Ícone do site Diário do Transporte

EXCLUSIVO: Com 130 ônibus acima de 10 anos e entre as mais multadas de São Paulo, A2 não renova frota porque diz que ENEL não traz energia para elétricos – VÍDEO E ENTREVISTA

Presidente da A2, Paulo Farias, mostra ao fundo carregadores instalados e diz que aguarda que ENEL viabilize distribuição adequada de energia para ônibus elétricos

Empresa mostrou infraestrutura pela qual alega que pagou R$ 10 milhões. Para minimizar idade, trouxe 36 ônibus usados, mas não podem ser inseridos seminovos de outros sistemas. Viação ainda diz que encomendou 169 ônibus elétricos a R$ 400 milhões que não podem ser entregues

ADAMO BAZANI

Colaboraram Yuri Sena e Vinícius de Oliveira

Um problema que interfere diretamente nos transportes e na qualidade de vida de 200 mil passageiros que usam todos os dias as 35 linhas operadas pela empresa A2 Transportes, na zona Sul da capital paulista.

Com 130 ônibus com idades entre 10 anos e 13 anos de fabricação, o que representa quase 1/4 de todos os 505 veículos da frota total, a A2 está entre as empresas com maior número de multas e reclamações da cidade. A idade média da frota da companhia hoje é de oito anos.

O presidente da companhia, Paulo Farias, explicou que pediu para a ENEL em 12 de março de 2024 a ligação necessária para fazer funcionar a infraestrutura instalada na garagem para a recarga de ônibus elétricos. Desde 17 de outubro de 2022, as empresas de ônibus são proibidas pela prefeitura de comprar modelos a diesel para o cumprimento de metas de redução de poluição. Por causa dessa dificuldade, relatada por outras viações também, a SPTrans (São Paulo Transporte), gerenciadora pública do sistema, aumentou de 10 anos para 13 anos a idade limite de toda a frota municipal. Sem isso, nem os 130 ônibus estariam rodando na A2.

O Diário do Transporte mostrou que a cidade possuía, em janeiro, mais de 2,7 mil ônibus com dez anos ou mais em circulação, considerando todas as empresas da capital paulista.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2025/01/23/cidade-de-sao-paulo-possui-2-711-onibus-com-dez-anos-ou-mais-em-circulacao/

Para entender a situação, o Diário do Transporte esteve na garagem da empresa, na Estrada do Alvarenga, Jardim Pedreira, quase limite com o município de Diadema, na região do ABC Paulista.

As adequações da rede de fornecimento pela ENEL, segundo as empresas de ônibus, são necessárias para não haver falta de energia nos bairros das garagens. É preciso elevar a potência e tensão na distribuição para dar conta da recarga das baterias.

O Diário do Transporte viu que a garagem já está com os 20 carregadores, que podem atender entre 60 e 80 ônibus de uma só vez, em fase final de instalação. O local também já conta com um By Pass, que é uma espécie de no-break para evitar que os ônibus deixem de ser carregados caso haja falta de energia no bairro. A cabine blindada e um transformador também serão instalados. Hoje, já seria possível ter em torno de 50 ônibus novos elétricos já em operação com tranquilidade, de acordo com o que alegou a empresa.

Paulo Farias disse que até agora, a A2 desembolsou cerca de R$ 10 milhões para esta infraestrutura.

O valor deve aumentar para R$ 15 milhões, uma vez que vai ser ampliada a capacidade para mais ônibus elétricos.

A empresa ainda mostrou documentos de encomendas de ônibus elétricos já assinadas. São 169 veículos, que somam mais de R$ 400 milhões, dos quais 100 BYD, 30 Eletra, de “tamanho padron” e 29 micro-ônibus da chinesa ANKAI.

Nenhuma destas compras, entretanto, pode ser faturada enquanto a ligação elétrica não é viabilizada. É uma regra para a liberação do dinheiro do financiamento da frota.

Paulo Farias disse também que a empresa tem o crédito, mas necessita desta ligação para receber o aval final.

Para minimizar o problema de frota, a A2 trouxe 36 ônibus usados, sem ar-condicionado, de outras empresas da cidade, mas segundo Farias, isso vai até mesmo na contramão da busca pela redução de poluentes. Destes 36 veículos, 26 são fabricados entre 2013 e 2016, de uma tecnologia chamada Euro 5 (mais poluentes que os modelos a diesel 0 km atuais Euro 6) e 10 são mais poluentes ainda, Euro 3, fabricados em 2012.

Outra dificuldade é que, por causa das exigências da SPTrans quanto a configurações como de bancos, balaústres, portas e janelas, por exemplo, as companhias de ônibus da cidade só podem comprar ou alugar veículos usados de outras viações da capital paulista, que já estão bem rodados. Ônibus um pouco mais novos de outras cidades, nem provisoriamente, podem entrar no sistema.

O Diário do Transporte procurou a ENEL para saber sobre a ligação que a empresa de ônibus diz ser necessária.

Em nota, a SPTrans diz que a frota mais antiga não compromete o atendimento, que em diversas cidades são autorizados ônibus de 15 anos e que realiza mais vistorias nos antigos.

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Mobilidade e Transporte (SMT) e da SPTrans, acompanha as tratativas entre as concessionárias operadoras e a Enel visando a disponibilização de energia elétrica para o carregamento da frota de ônibus neste importante projeto para a cidade. A SPTrans aguarda uma definição para a garagem da A2 no menor prazo possível.

Em São Paulo os ônibus podem circular por até 10 anos, com autorização de circulação por mais três anos. Ainda assim, São Paulo está entre as regras de menor idade limite para ônibus urbano no Brasil, em que grande parte das cidades adota 15 anos como limite. Assim, na capital, os passageiros tem à sua disposição uma frota moderna, confortável e eficiente. Caso fosse autorizada a compra de novos ônibus a diesel, a cidade contaria com estes veículos por mais 10 anos emitindo poluentes.

A autorização permite às concessionárias planejar a aquisição dos veículos elétricos sem impacto na operação das linhas. Por determinação da SPTrans, esses veículos são utilizados preferencialmente na reserva técnica das concessionárias e são vistoriados com maior frequência do que veículos mais novos.

Já a ENEL informou que as obras na garagem da A2 começam agora em março e que se reúne com as empresas de ônibus semanalmente

“A Enel São Paulo esclarece que obra na A2 Transportes está programada para ocorrer ao longo do mês de março. Em relação à infraestrutura para o abastecimento de energia das garagens, a distribuidora tem participado de reuniões semanais com os Operadores, sempre com o acompanhamento da SPTrans. A companhia vem trabalhando junto aos Operadores, analisando cada uma das possíveis soluções em função das necessidades específicas, seja para a conexão elétrica individual de cada uma das garagens ou mesmo para possíveis hubs compartilhados de carregamento. As soluções a serem implementadas para cada garagem podem variar, de acordo com aspectos técnicos, econômicos e a definição dos operadores. Há soluções de curto e médio prazo, todas devidamente compatibilizadas com o avanço gradual do aumento da frota elétrica.”

Dos 36 ônibus “velhos extras” que a A2 trouxe para minimizar a defasagem da frota, são oito unidades OF1519 ano 2014 – Euro 5 compradas da Express Transportes, da zona Leste; 18 ônibus alugados da Sambaíba, da zona Norte, modelo OF-1721 ano 2016 – Euro 5; e 10 unidades alugadas da Transppas, empresa da zona Oeste, os mais velhos, ano 2012, modelo OF1722M, Euro 3, os mais poluentes também. Todos estes ônibus são chassis/motor a diesel Mercedes-Benz, carroceria Caio Apache Vip.

Equipamentos de infraestrutura interna

Equipamentos de infraestrutura interna

Carregadores de baterias

Empresa tem rodado com frota usada de outras viações da capital

Frota de outras companhias tem sido alternativa paliativa, de acordo com A2

Ônibus mais antigos reduzem conforto e, segundo a empresa, são mais sujeitos a quebras

METAS DA CIDADE:

As metas da prefeitura de São Paulo de 2,6 mil ônibus elétricos entre todas as empresas da cidade rodando até o fim de 2024 não foram alcançadas principalmente pela falta de infraestrutura de recarga e distribuição de energia da ENEL para dar conta da demanda. Em toda a cidade, são atualmente, em fevereiro de 2025, menos de 500 unidades não poluentes a bateria e 201 trólebus, que precisam estar conectados à fiação aérea para rodarem.

Em 23 de janeiro de 2025, durante a entrega de um lote de 100 coletivos com baterias, o prefeito Ricardo Nunes que a cidade deve receber cerca de 600 ônibus totalmente elétricos com bateria ainda neste ano. Isso elevaria a frota para cerca de 1.200 unidades, contando com os trólebus, mas ainda assim seria bem inferior aos 2.600 coletivos anunciados para até o final de 2024. Na ocasião, Nunes disse, em resposta ao Diário do Transporte que esteve no evento, que é preferível ampliar a idade dos ônibus atuais em até três anos a admitir a volta da compra de veículos a diesel, já que caso fossem comprados, poderiam operar por mais dez anos no sistema.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2025/01/23/video-nunes-estima-600-onibus-eletricos-para-2025-na-cidade-de-sao-paulo-e-defende-que-compra-de-diesel-nao-volte-nunca-mais/

No fim de 2024, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou um projeto de lei, de autoria do ex-presidente da Casa, Milton Leite, que permitiria a volta da compra de 50% da frota a diesel Euro 6. Por causa da falta de infraestrutura para elétricos, a frota geral de ônibus da cidade tem envelhecido, uma vez que as viações estão proibidas de comprar modelos a diesel desde 17 de outubro de 2022. A SPTrans ampliou a idade máxima permitida dos ônibus de 10 anos para 13 anos.

O prefeito Ricardo Nunes aprovou apenas parcialmente o projeto de lei, vetando a possibilidade da volta de compra de modelos a diesel, mas sancionou outros pontos, como um que abre mais segurança para a busca de outras alternativas menos poluentes, como GNV (Gás Natural Veicular) e biometano (gás obtido pela decomposição de resíduos). As empresas de ônibus devem apresentar em 90 dias as necessidades de infraestrutura para a ENEL, no caso dos elétricos, ou para a COMGÁS, no caso do GNV. Estas distribuidoras têm 90 dias para concluir os projetos, mas não há prazo para execução e entrega das obras.

As metas intermediárias foram ajustadas, mas as finais, como zerar as emissões de CO2 até 2038 foram mantidas. Com isso, as alternativas que não sejam eletricidade ou hidrogênio são encaradas como para o momento de transição.

GÁS NATURAL PARA ÔNIBUS:

Empesas como a Sambaíba, na zona Norte, estudam aderir projetos de GNV para ônibus e, como mostrou o Diário do Transporte, preparou um modelo a diesel para ser convertido.

O prefeito Ricardo Nunes disse em 11 de fevereiro de 2025, que determinou estudos para verificar a viabilidade da implantação de ônibus a gás natural na cidade.

Os trabalhos estão sob responsabilidade do Secretário Executivo de Mudanças Climáticas, José Renato Nalini, e as discussões serão no âmbito do Comfrota (Comitê Gestor do Programa de Acompanhamento da Substituição de Frotas por Alternativas Mais Limpas).

O Comitê é vinculado à Seclima (Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas).

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2025/02/11/ouca-nunes-determina-estudos-para-onibus-a-gas-natural-gnv-em-sao-paulo-e-vai-recorrer-de-decisao-que-atendeu-psol-e-suspendeu-nova-lei-de-troca-de-frota/

LEI BARRADA POR AÇÃO DO PSOL:

A nova lei sobre descarbonização da frota, Lei Municipal nº 18.225, de 15 de janeiro de 2025,  oriunda do projeto de Milton Leite de dezembro de 2024 e aprovada parcialmente por Nunes em janeiro de 2025, no entanto, teve seus efeitos temporariamente suspensos por determinação do desembargador Mário Devienne Ferraz do Órgão e Câmara Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, que atendeu parcialmente Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo PSOL.

A lei não está anulada. A decisão, publicada em 10 de fevereiro de 2025, suspende a aplicação da lei até o julgamento final da ação.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2025/02/10/justica-atende-psol-e-suspende-lei-que-altera-normas-para-onibus-menos-poluentes-na-capital-paulista-veja-a-decisao-na-integra/

Entre outras alegações, o partido alega que o Projeto de Lei 825/2024, de autoria do ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite, não apresentou estudo de impacto ambiental e que flexibiliza regras, reduzindo a obrigatoriedade da compra de modelos de ônibus menos poluentes.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Sair da versão mobile