Com alta no preço dos combustíveis, transporte coletivo está ‘com a faca e o queijo na mão’ para atrair usuários, diz especialista

Nesta quarta (20), grupo de especialistas debateu o transporte coletivo da Região Metropolitana de Goiânia, em Goiás. Foto: Divulgação.

Avaliação foi feita pela urbanista e doutora em Transportes pela Universidade de Brasília, Érika Kneib durante lançamento do Fórum de Mobilidade Mova-Se, nesta quarta (20)

JESSICA MARQUES

Com a alta no preço dos combustíveis, usar o carro ou aplicativos para se locomover ficou mais caro. Este cenário é uma grande oportunidade para as empresas do transporte público. A avaliação é da urbanista e doutora em Transportes pela Universidade de Brasília, Érika Kneib.

“Um sistema sistema de transporte público de qualidade é aquele que consegue atrair o usuário do automóvel, seja porque o sistema é muito bom ou porque está muito difícil ou caro usar o carro. Agora, com essa dificuldade maior do transporte por aplicativo, o transporte coletivo está com a faca e o queijo na mão para atrair usuários novamente”, disse.

A afirmação foi feita durante o lançamento do Fórum de Mobilidade Mova-Se, nesta quarta-feira, 20 de outubro de 2021. Na ocasião, um grupo de especialistas debateu o transporte coletivo da Região Metropolitana de Goiânia, em Goiás.

Neste contexto, a especialista afirmou ainda que a discussão da implantação do BRT (Ônibus de Trânsito Rápido) é muito pertinente. Na última semana, a Prefeitura de Goiânia suspendeu a entrega do trecho 2 do BRT Norte-Sul, prevista para 24 de outubro, devido a um estrago no encabeçamento do viaduto entre as avenidas Perimetral Norte e Goiás Norte. A nova previsão de entrega é para dezembro.

“Inaugurar um sistema diferenciado, que está sendo muito esperado pela população, essa oportunidade poderia ser muito melhor aproveitada no sentido de trazer um conjunto de ações para a população que realmente atraísse um usuário ou um ex-usuário que migrou para o Uber”, afirmou a especialista.

“A gente está falando de um BRT que poderia ser integrado às bicicletas, ter integração temporal fora dos terminais, Goiânia já teve essa experiência. A questão também da melhoria das linhas regulares, somada a essa perda de passageiros com a crise do transporte por aplicativos, o transporte coletivo tem uma grande oportunidade de mostrar um diferencial e trazer um pacote de melhorias para atrair o usuário”, avaliou Érika.

REFORMULAÇÃO DA RMTC

Também participou do encontro o economista Adriano Paranaíba, que também é doutor em Transportes pela Universidade de Brasília. Na ocasião, o especialista comentou sobre a reformulação da RMTC (Rede Metropolitana de Transporte Coletivo).

“Uma proposta foi enviada ao poder público com uma série de sinalizações do que deve ser feito, a AGR está organizando um grupo de trabalho para fazer uma discussão sobre isso”, detalhou.

A discussão tarifária é infinita, há uma sinalização, proposta das empresas, para que exista uma tarifa técnica e uma tarifa efetiva para não causar um impacto grande para o usuário, assim, teria uma política de subsídio para compensar o valor da tarifa. Faz mais de três anos que a tarifa de Goiânia não tem reajuste e o diesel está aumentando toda semana. Os custos vêm aumentando, mas não dá para jogá-los para o usuário. Uma tarifa técnica traz a questão regulatória, para não somente jogar na conta do estado e dos municípios a ineficiência do sistema. É uma discussão séria, que precisa ser feita, porque em dezembro se encerra o auxílio emergencial que está segurando a tarifa”, afirmou também o economista.

O especialista também mencionou que é preciso ter atenção com relação à eficiência do transporte coletivo, inclusive com relação ao tempo de espera do usuário. Nestes casos, é preciso que haja infraestrutura, como corredores do BRT, por exemplo.

FÓRUM MOVA-SE

Na ocasião, o geógrafo e mestre em Transportes Miguel Ângelo também apresentou os objetivos do fórum Mova-Se.

“A nossa ideia, como especialistas, é apresentar uma discussão mais qualificada sobre as questões de mobilidade, ajudar tanto os tomadores de decisão quanto os formadores de opinião nas questões relacionadas aos conceitos, técnica e tudo o que está em volta do tema de mobilidade urbana”, disse.

“Nosso objetivo é criar um fórum permanente de discussão para debater estes assuntos de interesse da comunidade acadêmica pelos nossos especialistas” afirmou também. “Existe um hiato muito grande nestas discussões. Muitos achismos, ainda mais nesta era de fake news, e a preocupação de tomadores de decisão em ouvir os especialistas para escolher os melhores caminhos. O objetivo é gerar conteúdo de qualidade, que pode ser usado pela mídia e pelos tomadores de decisão.”

Também integrou o lançamento do fórum o pastor Willy Gonzales Taco, que é engenheiro civil pela Universidad Nacional de San Agustin de Arequipa e mestre em Transportes Urbanos pela Universidade de Brasília.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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Comentários

Comentários

  1. vagligeiro disse:

    O ponto para “atrair usuários” na verdade é não ver o transporte como negócio, mas sim como algo essencial e público. Que deve ser eficiente, prático e de preço acessível (ou subsidiado) à população.

    Ainda vejo pessoas falando que preferem tentar a sorte no aplicativo de carro do que pegar um ônibus ou trem. Temos um problema cultural que nem os busólogos e fãs de transporte resolveram, quanto mais os marqueteiros das empresas de transporte, prefeituras e etc… – a questão da visão do transporte público como “algo de pobre”.

    As vezes não é nem mudar o layout interno dos ônibus. Ou mudar padronagem, colocar ar condicionado (um climatizador poderia ser interessante). Mas sim o ônibus ir e voltar com algum conforto (sem sacolejos e trepidações) e dentro dos horários, quando não com mais possibilidades de horários e integrações.

    Usar o veículo certo para o trajeto (veículos pequenos para lugares com problemas de manobras seria uma boa pedida, e investir nos articulados daria um pouco mais de visão das pessoas na ideia de que “ao menos o ônibus lota, mas dá para ir confortável”).

    Investir em eletromobilidade também é uma necessidade, inclusive imediata.

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