Empresas de ônibus rodoviários farão investimentos de R$ 3 bilhões nos próximos dois anos para atrair passageiros

Ônibus de dois andares comprado por empresa interestadual

Estimativa é da Abrati, associação que reúne as companhias interestaduais; Renovação da frota e ampliação da oferta de serviços agregados estão entre os principais gastos; Oferecer serviços além do ônibus é uma das apostas

ADAMO BAZANI

As empresas de ônibus regulares de linhas interestaduais devem investir nos próximos dois anos em torno de R$ 3 bilhões.

A maior parte destes recursos será empregada em renovação da frota e ampliação da oferta de serviços agregados aos passageiros.

A informação foi divulgada nesta segunda-feira, 14 de junho de 2021, pela Abrati (Associação Brasileira de Transportes Terrestres Interestaduais) que reúne as companhias do setor ao Diário do Transporte.

Já para o final de 2021, as companhias apostam em fatores que devem favorecer a procura maior por viagens terrestres como a existência de uma demanda reprimida por causa da pandemia, os altos custos das passagens aéreas e destinos de viagens nacionais com atrações ao ar livre.

Nos três anos anteriores à pandemia de covid-19, reconhecida no Brasil em março de 2020, as empresas de ônibus rodoviários investiram em torno de R$ 5 bilhões.

IMPOSTOS:

A associação entende que, com os investimentos, poderá ser ampliada a arrecadação de impostos federais, estaduais e repasses municipais.

De acordo com a Abrati, as empresas de ônibus interestaduais recolhem em torno de 35% do faturamento em impostos, o que dá aproximadamente R$ 2,4 bilhões por ano.

“As empresas de ônibus interestaduais regulares recolhem ICMS e assim a distribuição da renda e impostos para estados e municípios é pulverizada colaborando com beneficiários que em geral ficam de fora da cadeia do dinheiro do turismo circulante, costumeiramente concentrado apenas nos eixos de maior movimento e capitais.” – diz nota da entidade.

ALÉM DO ÔNIBUS:

Outra fórmula encontrada pelas empresas de ônibus para atrair passageiros é ir além do ônibus e firmar parcerias para integração com outros meios de transporte, como os aviões por meio de transferências em aeroportos e serviços, em pacotes com redes de hotelaria e restaurantes.

“As empresas já estão oferecendo muito mais que mobilidade, são soluções em viagens, pacotes integrados com hospedagem e experiências locais, interligação de modais e transformando os agentes de turismo em promotores de vendas, on-line e presencial”, afirmou na nota a porta-voz da Abrati, Leticia Pineschi.

“É o caso da Águia Branca Viagens, cujo projeto-piloto já está em execução com seis lojas de sua rede, em um modelo similar ao de um franqueado. Muitas empresas também contam com agências de vendas e embarque em aeroportos, para facilitar a integração dos modais, como a Real Expresso no aeroporto de Brasília; da Cometa, em Guarulhos e da Auto Viação 1001 no Rio de Janeiro, além de outros como em Porto Alegre cuja integração do Terminal Rodoviário e aeroporto são completas” – prossegue o comunicado.

FROTA:

Se os ônibus não têm a mesma agilidade do avião, é no conforto que as empresas apelam para conquistar os passageiros.

Neste aspecto, os chamados DDs (Double Deckers), ônibus de dois andares, têm sido os preferidos nos investimentos.

Este tipo de modelo permite oferecer duas ou mais categorias de serviço num mesmo veículo e tem mais condições de apresentar configurações como “cabine cama”, que vai além do leito mais conhecido.

A Abrati cita renovações realizadas recentemente.

“Os investimentos vão além da renovação anual de frotas, que já tradicionalmente movimenta cifras milionárias na indústria automotiva e montadoras de carrocerias, que nem mesmo em meio à crise de 2020-2021 cessaram. Pode-se citar como exemplos a aquisição dos Double Deckers com 15 metros para Gontijo, uma gigante do setor, mas também os veículos de duas classes de serviços adquiridos para a operação no Norte e Nordeste pela Boa Esperança e a também milionária renovação regular anual de ônibus do grupo JCA, um dos operadores do eixo RJ-SP.”

FIDELIDADE:

Aprendendo das companhias aéreas e diante da maior concorrência no mercado, as empresas de ônibus também passaram a investir não só na captação, mas na manutenção dos passageiros.

Programas de fidelidade e benefícios têm sido cada vez mais presentes nas estradas como já são nos ares.

Os programas de recompensas também têm sido ampliados. O programa GIRO, o Viva Fidelidade, o Muviflex (da Planalto e Unesul) entre outros contribuem para a agregar vantagens e promover viagens grátis aos viajantes fiéis. A GBS – Viação Garcia – Brasil Sul, também colocou em fase experimental um “despacho de bagagens fácil”, antecipado, para agilizar os embarques e liberar o viajante para usufruir dos serviços de alimentação e comércio dos terminais rodoviários, que por sua vez têm se tornado pequenos shoppings centers, sem carregar malas. Outra novidade interessante para completar a experiência do viajante é o Podtravel, um podcast do Grupo Guanabara, presente nas principais plataformas e agregadores de podcasts que irá oferecer dicas úteis, indicações de passeios e “points” nas mais de 1.500 cidades atendidas pelo grupo com as suas 6 marcas rodoviárias. – exemplifica.

Outra estratégia das empresas é apostar em ações que melhorem a imagem do setor e aproximem as viações da comunidade.

Como exemplo, a associação citou a Ouro e Prata, que integrou-se a uma plataforma de marketing de afiliados na intenção de ampliar a oferta de seus serviços, mas também comissionar interessados em obter uma renda extra e assessoria de comunicação para o agente de vendas, oferecendo assim oportunidades financeiras para famílias das localidades por ela atendidas.

“Tendo sempre em mente que transporte público é um direito social, todas os investimentos sempre terão como propósito também trazer prosperidade para a comunidade atendida. Além de aumentar a oferta do serviço em si, oferecemos condições aos cidadãos de tornarem-se viajantes, é uma questão de valores que norteiam nossa operação ao longo de anos“. – disse Letícia Pineschi

NÚMEROS:

Segundo a Abrati, o serviço regular interestadual de transporte de passageiros prestado transportou mais de 200 milhões de passageiros nos últimos cinco anos, oferecendo mais de um milhão gratuidades só em 2020.

Foram atendidos 97.839 pares de origem x destinos, utilizam serviços e estabelecem 10.730 pontos de parada, apoio, lanche, refeição, troca de veículos e terminais de embarques rodoviários no país.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Comentários

Comentários

  1. vagligeiro disse:

    Uma coisa que a Abrati e operadoras poderiam pensar sobre é a questão de criar mecanismos para captar passageiros fora dos circuitos clássicos (terminais rodoviários em sedes de metrópoles), e com isso desafogar um pouco (inclusive em tempos de recuperação pós pandemia) os terminais lotados.

    Conversar com gestoras locais de transporte público para incentivar integração entre tais terminais por exemplo seria uma boa ajuda – como linhas integradas (estilo “Airport Bus Service”, hoje usado para ligar o centro e terminais de ônibus aos aeroportos) e programas de divulgação de educação voltada a mobilidade urbana (assim incentivando o usuário a aprender a achar o caminho na cidade onde vive para outros terminais próximos). Há terminais subutilizados como Guarulhos e Embu das Artes, onde operadoras um pouco menores mas já consolidadas começam a fincar postos. E terminais como o de Osasco que precisam de incentivo para renovação e uso. Eis um bom caminho.

    Programas de fidelidade são legais e na verdade sempre foram tentados – o Clube Giro da JCA mesmo já vem acho que de uns 10/15 anos que foi implantado e sempre renovado.

    Ponto extra é começar a provocar o consumidor comparando o preço da passagem entre um “alternativo / ‘pirata’ / aplicativo” e o próprio. A JCA tem o “Outlet de Passagens” (que eu pensei que estava desativado mas me enganei) que noto que é um ótimo caminho para conquistar o cliente também. Lembrando que as grandes viações hoje tentam emular os sistemas “via aplicativos” com serviços similares (WeMobi da JCA, EmbarcaAi de um consórcio com Adamantina e Princesa dos Campos, e a associação do ClickBus com a Planalto / Ouro e Prata).

    Outro ponto extra é no pacote de ofertas integradas, também oferecer linhas com integração / baldeação, até com possibilidade de oferta similar ao que ocorre no serviço de aviões: permite passar um dia na cidade onde fará integração, possibilitando turismo ou planejamento melhor da viagem para a pessoa. Isso significaria possibilidade de ofertar mais lugares e horários para rotas que demandam integração (centros de metrópoles e polos regionais).

Deixe uma resposta