Transporte coletivo completa um mês de greve em Teresina nesta segunda (08)

Foto: Glauber Medeiros / Ônibus Brasil

Após acordo entre empresas de ônibus e prefeitura da capital sobre pagamento de dívida, trabalhadores continuam rejeitando trégua e mantém paralisação

ALEXANDRE PELEGI

O imbróglio da greve do transporte coletivo em Teresina, capital do Piauí, completa um mês nesta segunda-feira, 08 de março de 2021.

Apesar do avanço nas negociações entre prefeitura e empresas de ônibus na última semana, motoristas e cobradores seguem resistentes a uma trégua na paralisação.

Como mostrou o Diário do Transporte na sexta-feira, 05 de março, o vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros de Teresina (Setut), Marcelino Lopes, revelou que os empresários aceitaram proposta feita pela prefeitura da capital piauiense de quitação da dívida acumulada até setembro de 2020.

A declaração foi feita em coletiva, da qual o Diário participou.

Segundo Marcelino, por contrato a prefeitura deveria pagar a diferença entre a tarifa técnica (quanto custa para operar o sistema) e a tarifa pública, aquela que o usuário efetivamente paga. Por este cálculo, a dívida acumulada com as empresas alcançou R$ 20 milhões, que deveriam ser pagos em 10 parcelas de R$ 10 milhões, aproximadamente.

Na proposta apresentada pela prefeitura na última segunda-feira (01), e aceita pelo Setut, a dívida será paga com uma entrada inicial de R$ 1,6 milhão e 20 parcelas mensais de R$ 970 mil. Myrian Aguiar, assessora do Setut, fez questão de lembrar que o pagamento da dívida da prefeitura com as empresas de ônibus, que agora foi finalmente equacionada, refere-se, no entanto, somente até setembro de 2020. “A prefeitura precisa pagar a dívida referente aos meses que se seguiram, de outubro de 2020 até hoje, e esta é outra questão que terá de ser resolvida”, Myrian disse.

Marcelino saudou a notícia do acordo selado entre prefeitura e Setut para socorrer o transporte da capital, mas lamentou que o sindicato dos motoristas se recusa ainda a participar da solução.

“Faltou o sindicato nessa união. Nós propusemos uma trégua. Vamos quitar os atrasados, e propusemos a eles o acompanhamento semanal, se for o caso, da retomada da demanda a partir de agora, para que eles possam verificar quanto teremos condições de realizar algumas melhorias”, disse o vice-presidente do Setut.

Marcelino ainda pontuou que o momento atual não é para tratar de questões sindicais como a convenção anual, mas sim de manter os postos de trabalho, uma vez que a conta não está fechando e existe um déficit de receitas. Myrian Aguiar também explicou que a conta mensal das empresas gira em torno de R$ 5,7 milhões, mas o arrecadado com as tarifas chega somente a R$ 3 milhões, R$ 2,7 milhões abaixo do necessário.

Motoristas e cobradores, na véspera da coletiva do Setut, dia 04 de março, decidiram em assembleia continuar a greve iniciada em 08 de fevereiro. Relembre:

Greve de ônibus em Teresina paralisa linhas nesta segunda (08)

Para o Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Transporte Rodoviário (Sintetro), segue valendo a pauta que motivou a paralisação, e da qual os trabalhadores não arredam pé: a realização do acordo coletivo referente a 2021.

Já o Setut defende que, mesmo não sendo suficiente para equilibrar o caixa das empresas, pelo menos os recursos provenientes do acordo fechado nessa semana com a prefeitura permitirão o pagamento dos salários atrasados dos motoristas de janeiro e fevereiro deste ano.

Marcelino lembrou que para quitar esta dívida com os trabalhadores será necessário recorrer ao sistema bancário, já que o valor total é de R$ 2 milhões. “Como a prefeitura nos repassará R$ 1,6 milhão, teremos de completar com mais R$ 400 mil”, disse o vice-presidente do sindicato das empresas de ônibus.

Mesmo assim, esse dinheiro garante os salários dos trabalhadores até março. A partir de abril, a receita não será suficiente para garantir a manutenção dos custos do sistema de transporte da capital, a não ser que a demanda volte a crescer, o que, diante do atual quadro da pandemia no país, é pouco provável.

Além da convenção coletiva, os trabalhadores lutam também pelo pagamento do plano de saúde e do ticket-alimentação, o que pressiona os custos do sistema num momento de crise, afirma Marcelino.

Nessa queda de braço, os moradores da capital piauiense continuam sem poder contar com os ônibus no município. Uma situação que, infelizmente, começa a pipocar em inúmeras cidades brasileiras, fruto de um sistema que não se sustenta mais.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Comentários

Deixe uma resposta