ENTREVISTA: ABC debate CCO unificado para ônibus municipais e padronização de sinalização viária

Ônibus entrando no Bairro Paraíso, em Santo André. Sistemas de transportes e trânsito têm pouca comunicação entre eles

Apesar de serem interdependentes, cidades do ABC ainda não conseguiram unificar gestão de transportes públicos e trânsito

ADAMO BAZANI

OUÇA NA ÍNTEGRA NESTE BOTÃO ABAIXO:

O passageiro de ônibus de Santo André muitas vezes é exatamente o mesmo passageiro dos ônibus de São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

A interdependência das cidades da região do ABC Paulista é tão grande que, dentro das permissões estabelecidas pelos órgãos gestores, os ônibus de uma cidade trafegam por ruas das vizinhas para completar o itinerário.

Mas os sete sistemas de ônibus das sete cidade não se conversam.

E o que dizer do trânsito? O motorista muitas vezes cruza praticamente todas as cidades da região para completar um destino e o CTB (Código de Trânsito Brasileiro) é único no País. Mas por incrível que pareça, não há uma padronização das formas de sinalização viária entre as cidades.

O problema no ABC Paulista é antigo e é mais um dos muitos exemplos que ocorrem em todas as regiões metropolitanas de diversas partes do Brasil: a falta de gestões de mobilidade unificadas ou, ao menos, que se conversem em tempo real.

Na última semana, o novo secretário-executivo do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, Acácio Miranda, conversou com o Diário do Transporte e admitiu que a região, que é uma das mais ricas e adensadas do País, precisa evoluir e muito quando o assunto é mobilidade urbana integrada, embora ressalte que o consórcio de prefeitos permitiu avanços significativos.

Acácio assumiu no início de janeiro a secretaria executiva do consórcio na gestão de Paulo Serra, que é prefeito de Santo André e voltou neste ano a presidir a entidade.

CCO INTEGRADO PARA DEPOIS BILHETAGEM INTEGRADA NOS ÔNIBUS:

Um dos “nós” da falta de integração ocorre entre os sistemas municipais de ônibus das sete cidades, controlados majoritariamente por famílias centenárias na região (o termo não é exagero) ou por empresários de Minas Gerais que chegaram ao ABC nos anos de 1980 capitaneados por Constantino Oliveira (Nenê Constantino), que não atua no transporte urbano na região.

Muitos destes grupos empresariais da região, apesar de já terem trabalhado juntos, hoje procuram manter distância um dos outros, havendo até uma rivalidade entre eles.

Um Bilhete Único do ABC é um sonho que ainda parece ser distante, mas possível se antes houver uma comunicação entre os sistemas.

Segundo Acácio Miranda, as discussões para a criação de um CCO (Centro de Controle Operacional) já existem e a troca de informações em tempo real entre os gestores dos ônibus seria o primeiro passo para se pensar numa integração maior.

“Há um projeto, existem estudos e existem discussões neste sentido. Este seria o primeiro passo para a integração de todo o sistema. A partir de um momento que nós tivéssemos um CCO acompanhando em tempo real as informações dos sete municípios e fazendo o diálogo entre estas informações, a questão da integração dos sistemas seria um passo subsequente. Óbvio, observadas a questão dos valores das tarifas” – disse.

Não existe uma tarifa única no ABC, cada cidade pratica o valor de forma independente.

Para Acácio Miranda, a questão da tarifa e a necessidade de uma integração entre as diferentes tecnologias de bilhetagem escolhidas pelas empresas de ônibus estão entre as principais dificuldades para esta esperada integração.

“A questão financeira, a questão das tarifas, obviamente é um entrave primeiro, depois há necessidade das integrações dos sistemas já que há a utilização de sistemas distintos. É necessário que eles sejam unificados ou pelo menos haja a possibilidade da interlocução de um sistema com o outro.” – disse o secretário.

Apesar da necessidade urgente desta integração, não há prazos definidos para implantação de um CCO dos ônibus e uma integração de bilhetagem.

TECNOLOGIA E FINANÇAS:

O Diário do Transporte apurou que do ponto de vista estritamente tecnológico, é possível fazer integrações entre sistemas diferentes de ônibus e de bilhetagem eletrônica. Não haveria necessidade nem de troca de cartões entre as cidadades, já que é possível implantar mais de um chip nos validadores das catracas dos coletivos. Assim, um ônibus de São Bernardo do Campo poderia ler o cartão de Santo André e Mauá, por exemplo, mesmo com fornecedoras de tecnologia diferentes.

Mas para que essa integração de fato ocorra, seria necessário que houvesse um entendimento entre as empresas de tecnologia e, principalmente, entre os operadores de ônibus, quanto ao financiamento e repartição das receitas dos sistemas referentes ao uso da modalidade integrada.

Esse entendimento também é possível, mas há a necessidade de muitas negociações e regras transparentes e claras colocadas, inclusive, em contratos.

SINALIZAÇÃO UNIFICADA:

Outro “nó” de mobilidade que Acácio vai tentar desatar em sua gestão frente à secretaria executiva do Consórcio Intermunicipal ABC é a uma gestão unificada de trânsito.

Por mais incrível que possa a aparecer, não há padronização da sinalização entre as diferentes cidades.

“Um aspecto é a padronização dos sinais viários. Por mais que o Código de Trânsito Brasileiro Estabeleça certos padrões, por mais que o Denatran e o Contran estabeleçam certos padrões, nós aqui no ABC ainda temos as peculiaridades de cada uma das cidades. Se nós tivéssemos uma integração e uma padronização destes sinais, ficaria mais fácil também e o principal mecanismo hoje para que isso seja alcançado é o consórcio” – disse

Além disso, as gestões de trânsito diferentes entre cidades tão interdependentes acabam gerando gargalos na circulação a pé, de bicicleta, de transporte individual e de transporte público, em especial nos limites entre os municípios.

“Nós temos a entrada e saída de uma cidade com um sinal, com uma faixa de pedestres, a partir do momento que nós entramos em outra cidade, a poucos metros depois já há um sinal no mesmo sentido e uma faixa de pedestres. Se nós tivéssemos a integração de todo o sistema, principalmente nos limites entre os sete municípios ficaria mais fácil, até do ponto de vista da celeridade do trânsito e transporte público” – exemplificou.

Acácio Miranda informou ainda ao Diário do Transporte que há projetos de mobilidade para a região do ABC, por meio do Consórcio Intermunicipal, com recursos internacionais, como do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Todos buscam viabilizar uma melhor integração.

“Os primeiros projetos que foram efetuados através de financiamento internacional são projetos de análise e integração de nosso sistema de mobilidade. E não só o transporte público, mas a mobilidade como um todo. O trânsito, a integração dos sistemas de trânsito e de controle de tráfego, por exemplo. E agora, com o encerramento destes projetos e destas análises, nós passamos para uma segunda fase que é a mais complexa, que é a fase da execução, que demanda mais trabalho, tempo e, principalmente, demanda uma quantidade muito maior de recursos para que sejam executados. Então, nós estamos naquele momento em que há superação das formalidades para que estes projetos sejam apresentados aos órgãos internacionais e aí sim, executados.” – explicou.

Apesar do trabalho do Grupo de Mobilidade do Consórcio, ainda não há prazos para que todas estas medidas sejam colocadas em prática.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Laércio Luz disse:

    Existe uma falha brutal na maneira como os consórcios e outras entidades tratam o controle do transporte urbano. Cada consórcio e outras entidades deveriam funcionar como colaboradores de planejamento de transportes de um órgão estadual e não como planejadores e executores individuais criando custos enormes à sociedade que paga por tudo isso.
    Existem três interessados neste meio: Sociedade, Empresários e Governo. Todos podem ganhar com um bom planejamento, mas infelizmente cada ator vislumbra seus próprios interesses gerando custos conjuntos que claramente pesam nas tarifas.
    A melhor saída seria criar uma Autoridade ou Agência Metropolitana Estadual exclusiva para mobilidade urbana de média capacidade e ser centralizado nessa instituição o controle da bilhetagem e o controle de monitoramento, semelhante ao que acontece com o Cartão BOM na EMTU/SP. A EMTU não administra os recursos, mas controla todos os créditos em trânsito relativos ao Cartão BOM o que propicia um melhor controle logístico e uma análise de viabilidade econômica e financeira de linhas viáveis suprindo linhas deficitárias.
    Todos estes dados deveriam ser compartilhados com as prefeituras reduzindo custos com relação a essa estrutura e ao mesmo tempo haver uma colaboração mutua entre governo, municípios e a sociedade.
    Isso criaria troncalizações de linhas de transportes metropolitanos e intermunicipais com ramificações municipais mais inteligentes, reduzindo custos, poluição e atendendo melhor a sociedade.
    Ao autorizar a extinção da EMTU com o intuito de transferir suas atribuições para uma empresa com expertise em pedágios e não em transporte de pessoas cometeu-se um erro e um retrocesso enorme que ainda pode ser salvo pois ainda há tempo para se criar esta Agência ou Autoridade Metropolitana exclusiva visto que já está em estudo.
    É inegável os ganhos absurdos que a sociedade, os empresários e governo alcançariam.

  2. Galesi disse:

    Seria um sonho se tornando realidade.

  3. Paulo Cordeiro disse:

    Qual é o principal papel do Consórcio? Está implementado para resolver as questões de projetos e suas execuções. Mas o que assistimos há anos são conceitos individuais de cada município, e uma interferência absurda de politicagem e interesses financeiros (visam somente lucro) e muito menos fiscalizam a idade estabelecida para as frotas (sucateadas) sem oferecerem um conforto mínimo aos passageiros. Os municípios agem individualmente com intuito de aumentar receita. Boa parte das 7 cidades o sistema viário é caótico (um autorama, agente roda roda e sempre sai no mesmo lugar) aos menos se fizerem a lição de casa o fluxo de veículos teria um custo benefício melhorado. Quanto ao retorno financeiro seria interessante que fizessem um estudo do km percorrido pela frota em cada município, e assim estabelecer a receita proporcional a cada um.

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