Caio Jaraguá: Motor home transformado na década de 70 é caixinha de lembranças

Caio Jaraguá com chassi Mercedes-Benz LP 321 transformado em motor home. Foto: Jessica Marques.

Carroceria, mecânica, painel e até mesmo os móveis são de época

JESSICA MARQUES

O empresário Luiz Roberto Augusto, 55 anos, possui um verdadeiro túnel do tempo na garagem. Um Caio Jaraguá com chassi Mercedes-Benz LP 321 transformado em motor home é a segunda casa do colecionador de relíquias.

Mas engana-se quem pensa que Luiz Roberto descaracterizou um veículo antigo para realizar este sonho. O ônibus foi transformado em motor home há pouco mais de 40 anos.

A mudança começou na década de 1970 e, por conta disso, o exterior e o interior do veículo estão preservados. Além disso, na parte de dentro, o ônibus revela-se uma verdadeira caixinha de lembranças.

O fogão e a geladeira são modelos antigos, que podemos encontrar na casa de nossos pais ou avós. Os móveis são feitos com madeira maciça da época e o estofado dos sofás também trazem lembranças distantes.

e51db7b0-96fe-427a-9790-f7117d7fca73

Móveis são da década de 1970. Foto: Jessica Marques.

Até mesmo a pia do banheiro, de cor bege, remete a épocas antigas. Ao olhar atentamente, cada detalhe no interior do motor home remete a um momento do passado.

6de0b479-b490-4f87-9630-099bd8b1de0e

Pia do banheiro. Foto: Jessica Marques.

E não são somente os móveis e eletrodomésticos, de mais de 40 anos, que foram preservados. O banco do motorista e o assento ao lado, para o passageiro que senta-se próximo ao para-brisas, possuem estofado em material original.

c99995c2-b799-4e83-8a89-b4d7abc78c79

Painel e assentos são originais. Foto: Jessica Marques.

No painel, os relógios analógicos e os botões também continuam originais. A única mudança feita por Luiz Roberto foi acrescentar um farol auxiliar.

4102c0e6-f16b-4dc7-b32e-443454e0e0d9

Relógios analógicos foram mantidos.

A direção mecânica também permanece. Segundo o dono do motor home, “não tem moleza” para dirigir este ônibus. O freio também é original conjugado, a água e óleo.

“Geralmente, um caminhão ou ônibus não sai sem ar. Esse aqui não freia sem ar e o freio de mão não segura direito, então anda mais não para. Assim, é preciso esperar encher uns 3 kg de ar para poder frear com segurança”, contou.

25c59496-fc77-4371-81d4-c93130d249f8

Alavanca de câmbio na horizontal, ao lado do freio de mão. Foto: Jessica Marques.

A parte de câmbio e diferencial é toda original do LP 321, segundo o dono. Foi feita a troca apenas da coroa e pinhão para ser um pouco mais longo na estrada.

Entretanto, a parte de motorização foi modificada. Agora, o motor home está com um propulsor de caminhão 1316 turbinado.

TRAJETÓRIA

Originalmente o ônibus era de uma transportadora, a TurSan – Turismo Santo André, desde quando saiu da fábrica.

“Sou o terceiro dono. Um amigo do meu pai comprou esse ônibus da TurSan e transformou ele em um motor home. Ele só tinha uma porta originalmente, não tinha a porta traseira. Ele comprou o ônibus, fez a modificação aos poucos e ao término ele teve uma doença que impossibilitou ele de continuar com o ônibus”, contou Luiz Roberto.

“Ele deixou o ônibus em um galpão de madeira em uma chácara de Rio Grande da Serra, no ABC Paulista, por quase dez anos, mas as madeiras estavam caindo em cima do veículo e eu tive que pegar. Fiz rolo em um Jeep que eu tinha e devolvi uma parte em dinheiro”, completou.

O segundo dono comprou o ônibus em 1974 e já começou a transformação em motor home. Ao fim da década, a mudança já estava concluída. Luiz Roberto, por sua vez, adquiriu o motor home há pouco mais de dez anos.

929a0614-f5e5-4a38-9bd2-3c83448164a7

Chuveiro possui água quente. Foto: Jessica Marques.

Para se tornar a verdadeira segunda casa, o Caio Jaraguá recebeu uma caixa d’água com cerca de 700 litros de capacidade, banheiro, água quente com aquecedor a gás para o chuveiro, freezer, fogão, ar-condicionado, camas, sofás e mesinhas.

6e3cacbf-35cd-43b2-b18b-7e70cc718de8

Vaso sanitário do motor home também é de época. Foto: Jessica Marques.

Para a parte elétrica funcionar, o ônibus precisa de três baterias de 150 amperes, um conversor de energia de 12v para 110v e uma placa solar, sendo esta última tecnologia instalada pelo atual dono. Além disso, o motor home possui um transformador para que as tomadas funcionem em 110v ou 220v.

“Ele carrega através do alternador do ônibus, quando está em funcionamento. Ele também pode ser ligado em uma tomada e não utilizar as baterias. Isso pode ser utilizado em um camping, por exemplo. Sem a placa solar, tem que ligar o motor de vez em quando para manter as baterias carregadas”, explicou o proprietário.

40aa30b0-f2ac-43a3-b9a3-87eca2c47db1

Ambiente do motor home possui ar-condicionado.Foto: Jessica Marques.

O ônibus ainda tem uma bomba automática, a mesma que é usada em embarcações, para enviar água às torneiras e chuveiro. Por sua vez, o aquecedor a gás funciona por meio do mesmo botijão utilizado para o chuveiro e fogão.

Segundo Luiz Roberto, o aquecedor é o mesmo usado em residências, mas está adaptado e embutido na lateral do ônibus.

O atual dono também realizou algumas modificações para preservar o veículo e adquirir algumas comodidades. A cor atual da carroceria foi pintada após a compra. O trabalho foi feito na empresa Cati Rose.

bc0e777ebbad80624f35887272a92234.jpg

Pintura anterior do motor home, em 2014. Foto: William de Souza Ribeiro.

Além disso, Luiz Roberto colocou um tanque de diesel de plástico, porque o de metal estava criando ferrugem. O proprietário também adicionou um filtro para evitar problemas mecânicos.

“Também coloquei um guincho elétrico para transportar a moto. Ele funciona com controle e você pode encaixá-lo quando for usar, porque é uma estrutura removível. É uma rampa que puxa com cabo de aço a moto”, contou.

VIAGENS E EVENTOS

O motor home Caio Jaraguá com chassi Mercedes-Benz LP 321 já foi a estrela em diversos eventos de ônibus antigo, como a BBF (Bus Brasil Fest).

“Vou com ele todo ano para Águas de Lindóia, para um evento de carros. Também vou para Ilha Comprida e Cananéia, no Litoral Sul de São Paulo. A gente fica na praia com ele”, contou Luiz Roberto.

Apesar de o motor ter sido trocado, a velocidade máxima ideal para pegar a estrada com o ônibus é 90 km/h. Segundo o proprietário, mesmo com o peso dos móveis, o veículo encara muito bem as subidas.

Agora, Luiz Roberto pretende manter tudo o que está no motor home original. O proprietário não pensa em modificar ou mesmo vender o veículo, que tornou-se uma relíquia da família.

“Pretendo manter o ônibus dessa forma com tudo o que tem de original. Colocar itens mais modernos, como rodas de alumínio, por exemplo, seria o mesmo que estar de paletó e chuteiras, não combina”, brincou.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Comentários

Comentários

  1. Paulo Gil disse:

    Amigos, bom dia.

    Parabéns pela matéria e ao Sr. Luiz Roberto por compartilhar com todos a sua joia rara.

    Já entrei nessa joia num evento no Pacaembu; não sei se essa joia fosse minha se eu teria esse desprendimento.

    Rsssssssssssssssssssssssssssssssssss

    O mais legal ainda é viajar no tempo, recordar da verdadeira CAIO e dos modelos cabinados.

    Na minha opinião os modelos cabinados tem um charme incomparável com qualquer outro modelo mesmo os mais modernos.

    Já pensaram um NEW ROAD 380 cabinado.

    Nooooooooooooooosssa só de pensar dá emoção.

    Na net tem uma foto de um Dinossauro cabinado; até o Dino cabinado é inigualável.

    Muito obrigado e parabéns a todos.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a paixão”

  2. Rodrigo Zika! disse:

    Muito bonito.

  3. Um adendo>> esqueceram de um detalhe: o volante não é o original, na verdade este volante veio a ser implantado nos Bela Vistas, aliás Mercedes de duas pontas e fundo, Já o Jaraguá tinha de de três pontas, como a estrela da Mercedes e rasos, lembram?? e destes modelos lembro bem a unica empresa que tinha frota com esse modelo e do Bela Vista Viação Alto do Parí

Deixe uma resposta