Londres anuncia planos para tornar centro da cidade uma das maiores zonas livres de carros entre as capitais mundiais

Publicado em: 15 de maio de 2020

Plano propõe estimular o transporte ativo e desencorajar o uso do automóvel no centro histórico e financeiro de Londres.

Proposta é possibilitar distanciamento social mais seguro nos transportes públicos, auxiliando mais londrinos a andarem a pé ou de bicicleta

ALEXANDRE PELEGI

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, e a Transport for London (TfL), que gerencia o trânsito e o transporte público na capital do Reino Unido, anunciaram nesta sexta-feira, 15 de maio de 2020, planos para transformar partes do centro da cidade em uma das maiores zonas livres de carros em qualquer capital do mundo.

Segundo a prefeitura, isso é necessário para permitir o distanciamento social seguro dos transportes públicos em Londres à medida que estão sendo flexibilizadas as restrições de bloqueio. A ideia é também aumentar o número de caminhadas e o uso de bicicletas, além de melhorar a qualidade do ar da cidade.

De acordo com o comunicado da prefeitura, permitir que o distanciamento social aconteça na rede de transporte público, à medida que as restrições são flexibilizadas, exigirá um esforço monumental de todos os londrinos. “O transporte público só deve ser usado quando for absolutamente necessário – como último recurso”, afirma o comunicado.

“Muitos londrinos agora precisam caminhar ou andar de bicicleta. Todos que podem trabalhar em casa devem continuar a fazê-lo no futuro próximo. Todos nós devemos gastar mais do nosso tempo de lazer em nossas áreas locais para evitar viagens desnecessárias. Os londrinos que só podem trabalhar no transporte metroferroviário devem agora caminhar ou andar de bicicleta a partir das estações, em vez de usar o metrô ou o ônibus”, reforça o comunicado.

O objetivo do plano é criar mais espaço para o distanciamento social, ao permitir um aumento de pessoas caminhando e pedalando, o que garantirá às que não têm escolha, a não ser voltar ao trabalho no centro de Londres, que possam fazê-lo da maneira mais segura possível.


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Algumas ruas serão convertidas apenas para caminhadas e ciclismo. Outras serão restritas a todo tipo tráfego, exceto os ônibus, como parte das mais recentes medidas ousadas do programa Streetspace, lançado recentemente pelo prefeito. Relembre: Londres lança plano para compensar queda de passageiros no metrô e nos ônibus após lockdown ampliando espaço de ruas e calçadas para pedestres e ciclistas

O acesso a serviços de emergência e de pessoas com deficiência será mantido, mas as entregas comerciais em algumas ruas podem precisar ser feitas fora do horário de pico de congestionamentos.

Vias importantes do centro da capital, como a Waterloo Bridge e a London Bridge, podem ficar restritas apenas para pedestres, bicicletas e ônibus, com calçadas ampliadas que permitirão que todos trafeguem com segurança entre as movimentadas estações metroferroviárias e seus locais de trabalho.

A TfL vai permitir acesso aos táxis com emissão zero na essas vias, bem como a outras áreas onde o tráfego estará restrito.

Mais de meio milhão de pessoas trabalham na City de Londres, centro financeiro e histórico da capital. Nessa região, de apenas 2,6 quilômetros quadrados, são necessárias mudanças nas ruas históricas para abrir espaço para o distanciamento social dos funcionários e apoiar a economia.

O programa de qualidade do ar da prefeitura, incluindo a introdução da Zona de Emissão Ultra Baixa (ULEZ-Ultra Low Emission Zone), que entrou em operação em abril de 2019, já haviam contribuído para uma redução de 44% no dióxido de nitrogênio nas vias do centro de Londres entre fevereiro de 2017 e janeiro deste ano.

Após o anúncio do governo das restrições de mobilidade relacionadas ao coronavírus, os níveis de tráfego nas vias caíram até 60%, e o dióxido de nitrogênio prejudicial caiu cerca de 50% em algumas das ruas mais movimentadas da cidade.

O tráfego e a poluição estão começando a aumentar novamente, após as medidas flexibilizando o lockdown.

Para evitar isso, a TfL confirmou que a Taxa de Congestionamento (Pedágio Urbano) e a Zona de Emissão Ultra Baixa (ULEZ), voltarão a funcionar na segunda-feira, 18 de maio. São ferramentas que reduzem o congestionamento e a poluição, e ajudam a combater a emergência climática, além da Zona de Baixa Emissão, que desencoraja o uso dos caminhões mais poluentes e as grandes vans.

Como medida temporária e para auxiliar com recursos a transformação das ruas de Londres, o plano da prefeitura e da TfL propõe que a Taxa de Congestionamento (Pedágio Urbano) aumente para 15 libras no próximo mês, e o horário de operação seja estendido como parte de um pacote de mudanças temporárias.

Essas mudanças serão monitoradas e farão parte de uma revisão mais ampla do Pedágio Urbano, conforme acordado com o Governo do Reino Unido, como parte do acordo de financiamento da TfL que o Diário do Transporte noticiou na manhã desta sexta, 13. Relembre: Coronavirus: Londres assegura auxílio emergencial para o transporte público de 11,3 bilhões de reais

As propostas incluem aumentar a taxa de congestionamento para £ 15 (mais de R$ 100) e estender seu horário de funcionamento das 7h às 22h, sete dias por semana, a partir de 22 de junho. Isso encorajará os londrinos a não fazerem viagens desnecessárias de carro, e a expectativa das autoridades é que reduza em um terço os deslocamentos dentro da zona de cobrança de congestionamento. Isso reduziria significativamente a poluição do ar no centro de Londres em comparação com os níveis anteriores ao Covid-19 e ajudaria a enfrentar a emergência climática.

Para apoiar os trabalhadores do NHS (sistema de saúde inglês, semelhante ao SUS), a TfL estenderá a eles temporariamente o esquema de reembolso da Taxa de Congestionamento. São pessoas que estão no centro do esforço nacional em tempos sem precedentes. Os funcionários do NHS e de casas de repouso que trabalham na zona do Pedágio Urbano, e que usam seus veículos, continuarão a ser reembolsados por viagens relacionadas ao coronavírus, inclusive por suas idas e voltas ao trabalho.

Para Sadiq Khan, prefeito de Londres, o Covid-19 representa o maior desafio para a rede de transporte público de Londres na história da TfL. “Será necessário um esforço monumental de todos os londrinos para manter o distanciamento social seguro no transporte público, à medida que as restrições de bloqueio são gradualmente diminuídas”, afirmou.


Isso significa que temos que manter o número de pessoas usando o transporte público o mais baixo possível. E não podemos ver as viagens anteriormente realizadas em transporte público substituídas pelo uso do carro, porque nossas ruas e avenidas se tornariam imediatamente inutilizáveis e a poluição tóxica do ar aumentaria” – Sadiq Khan


“Peço que os londrinos não usem transporte público, a menos que seja absolutamente inevitável – deve ser o último recurso. Se você pode trabalhar em casa, continue fazendo isso. Todos nós devemos gastar mais do nosso tempo de lazer em nossas áreas locais também”, conclui Sadiq Khan.

Gareth Powell, diretor administrativo de transporte de superfície da TfL, disse: “Durante esse período extremamente difícil, os londrinos seguiram as orientações do governo para não usarem transporte, e vimos uma queda sem precedentes nos níveis de tráfego. Isso trouxe uma queda dramática na poluição. Nas últimas semanas, a capital tornou-se um local mais ecológico e limpo e estamos determinados a mantê-lo dessa maneira. Para evitar o congestionamento da cidade e apoiar os níveis mais altos de caminhada e ciclismo, que serão vitais para a retomada de Londres, estamos restabelecendo os esquemas de cobrança dos usuários das vias urbanas (pedágio urbano e ULEZ), e tornando a caminhada e ciclismo modos mais fáceis e seguros do que nunca”.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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