Sem políticas públicas na área ambiental, Brasil perde 50 mil vidas anualmente

Setor de transportes, uma das principais fontes de poluentes atmosféricos, responde por 63% dos deslocamentos urbanos em cidades com mais de 1 milhão de habitantes

ALEXANDRE PELEGI

O setor de transporte rodoviário de cargas e pessoas é uma importante fonte de poluentes do ar no Brasil.

Cerca de 63% dos deslocamentos urbanos em cidades com mais de 1 milhão de habitantes em 2018 e 65% da movimentação de cargas em 2015 se deu sobre quatro rodas.

Este é um dos dados do estudo “O Estado da Qualidade do Ar no Brasil”, elaborado por renomados cientistas e especialistas no tema, como o físico Paulo Artaxo e a dra. Evangelina Vormittag, entre outros, sob coordenação do WRI Brasil.

Ao lado dos transportes, o estudo identifica outras fontes importantes de poluição do ar no país, como as queimadas de vegetação e florestas, os setores industrial e de transportes são devido à queima de combustíveis fósseis, e um aumento recente no uso de lenha para cocção em residências.

SEGMENTO DE TRANSPORTES

Segundo o trabalho que acaba de ser divulgado, o segmento de transportes, um dos fatores que contribui para a poluição do ar no Brasil, apresentou nos últimos dez anos a maior taxa média de crescimento de consumo de energia. A partir de 2018 tornou-se o principal consumidor de energia do país.

A ineficiência energética pode ser vista pelos números: os automóveis, que representam apenas 25% do total de viagens no país, consomem 60% do total de energia destinada à mobilidade urbana. Já o transporte de carga consome combustível para transportar uma tonelada de carga por caminhões, o que representa 2,7 vezes mais do que o consumo dos trens.

Para os autores do estudo o Brasil possui uma política nacional de controle da poluição do ar que não é implementada, tem fragilidades jurídicas e não conta com um cronograma claro de redução dos poluentes.

Como resultado de tudo isso, o país tem mais de 50 mil brasileiros mortos por ano.

Para a diretora do programa de Clima do WRI Brasil, Carolina Genin, “a pandemia da Covid-19 poderá ser interrompida com a vacina, mas a poluição do ar continuará matando se nada for feito. Estamos falando de um problema sistêmico, profundo e extremamente letal, para o qual a vacina são políticas públicas adequadas”.

Já Diretora Executiva do Instituto Saúde e Sustentabilidade, médica e representante da Coalizão Respirar e uma das autoras do estudo, Evangelina Vormittag, “a má qualidade do ar foi apontada como o segundo maior perigo ambiental global à vida humana, perdendo apenas para a Covid-19, e voltará ao topo do ranking quando o vírus for combatido”.

Evangelina diz que para piorar ainda mais este cenário, estudos correlacionam o ar tóxico como um fator de agravamento da Covid-19 e de sua letalidade.

IMPACTO NA ECONOMIA

A poluição do ar é tratada no país como um problema ambiental. Os governantes ignoram os impactos na saúde pública e na economia.

O trabalho coordenado pelo WRI Brasil mostra que em apenas seis regiões metropolitanas brasileiras, onde vivem 23% da população total do país, a poluição matará quase 128 mil pessoas entre 2018 e 2025. “É como se toda Sertãozinho, no interior de São Paulo, Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, ou Guarapari, no Espírito Santo, simplesmente fossem riscadas do mapa em apenas sete anos”, diz comunicado do instituto de pesquisa.

Isso representa na prática perdas de produtividade da ordem de R$ 51,5 bilhões.

Mas não se trata apenas de mortes: serão quase 70 mil internações públicas que custarão quase R$ 130 milhões ao Sistema Único de Saúde”, diz o comunicado.

Estima-se que os custos associados a mortes prematuras equivaleram a 3,3% do PIB brasileiro em 2015, mas os impactos da poluição do ar sobre a economia também abrangem a perda de produtividade de trabalhadores, menor aquisição de habilidades cognitivas relevantes e perdas na produtividade agrícola. Além disso, o ozônio troposférico é responsável por perdas consideráveis na produção agrícola, em especial em regiões peri-urbanas e as afetadas por queimadas associadas a mudança de uso do solo.

OMS

Os índices de qualidade do ar estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde não são atendidos na maioria das grandes cidades brasileiras, onde sequer existem penalidades quando a legislação não é cumprida pelos órgãos competentes. O estudo diz que “há uma grande lacuna entre as responsabilidades estabelecidas pelo PRONAR e a implementação de ferramentas em nível estadual. Embora o programa nacional exija a implementação de uma série de ferramentas e políticas em nível estadual, estas não se traduzem em realidade”, informa.

Com a pandemia de Covid-19, a poluição do ar é considerada a segunda maior causa ambiental de doenças e mortes prematuras em todo o mundo.

Os impactos da poluição do ar na saúde humana estão conectados com doenças pulmonares, cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais, disposição ao câncer e ao diabetes, prejuízo no desenvolvimento cognitivo em crianças e demência em idosos.

Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que mais de 90% da população mundial não respira ar de qualidade aceitável e está exposta a riscos diários, resultando em 7 milhões de mortes anuais, cerca de 11,6% de todas as mortes no planeta. Desse total, 600 mil são crianças. São números 15 vezes maiores que o número de mortes causadas por guerras e outras formas de violência.

PRIORIDADES

O estudo finaliza propondo algumas prioridades para o avanço das políticas de melhoria da qualidade do ar no Brasil:

= Criar uma política nacional sistêmica de qualidade do ar garantida por lei;

= Definir um cronograma claro para a execução das próximas fases dos padrões nacionais de qualidade do ar, assim como punições explícitas para o não cumprimento das mesmas;

= Criar políticas e incentivos que busquem reduzir as assimetrias regionais na gestão de qualidade do ar no país, como o aprimoramento técnico das equipes dos órgãos estaduais de meio ambiente;

= Fortalecer a ciência de dados por trás das políticas de qualidade do ar, principalmente pela ampliação e pelo aperfeiçoamento do sistema de monitoramento atmosférico nacional, priorizando áreas críticas e uso de novas tecnologias;

= Alinhar, de forma estratégica, as políticas nacionais de controle de poluentes atmosféricos e de redução de emissões de GEE;

= Fortalecer sinergias e compatibilização entre políticas de qualidade do ar e políticas estruturantes de planejamento urbano, como o plano diretor e os planos de mobilidade urbana;

= Promover pesquisas sobre a economia da qualidade do ar e a análise de implementação de políticas públicas, incluindo desafios de governança;

= Promover pesquisas sobre a interface entre a qualidade do ar e a desigualdade socioeconômica no Brasil;

= Desenvolver políticas regionais e nacionais para gestão de queimadas e prevenção aos riscos à saúde; e

= Incluir de forma mais equitativa representantes da sociedade civil e do setor de saúde na governança da qualidade do ar, com poderes de decisão e participação plena equivalentes aos representantes do meio ambiente.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. EMILIANO STANISLAU AFFONSO NETO disse:

    Ótimo artigo Alexandre
    O que me deixa inconformado são as exigências , muitas vezes absurdas, que fazem para aprovação de novas linhas de metrô onerando as obras e atrasando a sua implantação. Em muitos casos as obras são paralisadas prejudicando a população, a economia e trazendo custos adicionais.
    Temos que mobilizar e mudar este tipo de conduta.

    Emiliano Affonso
    Especialista em Transporte, Conselheiro da AEAMESP e Diretor do SEESP

  2. DIEGO disse:

    A verdadeira e triste realidade de uma nação.

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