São Paulo será o indutor do ônibus elétrico no Brasil, diz presidente da ABVE

Publicado em: 3 de outubro de 2019
ônibus elétrico

Ônibus elétrico da empresa Transwolff conectado a infraestrutura de abastecimento. Projeto conta com energia solar. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)

Já para especialista de indústria, evolução das baterias é a principal tendência para viabilidade de frotas de veículos elétricos, mas recarga rápida em terminais tem se mostrado a melhor alternativa

ADAMO BAZANI

A cidade de São Paulo terá a oportunidade de se tornar o mercado que vai alavancar o ônibus elétrico em todo o País.

A opinião é do presidente da ABVE – Associação Brasileira do Veículo Elétrico, Ricardo Guggisberg, entidade que representa as indústrias deste segmento.

Para Guggisberg, mesmo com os atrasos em relação à inclusão de ônibus menos poluentes no sistema, o fato de a cidade ter uma lei que determina metas de redução de poluição pelos coletivos deve criar um mercado que vai impactar a cadeia produtiva, aumentando a escala e diminuindo os preços destes veículos que são mais caros que os ônibus a diesel.

“Certamente, os operadores de ônibus em outros sistemas vão ver em São Paulo na prática que os elétricos trazem inúmeras vantagens, inclusive financeiras, com manutenção mais em conta e com vida útil maior.” – explicou.

Desde janeiro de 2018 está em vigor na cidade de São Paulo, a lei 16.802, que estipula metas de redução de emissões de poluentes pelos caminhões de serviços púbicos e ônibus das linhas municipais para os anos de 2027 e 2037.

A lei substitui o artigo 50 da Lei de Mudanças Climáticas de 2009 que previa que em 2018 nenhum ônibus mais seria movido a combustível fóssil e que acabou não sendo cumprida.

Pela lei sancionada no início de 2018, após um ano de intensos debates na Câmara Municipal, em 2027, as emissões de CO2 (gás carbônico) devem ser 50% menores e zeradas em 2037. Já as reduções de MP (materiais particulados) devem ser de 90% até 2027 e de 95% em 2037. As emissões de Óxidos de Nitrogênio devem ser reduzidas em 80% até 2027 e em 95% até o ano de 2037.

Mesmo com a lei já em vigor, nenhum ônibus novo com tração alternativa ao óleo diesel foi colado para operações definitivas comercias na cidade desde então.  Veículos não poluentes mesmo que estão transportando passageiros, só os 200 trólebus operados pelo Consórcio Transvida (Ambiental Transportes) entre a zona Leste e o centro da cidade.

Como mostrou o Diário do Transporte, o secretário municipal de mobilidade e transportes, Edson Caram, promete a inclusão ainda neste mês de 15 ônibus 100% elétricos da marca BYD, produzidos em Campinas, que serão operados pela empresa do subsistema local de distribuição (linhas de bairro) Transwolff. A eletricidade para estes ônibus será gerada por energia solar em uma fazenda pertencente à BVD em Araçatuba, também no interior paulista, e “jogada” no Operador Nacional do Sistema Elétrico, que é o órgão responsável pela coordenação e controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN) e pelo planejamento da operação dos sistemas isolados do país, sob a fiscalização e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Essa energia vai virar créditos para o consumo destes ônibus na capital paulista.

A renovação da frota para veículos menos poluentes estava travada pela indefinição da licitação dos transportes na cidade que se arrastava desde 2013.

As assinaturas dos contratos de 15 anos ocorreram somente em 06 de setembro de 2019. O prazo era de 20 anos de contratos, mas a adequação se deu depois de a Justiça paulista decidir que a lei que previa os 20 anos era inconstitucional por ter sido feita por vereadores sendo que, no entendimento do judiciário, esta matéria é de responsabilidade da prefeitura.

Mas não são apenas as questões contratuais e de licitação que ainda não fazem com que o ônibus elétrico seja uma realidade nas ruas de São Paulo.

Além de pressões de grupos econômicos, nunca admitidos publicamente, há dúvidas técnicas sobre a viabilidade neste momento de uma frota elétrica maior.

Entre as incertezas está a confiabilidade das baterias, principalmente em relação à autonomia (quantos km dura uma carga), a perda de capacidade de armazenamento de energia ao longo dos anos e à infraestrutura para a recarga.

A vice-presidente do segmento de pesados da ABVE e diretora de gestão da Eletra, fábrica de tecnologia de ônibus elétrico, Ieda Oliveira, diz que as baterias são os itens que mais têm avançado no segmento de veículos elétricos, mas no caso dos coletivos, ela defende o sistema de “recarga de oportunidade”, ou seja, pontos de carregamento rápido dos ônibus durante a operação das linhas, instalados em terminais.

“As baterias estão evoluindo muito em duas questões que são fundamentais, a primeira é peso, conseguindo ter uma maior capacidade energética com menor peso. A segunda é o custo. Este é o grande desafio que ainda está em andamento. Essa evolução vai permitir que se aumente a autonomia, mas o que a gente defende também é que quando se fala em mobilidade elétrica para ônibus, o ideal é trabalhar com o menor banco de baterias possível. Assim, a gente entende que a infraestrutura, as recargas rápidas terão um papel vital na continuidade deste tipo de tração” – explicou

Como mostrou o Diário do Transporte na última terça-feira, 01º de outubro de 2019, o diretor do departamento de universalização da energia elétrica e políticas sociais do Ministério de Minas e Energia, Antonio Celso de Abreu Júnior, disse que há energia suficiente para abastecer os ônibus da cidade de São Paulo se toda a frota de 14 mil coletivos fosse elétrica. Entretanto, segundo Antonio Celso, seriam necessárias adequações na infraestrutura da rede de distribuição.

“Em São Paulo, nós temos energia para atendimento suficiente. Há fornecimento para todo o sistema. Os pontos de conexão é que deveriam ser estudados por causa dos novos acessantes (garagens dos ônibus) para abastecimento inclusive nos horários noturnos. Exigiria uns reforços de rede e isso é atendido pela concessionária local” – disse.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/10/01/sao-paulo-tem-energia-para-que-todos-os-onibus-sejam-eletricos-mas-infraestrutura-precisa-ser-preparada-diz-diretor-do-ministerio-de-minas-e-energia/

As declarações foram feitas durante a 15ª edição do Salão do Veículo Elétrico que ocorre até esta quinta-feira, 03 de outubro no Expo Transamerica, na região de Santo Amaro, na zona Sul de São Paulo.

Confira a cobertura em vídeo feita numa parceria entre os sites Diário do Transporte e Via Trolebus.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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