Transporte de cargas no perímetro urbano aumenta 20% durante pandemia e impacta mobilidade, segundo empresa de logística

Publicado em: 20 de setembro de 2020

Alteração pode causar grande impacto na mobilidade em centros urbanos. Foto: Adamo Bazani / Arquivo.

Dados foram divulgados pela Pathfind e consideram operação em todo o Brasil

JESSICA MARQUES

O volume de transporte de cargas no perímetro urbano teve um aumento de 20% por conta da pandemia de Covid-19. Os dados foram divulgados pela empresa Pathfind, considerando a operação logística em todo o Brasil.

Os números da empresa mostram que mais de 60 milhões de quilômetros por mês dos clientes era na proporção de 90% rodoviário e 10% urbano antes da pandemia. Por sua vez, em agosto, essa relação mudou para 70% (rodoviário) e 30% (urbano).

A Pathfind, empresa de software para a cadeia logística, também aponta que a tendência é de a proporção se equilibrar cada vez mais. Assim, essa alteração pode causar grande impacto na mobilidade em centros urbanos.

“O aumento no volume do transporte de cargas na cidade está relacionado com o aumento do e-commerce e deliverys de todos os tipos. Houve um crescimento inesperado, acima de todas as expectativas e pegou todos – inclusive grandes players – despreparados, sobretudo para entregar o que as pessoas passaram a comprar pela internet”, afirmou o presidente do Conselho de Administração da Pathfind, Antonio Wrobleski.

Além disso, segundo Wrobleski, o transporte de cargas na cidade, mesmo após a pandemia, será maior do que antes. O hábito de comprar pela internet vai permanecer e isso vai colocar mais veículos de entregas nas ruas.

“E, além do aumento natural por conta da demanda, o despreparo na logística faz com que vendedores utilizem mais veículos e rodem mais quilômetros para entregar os produtos. Então, aumenta o volume de forma desorganizada. É um problema sério”, considerou também.

ACIDENTES

O mestre em Transportes e professor de Engenharia Civil na Universidade Estadual de Campinas, Creso Franco Peixoto, detalhou em entrevista ao Diário do Transporte que a mudança indica alterações consideráveis na mobilidade urbana dos grandes centros a curto prazo.

Entre as principais consequências citadas pelo especialista está o maior número de acidentes envolvendo motocicletas. Com mais entregas sendo feitas por esse meio de transporte, maiores são os riscos.

“O aumento do tráfego urbano tem caracteres muito fortes em termos de motocicleta. A demanda por mais motocicleta é prova incontestável da mudança da matriz e ações de transporte com relação a alimentação e entrega de produtos. Tem um componente positivo, porque é um aquecimento de mercado”, considera.

“Por outro lado, é o pior veículo para incentivar o uso, porque é o menos protegido e não raro o motociclista pode até dizer que se cuida, mas a moto tem como caráter o transporte por emoção, a pessoa se apresenta e isso dá uma questão humana de poder e demonstração de força, então vem o uso indevido da motocicleta e resulta em mais acidentes, com pessoas feridas em condição definitiva ou o número de mortos que aumenta”, completa o especialista.

Prova disso é que os números do Infosiga SP mostram um aumento de 7% em óbitos de motociclistas. Os dados foram divulgados pelo Governo do Estado de São Paulo na sexta-feira, 18 de setembro de 2020.

De acordo com o levantamento, as ocorrências envolvendo motos lideram as estatísticas, com 184 casos em agosto deste ano, comparados a 172 no mesmo período de 2019. Em seguida, aparecem os automóveis com 117 ocorrências contra 116 em 2019, variação de 0,9%.

RISCOS OPERACIONAIS PARA MOTOCICLISTAS

Creso afirma ainda que alguns fatores aumentam os riscos operacionais para os motociclistas. Entre eles está o aumento de pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação).

Relembre: Câmara aprova aumento de pontos na CNH e renovação a cada dez anos

“Quando se pensa em aumentar o número de pontos (na CNH) e em paralelo vender mais motocicleta, me preocupa muito como técnico e cidadão, pela expectativa que temos do crescimento da taxa de mortos e feridos pelo uso indevido da motocicleta”, avalia.

“Isso é agravado por motoristas de carros, caminhões e ônibus, que vão se sentir mais livres de praticar infração, porque os limites de multas acabaram aumentando. Isso é um fato no mundo inteiro. Mais facilidade de percurso gera mais acidente e mais ato que caracteriza o sofrimento e o usuário, que não enxerga o risco, mas o medo de perder a carteira”, finaliza o especialista.

DESAFIOS PARA EMPRESAS DE LOGÍSTICA

Ainda de acordo com Wrobleski, o principal desafio que as empresas de logística enfrentam em perímetro urbano são os imprevistos. Assim, um sistema que “aprende” com a utilização está se demonstrando uma solução adequada.

“Inicialmente, a tecnologia da Pathfind permite maximizar a ocupação dos veículos e, com isso, utilizar uma frota menor. Além disso, o sistema planeja um roteiro otimizado que, em geral, é 20% mais curto do o roteiro sequenciado (que vai de ponto mais próximo em ponto mais próximo). Resumidamente, o roteiro otimizado oferece a melhor rota a partir do estudo de todo o trajeto, enquanto o sequenciado considera somente o melhor caminho a entrega mais próxima, como faz o Waze”, detalhou.

TRANSPORTE DIGITAL

Por sua vez, o CEO da VUXX, Felipe Trevisan, apontou que o setor de entregas também teve grande impacto, principalmente par alimentos. Somente no primeiro trimestre, o James Delivery, plataforma do Grupo Pão de Açúcar, cresceu 800% em número total de pedidos.

“O principal desafio é conseguir otimizar o trabalho das entregas, tornando esse serviço mais eficiente. É um ponto importante em qualquer serviço de logística, seja em perímetro urbano ou não. Então, todo o processo de logística precisa ser melhorado e, principalmente, digitalizado”, considerou.

A VUXX é uma startup de logística e mobilidade urbana. Segundo Trevisan, a empresa contrata online motoristas de VUCs (Veículo Urbano de Carga) para o transporte de carga fracionada. Assim, é possível contratar um serviço de frete em até 15 segundos, em uma plataforma pronta para identificar possíveis problemas nas rotas e calcular alternativas.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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