ENTREVISTA: Empresas de ônibus rodoviários de São Paulo vão entregar à gestão Doria inventário com impactos do transporte clandestino no Estado

Publicado em: 22 de setembro de 2020

Transporte clandestino pode agravar situação do sistema no pós pandemia, dizem viações. Foto Arquivo/Meramente Ilustrativa

Segundo presidente do Setpesp, Gentil Zanovello, concorrência com os transportadores ilegais deve ser o maior problema para a recuperação do setor que dificilmente voltará a alcançar os níveis de demanda de antes da pandemia

ADAMO BAZANI

(Ouça a entrevista na íntegra no final do texto)

Uma viagem entre a capital paulista e São José dos Campos, no interior, tem uma passagem em linha de ônibus rodoviário regular custando em torno de R$ 32. Mas se não fosse o custeio das gratuidades pelo passageiro pagante, a cobrança do ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços e a taxa de fiscalização da Artesp (agência que regula os transportes no Estado) este valor poderia ser de em torno de R$ 18, muito próximo, inclusive, do que um ônibus ilegal cobra.

O exemplo é do presidente do Setpesp – Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo, Gentil Zanovello, em entrevista ao Diário do Transporte na tarde desta terça-feira, 22 de setembro de 2020.

Segundo Zanovello, na próxima semana, a entidade vai entregar à gestão do governador João Doria um inventário com os impactos do transporte clandestino e do transporte não autorizado nas atividades das empresas e também nos cofres do Estado.

Os números estão sendo finalizados, mas de acordo com Zanovello, além da perda da arrecadação em si, um dos problemas do transporte clandestino é que este acaba atuando apenas no “filé” das linhas, o que acaba desestruturando o sistema como um todo, com impactos principalmente nas linhas menos lucrativas, mas que possuem uma importância social. Na prática, estas linhas são bancadas pelos serviços de maior demanda.

Pela explicação de Zanovello, na medida em que as linhas regulares mais atrativas começam a perder receitas significativas, as linhas de importância social que são bancadas pelas mais lucrativas, acabam sendo afetadas também. Assim, o transporte irregular, segundo o dirigente, causa um desequilíbrio em todo o sistema do Estado prejudicando quem mais precisa.

“O transporte clandestino está sempre em ligações de maior demanda, entre as regiões polos do Estado e a capital. São José dos Campos X São Paulo, Bauru X São Paulo, Ribeirão Preto X São Paulo, São José do Rio Preto São Paulo, Sorocaba X São Paulo, ou seja, o ilegal não vai procurar aquela ligação de menor demanda, mas vai procurar o filé mignon, só que ao fazer isso, cria um problema para o sistema que é a perda de receita necessária para manter o sistema universal. Essa é a grande questão que o Estado precisa entender.”  – disse Zanovello.

O dirigente diz também que o Estado precisa se posicionar quanto às formas de custeio das gratuidades e benefícios sociais no sistema de ônibus rodoviários.

Até a pandemia, tinham direito à gratuidade os passageiros com 65 anos ou mais e estudantes à meia tarifa. Para facilitar o deslocamento de policiais que são essenciais no atual momento, o Governo do Estado formalizou esse benefício de gratuidade também à categoria.

Zanovello disse que a discussão não deve se restringir se estes passageiros têm ou não direito, mas na necessidade de o Estado encontrar critérios mais justos e de custeio destes benefícios que recaem unicamente sobre o passageiro pagante, o que deixa as tarifas caras e as viagens em linhas regulares cada vez mais desinteressantes.

O transporte não autorizado pelo poder concedente, seja por aplicativos ou ônibus fretados irregulares, não são obrigados a oferecer essas gratuidades e as linhas regulares, são.

Para Zanovello, o passageiro que arca com tudo isso não é chamado para este debate.

“Isso tem onerado demais o sistema e faz com que aquele passageiro que paga, saia do sistema. É como você colocar numa sala pessoas para discutirem e elas concluírem que quem tem de pagar a conta é quem está fora da sala. Só que quem está fora da sala diz que não foi questionado sobre isso e não vai pagar a conta. Ou seja, essa pessoa vai encontrar outra maneira de viajar” – disse

DEMANDA DE ANTES DA PANDEMIA NÃO SERÁ RECUPERADA:

Toda esta questão do custeio e operação do sistema de transportes que já era conflitante está mais grave ainda com os impactos da pandemia de Covid-19 que provocou, segundo o Setpesp, uma queda expressiva na demanda.

Atualmente, de acordo com Gentil Zanovello, a demanda está em 40% dos passageiros nas linhas rodoviárias interestaduais, mas no ápice da pandemia, esse número foi de 10%.

Já nas linhas suburbanas (que ligam municípios diferentes em modelos de ônibus urbanos, mas que não são das regiões metropolitanas gerenciadas pela EMTU), hoje a demanda está em torno de 50% e no auge da pandemia ficou em torno de 20%.

Zanovello disse que a recuperação está mais lenta do que o setor imaginava.

“Em abril, esperávamos entrar em dezembro deste ano com 80% da demanda do que foi dezembro de 2019, agora este número não temos mais em mente. Não acreditamos que chegaremos ao final de 2020 com mais de 60% e 65% que no mesmo período do ano passado” – disse

O dirigente disse que as questões do financiamento dos serviços e da influência da clandestinidade se tornarão ainda mais delicadas no pós-pandemia com o risco de uma desestruturação total do sistema já que, devido às mudanças de hábitos de viagem, dificilmente o número de passageiros será o mesmo do pré-Covid-19.

O número que parece ser consenso é que a demanda não deve ultrapassar de 80%, mesmo depois da vacina.

“O número mais palatável é de 80% da demanda de antes da pandemia, isso já com a vacina. É um número ainda a ser descoberto, ninguém sabe ao certo qual o nível de mudança de hábito durante a pandemia e, dependendo deste hábito, esse passageiro pode ser que não volte para o sistema” – disse.

OUÇA NA ÍNTEGRA:

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. João Luis Garcia disse:

    Parabéns ao SETPESP por ter a iniciativa e a coragem de vir a público e demonstrar com bases técnicas a real situação do setor de transporte rodoviário no Estado de SP.
    Creio que paralelo ao estudo que apresentarão ao Governador João Dória, também deveriam lançar uma campanha publicitária de conscientização ao passageiro aonde seja colocado de maneira clara e prática todos os custos que atualmente compõe o valor de uma tarifa ou passagem.
    Boa parte da imprensa culpa as empresas pelo alto custo atual das passagens e tarifas, mas até para que o atual passageiro pagante tenha conhecimento que as concessões de gratuidades e isenções, ICMS cobrado pelo Governo do Estado e as taxas sejam elas municipais ou estaduais são os itens de maior peso para a composição do valor pago pelo usuário.

  2. Ricardo Moreira. disse:

    Deveriam transformar de vez a EMTU em uma Autoridade Metropolitana, dando mais poderes a ela que já conta com experiência de mais de 40 anos nessa área.
    Deixar a ARTESP com o seu melhor conhecimento que é pedágios e manutenção de rodovias, transferindo sua parte de fiscalização de ônibus para a EMTU que já cuida do transporte metropolitano em cinco regiões metropolitanas, mas isso seria muito bom para a sociedade coisa que o governo parece não ter interesse.

    1. Lomas A. Camargo disse:

      Apoiadíssimo Ricardo Moreira, o know how da EMTU é reconhecidamente de uma autoridade metropolitana, com um quadro enxuto e autosuficiente . Tornando-se uma autoridade metropolitana , a EMTU poderá promover a qualidade da mobilidade urbana com já a faz, nas regiões metropolitanas do Estado de São Paulo, planejando, estruturando e fiscalizando o serviço de transporte de média e baixa capacidade e dessa forma também em todo o Estado de São Paulo.

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