Vacinação, preço da gasolina e dos aplicativos impulsiona demanda por ônibus da Grande Goiânia

Queda foi de 72,6% no pior momento da pandemia e chegou a 32,3% em novembro. Foto: Divulgação.

Tendência é de recuperação, conforme aponta estudo do Fórum de Mobilidade Mova-se

JESSICA MARQUES

A evolução da vacinação contra covid-19, a alta nos preços da gasolina e dos aplicativos de transporte individual impulsionaram a demanda por ônibus na Região Metropolitana de Goiânia.

É o que mostra um estudo do Fórum de Mobilidade Mova-se, obtido pelo Diário do Transporte. Em meio à pandemia, o setor passou por uma perda muito grande no número de passageiros.

No pior momento, a redução chegou a 72,6%. Em novembro, a queda chegou a 32,3%, evidenciando esta tendência de recuperação.

Com base nas informações do estudo e observando a evolução na RMTC (Rede Metropolitana de Transporte Coletivo de Goiânia), o Mova-Se estima que a demanda terá como teto o valor de 80% do número de passageiros transportados no período pré-pandemia.

Então, mesmo com a “normalidade” ocorrendo em 2022, é possível que reste um déficit de 20% no número de passageiros transportados, conforme aponta o estudo.

Confira os dados:

Em entrevista ao Diário do Transporte, o coordenador do Mova-se Fórum de Mobilidade, Miguel Ângelo, esclareceu de que forma os fatores contribuem para a recuperação do setor.

Confira a entrevista, na íntegra:

Diário do Transporte – Por que usuários de transporte por aplicativo e proprietários de carros de passeio acabam migrando para o transporte coletivo quando estes meios ficam mais caros?

Miguel Ângelo – Acredito que esta migração ocorre não só na relação direta entre os preços da passagem de ônibus em relação aos custos dos combustíveis e dos aplicativos, mas também pela inflação pois ao aumentar os custos dos alimentos e moradia (principalmente aluguel) os recursos que sobrariam para utilizar com deslocamento acabam ficando menores fazendo com que as pessoas não tenham outra escolha ao não ser voltar para o ônibus.

– De que forma é possível “segurar” estes passageiros no sistema?

Por ser um serviço público essencial é o poder concedente o responsável por tornar o serviço de transporte público mais atrativo e não as empresas. Neste sentido as principais ações são no campo tarifário por meio da aplicação da Lei Nacional de Mobilidade (L12.587/2012) na qual propõe a separação entre tarifa técnica de remuneração (usada para custear o serviço) e a tarifa pública (cobrada dos usuários do serviço), a diferença entre estas duas tarifas é paga via subsídio.

Com esta diferenciação o poder concedente pode aumentar os investimentos no setor (melhoria na frota, serviços sob demanda – exemplo CityBus 2.0 em Goiânia, requalificação dos pontos de paradas, etc) sem gerar um aumento nas tarifas.

Portanto, o poder concedente poderá separar a política pública da mobilidade da política tarifária do transporte público. Outra ação importante do poder concedente são os investimentos em infraestrutura, como por exemplo os corredores de ônibus, que geram mais velocidade ao transporte público fazendo o mesmo ser mais competitivo.

– Quais são as vantagens do transporte coletivo, além do preço?

Infelizmente no modelo atual o transporte público não apresenta nenhuma outra vantagem que não seja seu menor impacto no orçamento das pessoas. Existe uma frase muito repetida aqui em Goiânia que demonstra bem esta situação: “Quem está dentro quer sair e quem está fora não quer entrar”. A maioria dos usuários do transporte só não buscam outra forma de deslocamento pois não possuem condições para tal. Por isso, como dito na questão anterior, o poder concedente tem que transformar o modelo atual que já se exauriu.

– É possível que este aumento na demanda do transporte coletivo seja uma tendência e que o setor se recupere completamente nos próximos meses?

Infelizmente não. Pelo que pode ser observado em outros países (que possuem um serviço de melhor qualidade que o brasileiro) a tendencia é recuperar somente 80% da demanda. Nestes países a principal causa pelo não retomada de 100% pode ser explicada pela consolidação do Home Office. No Canadá por exemplo, em pesquisa realizada em maio/21 pontou que das empresas que adotaram o trabalho em casa durante a pandemia 58% provavelmente exigirá que os funcionários voltem ao trabalho no local; variando de 34% das empresas nos setores de serviços profissionais, científicos e técnicos a 68% das empresas de hospedagem e alimentação. No entanto, entre estes negócios 27,1% das empresas pretende oferecer a mais colaboradores a possibilidade de teletrabalho e 30% aumentar a infraestrutura informática de apoio ao teletrabalho como medida permanente.

Neste sentido parece que existem vários caminhos possíveis a serem seguidas e, para cada sistema de transporte, dependerá de vários fatores, como tamanho da cidade, bem como a estrutura urbana e econômica subjacente, taxa de desemprego, políticas públicas… Estas variáveis demonstram a dificuldade que os sistemas de transporte enfrentarão para recuperação da demanda. Novamente repito, sem alteração do modelo atual, o transporte público tende a entrar em colapso antes que a vida, nas cidades, retorne a um maior grau de normalidade.

– Que outros fatores, além dos apontados pelo estudo, podem influenciar nesta alta?

Como dito anteriormente a inflação pode ser uma variável que está pressionando diretamente os indivíduos ao retornar ao transporte público. Mas infelizmente nada que seja sustentável no longo prazo. Mas estou otimista que a crise gerada pela pandemia pode fazer com que o modelo atual do transporte público possa ser repensado e que as esferas de governo se unam para aprovação do Projeto de Lei 3278/2021 que sugere, entre outras medidas, a criação do Sistema Nacional de Informações de Mobilidade Urbana, ou seja, uma rede federal contendo informações e dados do Sistema Nacional de Mobilidade Urbana, sob gestão da União. Tal medida poderá redefinir os preços dos bilhetes que passaria a ser fixado pelo poder público, tanto paras as linhas estruturais quanto para as alimentadoras.

Se aprovada, a PL 3278/2021 vai implementar novas diretrizes para o transporte de passageiros no Brasil, como o efetivo protagonismo do governo federal no transporte público dos estados, municípios e Distrito Federal, por meio de subsídio na tarifa cobrada do usuário. Estamos vivenciando um momento histórico no qual o transporte público deverá dar um imenso salto de qualidade (devido a reestruturação do modelo) fazendo com que ele fique mais próximo do padrão de qualidade dos países europeus.

ESTUDO

O estudo do fórum detalha como a relação foi feita para obter as comparações entre a vacinação, o preço da gasolina e do transporte por aplicativo.

O levantamento também mostra que os sistemas de ônibus e metrô no mundo também passam por um período de recuperação.

Confira:

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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