Eletromobilidade

OPINIÃO: Canção de Amor para a Terra: e a mobilidade nisso?

LIVIA FERNANDES PEREIRA TORTORIELLO / WALLACE FERNANDES PEREIRA / WILLIAN AQUINO 

A música de 2015 “Love Song to the Earth” é um manifesto para chamar a atenção do mundo sobre os efeitos das mudanças do clima no planeta, hoje com manchetes na imprensa mundial pelo relatório da ONU. E a mobilidade, como se insere nestas preocupações?

A relação entre a questão das mudanças climáticas e os transportes no Brasil evoluiu muito. Inicialmente se limitava aos balanços com estimativas da contribuição dos transportes para a poluição atmosférica. Atualmente, há grande preocupação com a mitigação dos impactos do setor de mobilidade e transportes nas mudanças climáticas. Já as iniciativas de ações coordenadas de adaptação da mobilidade e transportes aos efeitos das mudanças climáticas são raras.

Apesar do título, o Plano Setorial de Mobilidade Urbana para Mitigação e Adaptação à Mudança do Clima, de 2013, se limitou à mitigação de impactos. Em 2017 o projeto de “Adaptação na Mobilidade Urbana”, do então Ministério das Cidades, se propôs a subsidiar a revisão desse Plano Setorial nos aspectos relacionados à abordagem da adaptação e resiliência, apresentando importantes considerações gerais para as cidades brasileiras. Dentre os maiores riscos climáticos mapeados para a mobilidade urbana no Brasil estão: o aumento da frequência e intensidade de precipitações extremas que possam causar alagamentos, inundações, enxurradas ou vendavais; a maior ocorrência de dias com altas temperaturas; a elevação e sobre-elevação do nível do mar (para regiões litorâneas de baixada ou de várzea).

Entretanto, grande parte dos Planos de Mobilidade Urbana (“sustentáveis” ou não), quando muito focam em mitigação dos impactos no clima, a partir do incentivo à migração modal para modos mais eficientes energeticamente e menos poluentes e encorajando a mobilidade ativa; mas por não terem sido precedidos de Planos Setoriais de Transporte e de Mobilidade Urbana para Mitigação e Adaptação à Mudança do Clima, não têm suas ações alinhadas à questão da adaptação aos riscos climáticos.

As iniciativas de buscar um setor de mobilidade e transportes “mais verde” são louváveis. Entretanto, a questão é complexa, conforme ilustrado em alguns exemplos pontuais a seguir.

No caso da migração de fonte energética de combustíveis fósseis para eletricidade, há que se atentar para o fato de que boa parte da oferta de energia no Brasil advém de usinas hidrelétricas. Então um dos riscos climáticos, que é o de ocorrência de secas, pode afetar severamente a oferta de transporte público elétrico, na medida em que pode ocasionar apagões.

Além disso há a questão financeira. A crise dos transportes públicos no Brasil é conhecida, sistêmica e há alguns anos tem-se buscado soluções, ainda sem sucesso. Incluir uma nova variável, o financiamento às novas tecnologias, é mais um complicador. Não há dúvidas de que esse custo não pode ser repassado ao usuário sem comprometer a modicidade tarifária.

E no caso dos ônibus, há uma especificidade local que precisa ser considerada: existe um mercado de revenda dos ônibus a diesel ao final de sua vida útil nas grandes cidades, indo para o interior. Ao menos durante alguns anos esse mercado não existirá para os ônibus elétricos, que terão valor residual virtualmente igual a zero.

Quando se expande o raciocínio para a adaptação, há mais desafios, como “o conflito entre as necessidades de planejamento de curto prazo frente às de longo prazo. Esse fato tem relação direta com o falso dilema para se investir em medidas de resiliência e adaptação em detrimento de outras necessidades mais pulsantes no presente. Isso acontece por conta do equivocado entendimento de que medidas de adaptação são um custo extra sobre um setor carente de investimentos. Esta é uma abordagem que considera somente a recuperação do dano e retomada da operação, e dificilmente analisa os co-benefícios sociais, econômicos e ambientais decorrentes da adaptação do sistema como um todo.” (MCIDADES, 2017, p. 12)

De fato, “a interconectividade das infraestruturas de transporte urbano podem levar a um efeito dominó, causando repercussões maiores que o impacto climático por si só. Por exemplo, falhas no sistema de transporte causadas por inundações podem levar a perdas econômicas mais amplas, porque as pessoas não podem chegar ao trabalho ou bens não podem ser distribuídos. Pior, em sistemas mal projetados, efeitos cascata também podem levar a sofrimento e mortes adicionais. Um exemplo é o caso de infraestruturas essenciais como hospitais não poderem ser alcançadas porque seus acessos estão inundados ou obstruídos.” (GTZ, 2009, p. 8)

Não há o que discutir, os exemplos das inundações com inúmeras mortes na Alemanha e Bélgica; estações de metro em Londres, Zhengzhou, Madrid; os impactos das ondas de calor gerando incêndios na costa oeste dos EUA e na Grécia, com necessidade de evacuação de grandes contingentes populacionais trazem um alerta às autoridades e técnicos de transporte: não adianta discutir quem ou o que gerou a mudança de clima, mas ele está aí. E muitas cidades brasileiras, costeiras ou não, vão sofrer cada vez mais com estes impactos. Cabe lembrar ainda que os efeitos dos eventos extremos são ainda maiores sobre a população em situação de vulnerabilidade social.

É imperioso incluir os estudos de impactos e as propostas de mitigação e adaptação devido às mudanças climáticas na agenda das cidades e da sociedade brasileira.


AUTORES

Livia Fernandes Pereira Tortoriello, Enga.Produção – M.Sc;

WallacE Fernandes Pereira – Eng Civil – M.SC.;

Willian Aquino – Eng Civil – M. Sc. – Sinergia Estudos e Projetos Ltda; Coordenador ANTP/RJ


BIBLIOGRAFIA

MINISTÉRIO DAS CIDADES. Adaptação às Mudanças Climáticas na Mobilidade Urbana. Brasília: Ministério das Cidades, 2017.

GTZ. Adapting Urban Transport to Climate Change – 5F-ACC-en. 2009

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Comentários

Comentários

  1. carlos souza disse:

    Ou seja,não tem mais mundo.Aliás,o fim dos tempos já se consumou faz tempo,com a chegada da pandemia.A consumação da irreversibilidade das mudanças climáticas é só o carimbo do atestado de óbito do mundo,morto pela falência ética e moral generalizada.

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