VÍDEO: Estação da Luz sob um olhar diferente – Imagens exclusivas
Publicado em: 5 de maio de 2025
Diário do Transporte acompanhou visita a áreas da icônica estação que não são liberadas aos passageiros habitualmente e descobriu histórias pouco contadas na memória da ferrovia paulista
ADAMO BAZANI
Colaborou Yuri Sena
AO FIM DA REPORTAGEM, VEJA MAIS FOTOS:
Todos os dias, utilizam a estação da Luz, na região central da cidade de São Paulo, uma média de 450 mil passageiros. Uma quantidade de pessoas superior a população de muitas cidades da Grande São Paulo.
Somente de entradas diretas pela estação, são 150 mil pessoas aproximadamente.
A arquitetura, que remete ao que era de mais luxuoso da Europa do início século passado, esconde muitas histórias pouco conhecidas da imensa maioria dessa massa que passa todos os dias pelo local utilizando linhas como 7-Rubi, 10-Turquesa, Serviço 710, 11-Coral e o Expresso Aeroporto da linha 13-Jade da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), além das conexões com as linhas 1-Azul e 4-Amarela de metrô e com as diversas linhas de ônibus que atendem a região.
O Diário do Transporte acompanhou no último domingo, 18 de agosto de 2024, uma visita guiada proporcionada pelo Museu da Língua Portuguesa e CPTM à Estação da Luz, uma das atrações da Virada do Patrimônio.
Além de estar em áreas da estação que não são abertas aos passageiros e a todos os funcionários, foi possível saber de fatos históricos pouco conhecidos da estação, da ferrovia e da formação urbana de São Paulo.
Um deles é a importância dos povos indígenas e de negros escravizados na implantação da ferrovia no Estado de São Paulo.
Quando se fala na estação da Luz e na primeira ferrovia de São Paulo, que faz a ligação entre Jundiaí e Santos, passando pela capital e ABC Paulista, logo se pensa na SPR (São Paulo Railway), do capital inglês neste investimento e no idealizador Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá.
E está correto. O estilo arquitetônico da Estação da Luz reflete estes aspectos da história, mas não são os únicos.
A começar pelo caminho escolhido para a implantação dos trilhos, que foi baseado nas trilhas e trajetos feitos pelos povos indígenas, que conheciam bem as regiões por onde passaria a ferrovia e poderiam indicar as melhores rotas para as limitações dos trens, que não podem fazer curvas muito fechadas e encarar aclives muito acentuados.
Na visita, foram exibidos mapas destes caminhos dos povos indígenas e do traçado da ferrovia.
Ambos coincidiam e não era à toa. Não tinha nada de Google Maps, satélites, registros fotográficos e a engenharia era limitada.
Não é exagero dizer que, na prática, os povos indígenas “desenharam” o caminho da primeira ferrovia paulista.

A atividade cultural acompanhada pelo Diário do Transporte teve o tema “Entre Rios e Trilhos: presenças indígenas no Guaré e região da Luz”.
O nome Luz é por causa de uma igreja erguida em devoção à Nossa Senhora da Luz, mas anteriormente, o local onde está a estação era conhecida como “Campos do Guaré” ou Caminho Guarepe, um grande pasto no local.
Outro fato pouco conhecido sobre a formação da primeira ferrovia paulista é que, segundo a explicação na visita, as obras de construção tiveram grande participação de negros escravizados que atuam nas plantações de café.
Apesar da grande importância para a urbanização e para o transporte de passageiros, a ferrovia foi construída para escoar a produção do café do interior de São Paulo para o Porto de Santos, na segunda metade do século XIX, com o objetivo de exportar o produto brasileiro.
A participação dos negros escravizados era sazonal. Seis meses, atuavam nas obras e, em outros seis meses, no plantio e cultivo do café.
Mas tem mais história pouco conhecida.
A pomposa estação da Luz que os milhares de passageiros veem todos os dias, na verdade, é a “terceira” estação da Luz.
A primeira edificação, que ficava perto da atual (na área de trás), foi inaugurada junto com a linha em 1867 e era bem simples, de pau a pique, feita com barro, material abundante em São Paulo, até mesmo pela presença dos rios que cortam a região central da cidade.

“Primeira” estação
Mas a demanda de café crescia, assim como a população e a quantidade de passageiros, incluindo imigrantes que chegavam pelo Porto de Santos.
Uma segunda estrutura então foi concebida em 1888.
O crescimento continuava, era necessário um espaço maior e mais adequado para fazer frente ao desenvolvimento urbano e econômico de São Paulo por causa da ferrovia.
Assim, em 1895 a atual estação da Luz começou a ser construída, sendo inaugurada em 1º de março de 1901.
Outro fato pouco conhecido é que a entrada principal da estação não é original de 1901.
Isso porque, em 1946, bem no ano em que acabava a concessão da SPR – São Paulo Railway, a estação da Luz foi alvo de um grande incêndio. Há até a versão de que o incêndio teria sido criminoso e estaria relacionado ao término do contrato com os ingleses e que, o objetivo, era queimar arquivos que comprovariam débitos para com o Governo Federal. Apesar da versão, nada foi confirmado oficialmente, mas nem totalmente descartado.
Na reconstrução, o estilo arquitetônico unicamente inglês recebeu outras influências, como da arquitetura francesa. Os impotentes lustres da entrada deixam isso claro.
A estação ganhou um andar a mais e, para isso, a entrada que era um vão livre precisou receber pilastras de sustentação.
Um aspecto controverso disso é que, na ocisão, se falou muito que foram usadas mais pilastras do que o necessário justamente para deixar a obra mais cara e os responsáveis pelo serviço e agentes públicos ganharem um bom dinheiro a mais.
Também nada foi comprovado, mas nada descartado.
Esta é a estação da Luz, cheia de histórias, oficiais ou não. Histórias de vidas, de povos e que é um exemplo material, das diferenças e semelhanças que fazem São Paulo uma cidade-nação como poucas vistas no mundo.
VEJA MAIS FOTOS DA VISITA:




Vista do Mezanino, local não acessado por passageiros








Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes



Eu creio piamente que o incêndio de 1946 foi criminoso, pra mim é explícito o que os ingleses fizeram. Quanto a reforma da entrada, eu curto a versão original, sem laje, com pé direito ainda mais alto e com a riqueza dos detalhes (procurem na internet, era um belíssimo teto).
Excelente matéria!
A Estação da Luz é um daqueles grandes tesouros históricos e arquitetônicos paulistanos, que felizmente têm conseguido atravessar o tempo inteiros e em forma.
A estação reformou e ficou muito bonita a noite principalmente, mas infelizmente enquanto a Landia continuar ali perto espantará qualquer turismo, quem sabe um dia.