Exposição de ônibus transforma Viaduto do Chá em linha do tempo

Publicado em: 15 de dezembro de 2019

Viaduto do Chá virou linha do tempo do Transporte na região central

VVR, mostra de veículos pesados históricos, reuniu apaixonados por transportes que mostraram raridades e reviveram fatos de épocas difíceis e ao mesmo tempo saudosas da mobilidade

ADAMO BAZANI

Colaborou Jessica Marques

O Viaduto do Chá, na região central da Capital Paulista, se transformou neste domingo, 15 de dezembro de 2019, numa verdadeira linha do tempo.

E as histórias eram contadas por ônibus raros de diferentes épocas e por seus apaixonados proprietários.

Desde um trólebus ACF Brill ano 1947, um dos primeiros veículos de tração não poluente da capital paulista, passando por uma simpática jardineira Chevrolet 1950 de madeira e ferro, até os imponentes Diplomatas e Flechas da Scania, modelos à frente de suas épocas que são os anos das décadas de 1980 e 1990, muitas histórias estavam embarcadas.

O evento VVR – Viver, Ver e Rever é organizado pelo Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, que teve a primeira edição em 2004 ainda dentro de uma garagem de ônibus e, neste ano, faz parte do calendário das comemorações natalinas na cidade de São Paulo.

Para o presidente do Clube, Antônio Kaio Castro, um gostinho especial: o retorno da exposição depois de cinco anos sem ser realizada.

Antônio Kaio Castro ressalta a beleza do antigo e a oportinidade de conhecer boas histórias em cada um dos ônibus do evento

Kaio disse ao Diário do Transporte que se impressiona com a beleza do que é antigo e que o mais marcante das edições da VVR sempre foram as histórias humanas por trás das possantes máquinas que, neste ano, chamaram a atenção do público que passou pelo centro da capital paulista

“Eu gosto da beleza do visual do antigo, eu tenho a impressão que isso me reporta ao passado, trazendo lembranças e recordações. Muitas destas histórias podiam ser saboreadas num bate papo com os colecionadores. É o que me define, essas lembranças, recordações e histórias de vida. É essa história de vida que o passado dos transportes e ônibus me traz” – disse Kaio emocionado

O dono de um dos veículos mais antigos em exposição, uma jardineira Chevrolet 3800 de 1950, Laércio Cabral, da Cocatur, era só orgulho e alegria ao falar dos fatos que vivenciou com o simpático coletivo para 16 pessoas, que começou com transporte escolar.

Laércio Cabral ao lado de jardineira que reúne muitas histórias

A jardineira também ajudou no desenvolvimento imobiliário de várias regiões do Estado, levando clientes para loteamentos, como explica Laércio.

“No final da década de 1960, surgiram os loteamentos nas praias paulistas e aqui no Largo do Arouche (cento de São Paulo) tinha uma imobiliária que fazia publicidade para levar o pessoal para esses loteamentos. A gente fazia esse tipo de transporte na época.Fizemos um fretamento para loteamento que me lembro, também em Santana do Parnaíba (Grande São Paulo), que não sei nem se existe ainda.”

Interior com bancos estofados, um requinte para a época

Painel mantém originalidade com tacógrafo de época

No transporte escolar, transportou alunos que depois se tornariam ilustres figuras públicas, como o ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro, Gilberto Kassab

“Eu mesmo cheguei a levar nosso ex-prefeito para a escola. Ele estudava no Liceu Pasteur na Vila Mariana. Levei muito tempo a família Safra também, ou em Campos do Jordão ou em Guarujá. A gente que levava a família com berço, carrinho de bebê, aquele tempo não tinha Piassaguera-Guarujá, tinha que atravessar na balsa.” – relembra

O colecionador conta ainda que antes de virar definitivamente peça de memória da empresa, a jardineira passou por um acidente grave. Mas a paixão pelo transporte fez com que a decisão por reconstruir o veículo logo viesse.

“É uma Chevrolet 3800 a gasolina. Esse carro foi comprado de segunda mão em 1958 pelo meu falecido pai, que usava no transporte escolar na época. Era perua de carregar criança. No fim de semana, fazíamos alguns eventos em Aparecida, Campos do Jordão. Ela trabalhou até 1964, em torno de 25 anos. Em 1966 roubaram e capotaram ela. Estava com meu pai, como ele tinha restaurado toda a mecânica, ele falou: vamos fazer a carroceria nova. Aí surgiu um pessoal especialista em fabricar carroça. Pelos pedaços fizeram a réplica original. O motor original dela meu pai rodou 12 anos sem mexer em nada.” – descreve.

Outros veículos que chamaram a atenção foram os ônibus GM da Turismo Santa Rita.

A empresa de fretamento da capital paulista tem um acervo de cerca de dez ônibus restaurados e devidamente conservados na garagem.

O proprietário da empresa, Jerônimo Ardito, contou que a paixão pelo transporte está no sangue e que uma das suas maiores recompensas pelo trabalho de restauração é quando as pessoas o reconhecem de viagens no passado e falam o quanto os ônibus foram importantes em suas histórias pessoais

Jerônimo Ardito: A paixão pelos transportes está no sangue

“Isso está no sangue da gente. Haja visto que o primeiro ônibus que começamos a empresa é o Chevrolet 1954 e eu o comprei em 1963, ele trabalhou muitos anos e nós guardamos o primeiro carro. Já chegou um homem e falou: ‘rapaz, a primeira vez que eu fui para a praia foi com você dirigindo nesse carro’. Também encontrei um que disse: ‘fui pagar uma promessa em Aparecida e era você dirigindo com o Chevroletzinho’, lembro como se fosse hoje. Isso é comum acontecer e impagável. Isso faz parte. Não tenho palavras, é sangue”. – relembrou Jerônimo.

Adalberto Mattera se comove com a recepção do público.

Também da Santa Rita, Adalberto Mattera, se sentia felicitado pelo retorno do público.

“É a satisfação de estar em um evento como esse, mostrando para quem não conheceu e fazendo quem andou neles relembrar um pouco mais. O retorno do público é gratificante” – disse.

Os ônibus expostos da Santa Rita já se tornaram estrelas. Isso porque participaram de comerciais, filmes e minisséries, como da cantora Elis Regina. Logo, um deles vai aparecer numa produção que conta a história da cantora Celly Campello.

Jerônimo Ardito contou que o GM ODC de 1954 foi praticamente refeito na garagem da Santa Rita, num trabalho que demandou quase dez anos.

“Reconstruímos este ônibus pelas fotos. Não tinha a planta original. Por exemplo, para saber o tamanho exato da carroceria, tanto comprimento, como altura, contamos os rebites na lataria de um ônibus original na foto, um a um. Este ônibus é único no Brasil, remete a nossa história, a história da cidade de muitas pessoas. ” – contou.

GM ODC 1954

Painel do GM OCD é original e foi importado dos EUA para restauração

Interior era a última palavra em conforto para os anos 1950

Processo de restauração foi na garagem da Santa Rita:

Ainda a base do chasso sendo construída

Esturutura começa a ganhar forma

Chapeamento e colocação de motor

Chapeamento completo

Interior ainda sem os bancos

Além da exposição dos cerca de 20 veículos, que foram enfileirados em ordem cronológica com início no prédio da prefeitura seguindo na direção do Theatro Municipal, o público pode curtir a “minicidade”, uma simulação de trajetos de São Paulo em uma maquete gigante com miniaturas de ônibus e caminhões que beiravam a perfeição, todas com controle remoto.

Evento também teve o “Minicidade”, uma simulação de circuitos com ônibus e caminhões em miniatura movidos a controle remoto

O evento reuniu apaixonados por ônibus e transportes em geral, mas muita gente, que passeava pelo centro, se surpreendeu com a exposição e se admirou pela conservação dos ônibus; pela originalidade da exposição, já que ônibus restaurados não são tão comuns que carros; e, principalmente, os mais vividos, puderam relembrar um pouco de suas histórias trazidas à tona pelos veículos caprichosamente mantidos.

E foi esse mesmo o objetivo da exposição: Viver momentos únicos, Ver estes ônibus históricos e Reviver todas estas memórias trazidas de volta.

Veja imagens da VVR (a posição das grades atrapalhou muitos para tirar fotos em melhores ângulos)

Viaduto do Chá virou linha do tempo do Transporte na região central

Trólebus ACF Brill 1947

Jardineira GM 1950

GM ODC 1954

GM PD 4104 , ano 1956

Chassi Mercedes-Benz 321 ano 1958 com caroceria Amélia que é dos anos 1980

Jardineira Chevrolet 1961 da Auto Viação ABC

Carbrasa GM 1962

Nielson 1973

Ciferal Mercedes-Benz 1974

Monobloco O355 Mercedes-Benz 1977

Monobloco Mercedes Benz 1978

Nileson Diplomata Scania 1984

Nielson Diplomata 380 Scania K 112 – 1984/1985

CMA Scania 1991

CMA Scania 1996

Adamo

Confira o vídeo do evento, por Teotônio Mariano:

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Colaborou Jessica Marques

Comentários

  1. Rodrigo Zika! disse:

    Muito top as fotos.

  2. Kaio Castro disse:

    *Pessoal, foi uma festa muito bonita onde todos, embora cansados e um longo caminho de volta pela frente, ainda queriam ficar. Agradecemos infinitamente a todos que atenderam nosso convite expondo suas relíquias e também àqueles que nos prestigiaram com suas presenças.*
    *Aos amigos Ádamo e Jéssica, do “Diário do Transporte”, que com seus textos refletem a beleza do momento, além da perpetuação dele e do estímulo que é às outras iniciativas semelhantes no país inteiro, nosso muito obrigado.*
    Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro
    Kaio Castro – Presidente

    1. Paulo Gil disse:

      Kaio, boa noite.

      Me explique aonde eu errei.

      Tô “P” da vida por sequer eu sabia da VVR – Natalina (pode até ser falha minha) ou por ela não ter sido devidamente divulgada.

      Lembrando que eu fui na Primiera VVR na garagem d Redenção.

      Tô triste e “P” da vida.

      Att,

      Paulo Gil

      1. blogpontodeonibus disse:

        Noticiamos aqui no site Diário do Transporte que iria acontecer. Até com áudio do Kaio
        Veja na busca: VVR

      2. Paulo Gil disse:

        Adamo e Kaio, boa noite.

        Muito obrigado.

        Agora estou “P” comigo mesmo, minha velocidade de leitura está abaixo da velocidade de publicações.

        Acesso todo dia o DT, mas nessa comi bola.

        Abç,

        Paulo Gil

  3. OLÁ BOM DIA E FOI UM BELO EVENTO , NO MEU CANAL NO YOUTUBE O JESSÉ LOUCO POR ÔNIBUS , FOI O PRIMEIRO CANAL A POSTA O VÍDEO DO EVENTO E SUCESSO

    1. Kaio Castro disse:

      Muito obrigado amigo pela sua simpatia e pela contribuição levando com seu belo trabalho esse momento tão especial da “VVR – Viver, Ver e Rever 2019”.

  4. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Pergunto a vocês:

    Aonde é que eu errei?

    Este evento foi divulgado?

    Eu fui na BBF-2019, pois fiquei sabendo pela mídia.

    Aliás, já foi publicado aqui no DT matéria sobre a BBF-2019?

    Há uma concorrência entre BBF e a VVR?

    Não era a VVR que entrou para o calendário da cidade?

    Além de atordoado, fiquei muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito chateado e P da vida ao ler esta matéria, pois, eu, sequer tinha conhecimento da realização desta VVR Natalina.

    Estava lendo as matéria do DT e ao ler esta, fiquei tão “P” que até perdi o sono.

    Adamo ou Kaio Castro, se possível, me expliquem o que ocorreu.

    A BBF agora passou a sr um evento da fiscalizadora ?

    Tô “P” da vida.

    Att,

    Paulo Gi
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

      1. Paulo Gil disse:

        Adamo, boa noite.

        Muito obrigado.

        Agora estou “P” comigo mesmo, minha velocidade de leitura está abaixo da velocidade de publicações.

        Acesso todo dia o DT, mas nessa comi bola.

        Abç,

        Paulo Gil

    1. Kaio Castro disse:

      LEI Nº 14.434, DE 4 DE MAIO DE 2011
      (Projeto de lei nº 1295/2009, do Deputado Bruno Covas – PSDB) Inclui evento no Calendário Turístico do Estado
      O GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO:
      Faço saber que a Assembleia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei:
      Artigo 1º – Fica incluída no Calendário Turístico do Estado a exposição de ônibus antigos intitulada VVR – Viver, Ver e Rever, que se realiza, anualmente, no mês de novembro, na Capital.
      Artigo 2º – Esta lei entra em vigor na data de sua publicação
      ✓✓Palácio dos Bandeirantes, 4 de maio de 2011.
      GERALDO ALCKMIN
      Márcio Luiz França Gomes
      Secretário do Turismo
      Sidney Estanislau Beraldo
      Secretário-Chefe da Casa Civil
      Publicada na Assessoria Técnico-Legislativa, aos 4 de maio de 2011.

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