Pesquisa do Ministério das Minas e Energia mostra condições para viabilidade do ônibus elétrico no Brasil

Publicado em: 28 de setembro de 2020

Teste com ônibus da BYD em Salvador (BA). Foto: divulgação

Nota técnica da Empresa de Pesquisa Energética conclui que a eletromobilidade no país depende de uma política de governo que estimule esse mercado, reduzindo impostos e estimulando o crédito ao setor      

ALEXANDRE PELEGI

A Empresa de Pesquisa Energética – EPE, órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME), do Governo Federal, divulgou uma nota técnica em setembro de 2020 apontando as condições necessárias para a viabilidade econômica dos ônibus elétricos no país.

A EPE é responsável por estudos e pesquisas cuja finalidade é subsidiar o planejamento do setor energético, cobrindo energia elétrica, petróleo e gás natural e seus derivados e biocombustíveis.

A nota técnica parte da preocupação com as mudanças climáticas globais e a deterioração da qualidade do ar nas grandes cidades, que estão entre os principais vetores para o processo mundial de eletrificação nos transportes. A nota cita a Agência Internacional de Energia, que apontou que este setor permanece como um dos grandes responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa, que contribuem para as mudanças climáticas e responderam por 24% das emissões globais no uso de energia em 2016.

No Brasil, o setor de transportes foi responsável por 46,3% do total das emissões da matriz energética brasileira em 2018, enquanto o seu consumo de energia representou cerca de um terço do consumo total da economia brasileira, segundo dados do Balanço Energético Nacional (EPE, 2019)”.

A nota cita especialmente a contribuição das emissões relativas aos ônibus urbanos. De acordo com documento da organização ICCT (International Council on Clean Transportation – Conselho Internacional de Transporte Limpo), os ônibus urbanos com motor a combustão interna (MCI) de gerações mais antigas produzem um quarto das emissões de carbono negro do transporte rodoviário, apesar de constituírem apenas 1% da frota global de veículos rodoviários. As emissões de MP (materiais particulados) são especialmente importantes nos corredores de ônibus urbanos, onde há concentração destes veículos. Destaca-se que a substituição por veículos elétricos representa uma das alternativas para resolução do problema.

O MP permanece concentrado nas imediações da via e causa degradação do ambiente à sua volta.

TESTES EM SALVADOR

Na análise dos resultados, o documento da EPE mostra que, em determinadas condições, o ônibus elétrico pode ser viável economicamente. “Porém, a escolha dos parâmetros pode modificar significativamente a sua atratividade econômico-financeira. Ademais, incentivos e garantias governamentais podem promover a ampla adoção desta tecnologia veicular no médio prazo”.

A nota técnica conclui que a manutenção dos veículos elétricos pode ser até 25% menor quando comparados aos veículos a diesel (modelo Proconve 7, mais limpos), conforme testes operacionais realizados em Salvador (BA). Relembre: Ônibus 100% elétrico da BYD começa a ser testado em Salvador, diz prefeitura

Em testes realizados na Linha 1001 – Aeroporto-Praça da Sé, em Salvador (BA) –, verificou-se que o valor de manutenção do modelo K9 [fabricado pela BYD] foi de R$ 0,20/km, enquanto os ônibus a diesel que rodavam na mesma linha apresentavam um custo de manutenção de R$ 0,30/km”.

Esses testes concluíram que esse valor independe da recarga ser realizada no ponto de abastecimento ou ao longo da rota.

Além dos custos recorrentes ao modelo tradicional, como troca de peças e consumo de óleo lubrificante, ainda que em menor escala, a manutenção dos VEs inclui a infraestrutura de recarga e o gasto com aluguel/ leasing de baterias, caso a empresa não a compre juntamente com a carroceria e o motor.

Na avaliação do fabricante dos veículos, a redução se deve à composição do motor com apenas três grandes peças que necessitam de manutenção periódica. Uma pesquisa feita em 2018 a partir de um case na Malásia demonstrou também que os custos de peças e acessórios dos carros elétricos devem ser menores que de suas contrapartes a diesel. Isso ocorre por causa da menor presença de peças móveis e da não ocorrência de combustão interna dentro do motor, que sofre desgaste mais rapidamente.

Aplicando um desconto estimado em 24% ao custo de peças e componentes dos veículos a diesel, a EPE estimou em seu estudo valores entre R$ 0,37/km e R$ 0,42/km, destacando nesse mercado os fabricantes BYD, Eletrabus e Volvo.

Do ponto de vista essencialmente econômico, sem levar em consideração os prejuízos ambientais ao clima e à saúde das pessoas, e sem contabilizar incentivos à tecnologia, a EPE ressalva que o ônibus a diesel no Brasil é mais atrativo economicamente na condição em que o preço do combustível fique no patamar de R$ 4,5 por litro.

A alternativa para viabilizar o ônibus elétrico no país passa, portanto, por eliminar imposto e reduzir o preço de aquisição, aliado a algum crédito. Isso tornaria a compra por empresas transportadoras bem atrativa, permitindo assim que aquisição de uma frota maior viabilizasse um mercado de veículos usados, com consequente aumento do valor de revenda.

Por fim, um dado que a estatal salientou em sua nota técnica é de que os valores apresentados não levaram em consideração os custos de meia vida dos ônibus, significativamente maiores para os tipos elétricos, devido à necessária troca de baterias usadas.



Para fazer download da Nota Técnica da EPE, clique no link: NT SEE-SDB – Avaliação Técnico-Econômica de Ônibus Elétrico no Brasil

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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