitor de todos os assuntos na internet,agora lendo essa matéria,posso opinar o seguinte: no Brasil,há uma proteção as grandes empresas,no caso aqui,dos transportes,vejo a briga entre as empresas pelo que sobrou da Itapemirim,lembrando que,quando a mesma Itapemerim,tava parada,nenhuma das grandes empresas se interessou em reerguer a mesma,depois que a Suzantur,assumiu e levantou recolocando no mercado,as outras correram atrás,querendo e quer abocanhar a mesma agora em pé outra vez,bem,mas minha opinião é sobre os mercados de transportes de passageiros e sobre a parte do Brasil onde quase não há empresa,a não ser só uma,mas o que precisa é evitar monopólio,cito aqui o Norte do Brasil,região de Mato Grosso do Sul para cima,onde se eu não estiver equivocado somente uma empresa opera nessa região. Falo da Empresa Eucatur,essa só ela está lá,nenhuma outra consegue concessão para trabalhar nessa região, porque será? Então que ANTT toma as providências para que outras empresas trabalhem naquela região como já citado aqui,é digo: essa empresa Eucatur presta mal serviço a população dessa região,que se alguém discorde de mim,me contrate.