É dinheiro do público empregado em frota que não pode operar. Enquanto isso, passageiros pagam caro para andar em ônibus velhos, sem ar-condicionado, sem conforto, quentes, que quebram e atrasam mais. ENEL descumpre prazos e fabricantes também estão sem receber
ADAMO BAZANI
Colaboraram Alexandre Pelegi e Yuri Sena
ADAMO BAZANI
Ouça também a Rádio Bandeirantes, Programa Pulo do Gato, com Pedro Campos e Silvânia Alves – O repórter e editor do Diário do Transporte, Adamo Bazani, sobre a situação na Mobibrasil – Neste link abaixo, com o sinal de Play
LEIA NA ÍNTEGRA COM MAIS DADOS:
Ônibus elétricos nesta garagem no Jabaquara, zona Sul da capital paulista, têm. E têm bastante. São ao menos 33 veículos, cada um custando cerca de R$ 3 milhões. Carregadores para as baterias também têm e não é pouca coisa: 16 equipamentos, cada um pode atender dois veículos.
Mesmo assim, os cerca de 370 mil passageiros que usam todos os dias as 50 linhas da empresa Mobibrasil, sendo 115 mil somente nas 25 linhas da região, ainda precisam pagar R$ 5 em cada viagem para andar em diversos ônibus com idades entre 10 e 13 anos porque estes elétricos novos, com ar-condicionado, wi-fi e que quase não fazem barulho, não têm energia para rodar. A população, por meio de financiamentos públicos obtidos pela prefeitura na ordem de R$ 5,75 bilhões paga ou vai pagar ainda por esta eletrificação, mas não usufrui.
O motivo, segundo a empresa, é que há quase um ano a ENEL não faz a ligação necessária para adaptação da rede de fornecimento que permitiria com que houvesse energia elétrica suficiente para estes ônibus estarem onde deveriam faz tempo: nas linhas atendendo os passageiros.
Não é um caso isolado. O Diário do Transporte verificou que situações semelhantes ocorrem em diversas outras garagens. Todas apontando atrasos da ENEL.
A reportagem entrou em contato com a ENEL e com a SPTrans e prefeitura de São Paulo.
O assunto, TRAZIDO EM PRIMEIRA MÃO pelo Diário do Transporte, repercutiu em diversos órgãos de mídia e o prefeito Ricardo Nunes diz que o total de ônibus elétricos já prontos e que não podem rodar por causa da ENEL é de 80 veículos. Nunes enviou notificações a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), ao TCU (Tribunal de Contas da União) e Procon para que a distribuidora de energia seja cobrada também por estes órgãos, já que a concessão é federal.
Veja:
ENEL descumpriu prazos, passageiros andam em ônibus velhos e fabricantes também estão sem receber
A situação tem prejudicado toda a cadeia de transportes:
– A população, que não pode contar com ônibus melhores, apesar de os financiamentos para esta frota serem públicos;
– As operadoras de transportes, que estão proibidas de comprar modelos a diesel novos, sendo obrigadas a comprar os elétricos, mas não conseguem colocar para rodar e pagam a manutenção mais cara que os velhos exigem;
– As fabricantes de ônibus, componentes e carregadores, uma vez que a prefeitura obteve linhas de financiamento de instituições como BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil na ordem de R$ 5,75 bilhões; mas, pelas regras, os fornecedores só recebem depois do início das operações;
O Diário do Transporte conversou com o gerente operacional da garagem da Mobibrasil, Manoel Pereira, que disse que somente oito dos 33 ônibus conseguem rodar. Se forem carregados mais, a energia do bairro não aguenta e pode até haver um apagão no bairro do Jabaquara.
“A gente solicitou a ligação do modelo de operacionalização ideal para a ENEL em julho do ano passado, com o primeiro contato em abril já demonstrando a necessidade de eletrificação. Até agora, sem sucesso. Nós temos aqui na garagem 200 ônibus, 33 elétricos. Nós estamos operando com oito coletivos apenas porque nós não temos energia para os demais. Nós temos hoje funcionando dois carregadores, cada um carrega dois ônibus por vez, mas temos aqui instalados 16 carregadores que não recebem energia.” – contou.
Em nota, a ENEL diz que está dentro do prazo acordado com a MobiBrasil, mas não detalhou as datas.
O Diário do Transporte voltou a entrar em contato com a ENEL, mas a distribuidora de energia elétrica continuou não informando os prazos.
A empresa de ônibus por meio de sua assessoria diz que não é verdadeira a alegação da ENEL, que para a garagem do Jabaquara fez desde julho do ano passado diferentes promessas. Para a garagem do Alvarenga sequer foi dado prazo pela ENEL.
Diferentemente da ENEL, a Mobibrasil informou datas. E em uma das promessas da distribuidora, houve um atraso de 50 dias. Ou seja, 50 dias a mais de ônibus velhos para os passageiros nas ruas.
Seguindo a orientação da própria ENEL, o Diário do Transporte então perguntou os prazos para a Mobibrasil que informou o seguinte:
11 de julho de 2024: Envio dos projetos de média tensão para análise da Enel.
15 de julho de 2024: Enel informa a necessidade de um novo pedido de aumento de carga.
25 de julho de 2024: Ajustes internos na Enel causam atrasos no processo, gerando atraso superior a 50 dias do que havia sido programado.
07 de agosto de 2024: Nova solicitação enviada à Enel.
06 de dezembro de 2024: O contrato para a execução da infraestrutura elétrica foi assinado, e a Mobibrasil aguarda a resposta final da Enel sobre a liberação da infraestrutura necessária para operação dos ônibus elétricos. Houve desde então diversas cobranças, sendo a última em 24 de fevereiro de 2025, momento em que a Enel agora sinaliza que prevê a entrega até 30 de março de 2025
Somando duas garagens, a Mobibrasil possui 618 ônibus. Pelo menos 91 têm dez anos ou mais, ainda estão rodando.
O cenário é generalizado na cidade e não afeta somente os passageiros desta empresa.
O Diário do Transporte mostrou que a cidade possuía, em janeiro de 2025, mais de 2,7 mil ônibus com dez anos ou mais em circulação, considerando todas as empresas da capital paulista. A frota total é de cerca de 13 mil ônibus.
Relembre:
Na semana passada, a reportagem foi à garagem da empresa A2 Transportes, num outro extremo da zona Sul da capital paulista. A companhia está entre as que recebem mais multas da gerenciadora da prefeitura, SPTrans (São Paulo Transporte) e a entre as que mais recebem reclamações da população.
Com 130 ônibus com idades entre 10 anos e 13 anos de fabricação, o que representa quase 1/4 de todos os 505 veículos da frota total, a A2 está entre as empresas com maior número de multas e reclamações da cidade. A idade média da frota da companhia hoje é de oito anos.
Relembre:
FROTA VELHA
O Diário do Transporte mostrou que São Paulo tem 2.711 ônibus com idades entre 10 anos e 13 anos operando. A ampliação da idade máxima da frota da cidade, de 10 anos para até 13 anos, foi uma medida emergencial da SPTrans para suprir a falta de infraestrutura que impede mais elétricos e, ao mesmo tempo, manter a proibição dos novos veículos a diesel.
O Diário do Transporte tem mostrado que muitas garagens estão prontas dos muros para dentro e que algumas delas possuem dezenas de ônibus elétricos parados porque solicitaram ligações e adaptações das redes de distribuição, mas a ENEL não fez ainda. É o caso da empresa Mobibrasil, da zona sul, que tem 33 ônibus parados em uma das garagens, apesar de ter pedido a ligação em julho de 2024. A A2 Transportes, outra empresa da zona Sul, pediu a ligação para a ENEL em fevereiro de 2024, e não foi atendida ainda. A viação diz que não consegue concluir as compras e já têm mais de 130 ônibus a diesel com mais de 10 anos rodando, sendo que deveriam ter sido trocados. A Transunião, na zona Leste, tem mais da metade da frota com mais de 10 anos em uma das garagens porque ENEL não conclui ligação para ônibus elétricos. Oficina vive lotada, disse o diretor operacional da empresa, Edgard Paiva da Rocha. Demanda total é de cerca de quase 300 mil passageiros por dia. São dois pátios com 33 carregadores instalados desde agosto de 2024 que custaram R$ 14 milhões, mas estão sem serventia porque a energia necessária não chega às garagens.
– ENTREVISTAS EM VÍDEO
Relembre:
Há viações que já estão com equipamentos carregadores e transformadores internos já instalados nas garagens, mas não podem renovar frota porque o financiamento depende de aval que só ocorre se a rede de energia estiver adequada.
Ouça também a Rádio Bandeirantes, Programa Pulo do Gato, com Pedro Campos e Silvânia Alves – O repórter e editor do Diário do Transporte, Adamo Bazani, sobre a situação na A2 Transportes – Neste link abaixo, com o sinal de Play:
Empresas de ônibus não podem comprar modelos a diesel zero quilômetro desde 17 de outubro de 2022:
Desde 17 de outubro de 2022, as empresas de ônibus são proibidas pela prefeitura de comprar modelos a diesel para o cumprimento de metas de redução de poluição. Por causa dessa dificuldade, relatada por outras viações também, a SPTrans (São Paulo Transporte), gerenciadora pública do sistema, aumentou de 10 anos para 13 anos a idade limite de toda a frota municipal.
Segundo as viações, esse monte de ônibus velhos poderia já estar fora do sistema se a eletrificação avançasse ou houvesse uma flexibilização nas regras que proíbem modelos novos a diesel até que a cidade tenha estrutura suficiente na rede de distribuição.
As metas da prefeitura de São Paulo de 2,6 mil ônibus elétricos entre todas as empresas da cidade rodando até o fim de 2024 não foram alcançadas, principalmente pela falta de infraestrutura de recarga e distribuição de energia da ENEL para dar conta da demanda. Em toda a cidade, são atualmente, em fevereiro de 2025, menos de 500 unidades não poluentes a bateria e 201 trólebus, que precisam estar conectados à fiação aérea para rodarem.
Em 23 de janeiro de 2025, durante a entrega de um lote de 100 coletivos com baterias, o prefeito Ricardo Nunes disse que a cidade deve receber cerca de 600 ônibus totalmente elétricos com bateria ainda neste ano. Isso elevaria a frota para cerca de 1.200 unidades, contando com os trólebus, mas ainda assim seria bem inferior aos 2.600 coletivos anunciados para até o final de 2024. Na ocasião, Nunes disse, em resposta ao Diário do Transporte que esteve no evento, que é preferível ampliar a idade dos ônibus atuais em até três anos a admitir a volta da compra de veículos a diesel, já que caso fossem comprados, poderiam operar por mais dez anos no sistema.
Relembre:
NOTA DA MOBIBRASIL
A Mobibrasil informa que enfrenta desafios em decorrência da falta de infraestrutura elétrica adequada em suas garagens operacionais, em especial a situada no bairro Jabaquara, Região Sul de São Paulo. A responsabilidade pela disponibilização da infraestrutura cabe à concessionária de energia Enel, que ainda não concluiu os trâmites necessários para a liberação da energia.
A Mobibrasil tem adotado todas as medidas necessárias para viabilizar essa infraestrutura, seguindo rigorosamente o cronograma estabelecido no procedimento. A sequência de eventos do processo junto à Enel é a seguinte:
11 de julho de 2024: Envio dos projetos de média tensão para análise da Enel.
15 de julho de 2024: Enel informa a necessidade de um novo pedido de aumento de carga.
25 de julho de 2024: Ajustes internos na Enel causam atrasos no processo, gerando atraso superior a 50 dias do que havia sido programado.
7 de agosto de 2024: Nova solicitação enviada à Enel.
6 de dezembro de 2024: O contrato para a execução da infraestrutura elétrica foi assinado, e a Mobibrasil aguarda a resposta final da Enel sobre a liberação da infraestrutura necessária para operação dos ônibus elétricos. Houve desde então diversas cobranças, sendo a última em 24 de fevereiro de 2025, momento em que a Enel agora sinaliza que prevê a entrega até 30 de março de 2025.
Para a Garagem Operacional da Mobibrasil situada no Bairro Alvarenga, ainda não há qualquer data de previsão da Enel para solução do caso.
A Mobibrasil tem, reiteradamente, cobrado a concessionária de energia, mas ainda aguarda a finalização dos trâmites técnicos e operacionais para garantir o fornecimento adequado de energia aos veículos.
Os esforços da Mobibrasil incluem o envio de projetos para análise técnica, solicitações de conexão e acompanhamento constante dos prazos estipulados. Apesar do comprometimento da empresa, a dependência da infraestrutura elétrica da Enel impede a disponibilização dos ônibus no sistema de transporte, afetando diretamente a modernização e a sustentabilidade do serviço prestado à população.
A Mobibrasil informa ainda que recebeu 37 novos ônibus elétricos, os quais deveriam estar em operação no transporte público da cidade de São Paulo desde dezembro de 2024, mas seguem impossibilitados de atender a população devido à falta de infraestrutura elétrica.
Reforçamos o nosso compromisso com a mobilidade urbana sustentável e solicitamos urgência na resolução desse impasse para que possamos colocar os veículos em circulação o mais breve possível.
São Paulo, 09 de março de 2025.
Mobibrasil
NOTA da ENEL
“A Enel São Paulo esclarece que a obra na MobiBrasil está dentro do prazo acordado com a empresa de transporte e com conhecimento da SPTrans. Em relação à infraestrutura para o abastecimento de energia das garagens, a distribuidora tem participado de reuniões semanais com os Operadores, sempre com o acompanhamento da SPTrans. A companhia vem trabalhando junto aos Operadores, analisando cada uma das possíveis soluções em função das necessidades específicas, seja para a conexão elétrica individual de cada uma das garagens ou mesmo para possíveis hubs compartilhados de carregamento. As soluções a serem implementadas para cada garagem podem variar, de acordo com aspectos técnicos, econômicos e a definição dos operadores. Há soluções de curto e médio prazo, todas devidamente compatibilizadas com o avanço gradual do aumento da frota elétrica.”
METAS DA CIDADE:
As metas da prefeitura de São Paulo de 2,6 mil ônibus elétricos entre todas as empresas da cidade rodando até o fim de 2024 não foram alcançadas, principalmente pela falta de infraestrutura de recarga e distribuição de energia da ENEL para dar conta da demanda. Em toda a cidade, são atualmente, em fevereiro de 2025, menos de 500 unidades não poluentes a bateria e 201 trólebus, que precisam estar conectados à fiação aérea para rodarem.
Em 23 de janeiro de 2025, durante a entrega de um lote de 100 coletivos com baterias, o prefeito Ricardo Nunes disse que a cidade deve receber cerca de 600 ônibus totalmente elétricos com bateria ainda neste ano. Isso elevaria a frota para cerca de 1.200 unidades, contando com os trólebus, mas ainda assim seria bem inferior aos 2.600 coletivos anunciados para até o final de 2024. Na ocasião, Nunes disse, em resposta ao Diário do Transporte que esteve no evento, que é preferível ampliar a idade dos ônibus atuais em até três anos a admitir a volta da compra de veículos a diesel, já que caso fossem comprados, poderiam operar por mais dez anos no sistema.
Relembre:
No fim de 2024, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou um projeto de lei, de autoria do ex-presidente da Casa, Milton Leite, que permitiria a volta da compra de 50% da frota a diesel Euro 6. Por causa da falta de infraestrutura para elétricos, a frota geral de ônibus da cidade tem envelhecido, uma vez que as viações estão proibidas de comprar modelos a diesel desde 17 de outubro de 2022. A SPTrans ampliou a idade máxima permitida dos ônibus de 10 anos para 13 anos.
O prefeito Ricardo Nunes aprovou apenas parcialmente o projeto de lei, vetando a possibilidade da volta de compra de modelos a diesel, mas sancionou outros pontos, como um que abre mais segurança para a busca de outras alternativas menos poluentes, como GNV (Gás Natural Veicular) e biometano (gás obtido pela decomposição de resíduos). As empresas de ônibus devem apresentar em 90 dias as necessidades de infraestrutura para a ENEL, no caso dos elétricos, ou para a COMGÁS, no caso do GNV. Estas distribuidoras têm 90 dias para concluir os projetos, mas não há prazo para execução e entrega das obras.
As metas intermediárias foram ajustadas, mas as finais, como zerar as emissões de CO2 até 2038 foram mantidas. Com isso, as alternativas que não sejam eletricidade ou hidrogênio são encaradas como para o momento de transição.
GÁS NATURAL PARA ÔNIBUS:
Empresas como a Sambaíba, na zona Norte, estudam aderir projetos de GNV para ônibus e, como mostrou o Diário do Transporte, preparou um modelo a diesel para ser convertido.
O prefeito Ricardo Nunes disse em 11 de fevereiro de 2025, que determinou estudos para verificar a viabilidade da implantação de ônibus a gás natural na cidade.
Os trabalhos estão sob responsabilidade do Secretário Executivo de Mudanças Climáticas, José Renato Nalini, e as discussões serão no âmbito do Comfrota (Comitê Gestor do Programa de Acompanhamento da Substituição de Frotas por Alternativas Mais Limpas).
O Comitê é vinculado à Seclima (Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas).
Relembre:
LEI BARRADA POR AÇÃO DO PSOL:
A nova lei sobre descarbonização da frota, Lei Municipal nº 18.225, de 15 de janeiro de 2025, oriunda do projeto de Milton Leite de dezembro de 2024 e aprovada parcialmente por Nunes em janeiro de 2025, no entanto, teve seus efeitos temporariamente suspensos por determinação do desembargador Mário Devienne Ferraz do Órgão e Câmara Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, que atendeu parcialmente Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo PSOL.
A lei não está anulada. A decisão, publicada em 10 de fevereiro de 2025, suspende a aplicação da lei até o julgamento final da ação.
Relembre:
Entre outras alegações, o partido alega que o Projeto de Lei 825/2024, de autoria do ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite, não apresentou estudo de impacto ambiental e que flexibiliza regras, reduzindo a obrigatoriedade da compra de modelos de ônibus menos poluentes.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
