A quase falência e o sucesso do primeiro dia em Bolsa de Valores da SpaceX têm muito a ensinar para o mercado de ônibus em geral
Publicado em: 14 de junho de 2026
Lição central não está na tecnologia, mas na capacidade de se preparar para momentos críticos. Riscos devem ser já estudados e, hoje em dia, para o mercado o valor está mais na mensagem e na inovação que somente nos bens físicos
ADAMO BAZANI
Na sexta-feira, 12 de junho de 2026, a gigante SpaceX, do trilionário Elon Musk teve o valor estimado em US$ 2,1 trilhão. Até quinta-feira (11), a estimativa era de US$ 1,7 trilhão. Há 18 anos, porém, o conglomerado quase faliu. E tudo isso tem muito a ensinar ao mercado de ônibus e transportes em geral. E não se trata se “romantizar” a trajetória do Musk e nem de vender a mitologia da Fênix de ressurgimento das cinzas. Também não se trata de falar de ônibus com wi-fi via satélite da “Starlink”. Também não é papo de “resiliência”, palavra que virou modinha.
O Diário do Transporte, para isso, ouviu três especialistas: O advogado especializado em regulação do Transporte Rodoviário Interestadual, Ilo Löbel da Luz; a especialista de Investimentos Ultra High do Santander Brasil, Natasha Jaccoud; e a advogada especializada em risco empresarial, Liana Variani.
Atualmente, as três principais frentes de atuação da SpaceX, que é um conglomerado, são o segmento Aeroespacial, IA (Inteligência Artificial) e Conectividade.
A empresa da SpaceX com maior valor individual é a Starlink, que oferece conexão de internet de alta velocidade e baixa latência em áreas remotas, rurais ou em movimento, onde a internet de fibra óptica ou cabo não chega. Em 2025, gerou receita de US$ 11,4 bilhões em 2025, 61% do total do conglomerado com margem Ebitda de 63%, muito acima dos 20% típicos de operadoras tradicionais de satélite.
“No transporte rodoviário não é diferente. Empresas consolidadas passam a impressão de solidez permanente. Mas qualquer organização pode enfrentar momentos decisivos. O que determina o resultado é como ela chega a esses momentos.” – disse Ilo Löbel (VEJA MAIS ABAIXO A ENTREVISTA COMPLETA).
“O resultado mostra a força que a mensagem de uma marca e a inovação têm no mercado, mais que somente nos bens físicos. Você compra o futuro: É investir na líder absoluta de um setor que não tem concorrência à altura ainda. Aqui no Brasil, a venda é por BDR, que é atrelado ao dólar, então dá aquela diversificada em carteira de investimentos com moeda forte. Mas é necessário muito cuidado” – aconselha Natasha Jaccoud.
BDRs (Brazilian Depositary Receipts) são certificados emitidos no Brasil que representam ações de empresas estrangeiras (ou ETFs) negociadas em bolsas internacionais. Na prática, funcionam como recibos, permitindo investimento em gigantes globais (como Apple, Amazon e Google, agora a SpaceX) diretamente pela bolsa brasileira (B3), em reais, sem precisar abrir conta em uma corretora no exterior.
“A inovação e a coragem não podem ser confundidas com inconsequência. Ousadia não é insanidade. Todo o ato inovador tem seus riscos. Mas enfrentar riscos não significa desconhecê-los. Analisar eventuais riscos e como enfrentá-los não se limita a área econômica, mas passa pelos riscos jurídicos, de imagem e operacionais” – explicou Liana Variani
A elevação da valorização da SpaceX na sexta-feira, 12 de junho de 2026, ocorreu por causa do IPO da empresa.
IPO, sigla em inglês para Initial Public Offering, é a Oferta Pública Inicial, ou seja, o momento em que uma empresa vende suas ações ao público pela primeira vez em bolsa de valores, abrindo seu capital.
Os papéis da empresa de tecnologia e “sonhos” encerraram o pregão com alta de 19% na sexta-feira (12)
No início do dia, o valor era de US$ 150 por ação (R$ 759,00 na cotação atual) e fechou o pregão em alta de 19%, a US$ 160,95 por ação (R$ 814,97).
Resultados que devem sofrer uma retração e uma acomodação nos próximos meses, após passar o entusiasmo inicial, segundo a analista econômica.
“O papel acabou de estrear. Historicamente, os primeiros meses de empresa na bolsa são de muita oscilação. O preço vai pular para cima e para baixo. Além disso, há o risco de zero dividendos. A SpaceX é uma empresa em crescimento puro. Eles queimam caixa para expandir, então não espere pingar dinheiro na conta a curto prazo. Você fica exposto tanto ao sobe e desce da ação lá fora quanto ao humor do dólar aqui no Brasil.” – adverte Natasha Jaccoud.
Para o mundo os ônibus rodoviários, Ilo Löbel traz uma lição que considera clara dada pela SpaceX: chegar preparada às mudanças, porque elas sempre ocorrem. Um dos exemplos são as regulações da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres).
“Principalmente para a regulação. Muitas empresas se concentram em tentar prever a próxima decisão da ANTT. É uma preocupação legítima, mas existe uma pergunta anterior e mais importante: se essa decisão sair amanhã, minha empresa consegue lidar com ela? Porque a regulação vai mudar. Sempre muda. A questão é estar em condições de responder quando isso acontecer”. – exemplifica Ilo Löbel
Já para o mundo empresarial como um todo, Liana Variani destaca um ativo cada vez mais importante. Conhecimento e informação, muitas vezes, “fora da bolha”.
“Analisar riscos não é somente prever o que pode dar de errado, mas enxergar as oportunidades que, muitas vezes, podem estar fora da sua bolha, do seu ramo. Informação e conhecimento são hoje os grandes ativos. Muitas vezes, com as devidas adaptações e contextualizações, uma boa sacada para o setor de ônibus pode estar em outros segmentos. Não é replicar ou imitar. Mas entender que vence não quem lê o texto, mas entende o contexto. Informação pode ser inspiração” – disse Liana Variani
A quase falência da SpaceX ocorreu em 2008 principalmente devido a três falhas consecutivas de lançamento do seu primeiro foguete, o Falcon 1.
No mesmo ano também ocorria uma crise financeira global desencadeada pelo estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos e pela concessão desenfreada de empréstimos de alto risco (conhecidos como subprime). O marco da crise global foi a falência do banco Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, mas origem mesmo é dos anos 1990, durante a grande expansão do crédito no mercado norte-americano.
Em paralelo, o desenvolvimento de tecnologia aeroespacial consumiu rapidamente os US$ 100 milhões que Elon Musk havia injetado inicialmente na empresa.
Mas o investidor não desistiu, apesar de que, em meados de 2008, o capital da empresa estava praticamente zerado, restando fundos para apenas um quarto e último lançamento.
A virada de chave ocorreu em 28 de setembro de 2008, quando o quarto voo do Falcon 1 obteve sucesso absoluto. O foguete tornou-se o primeiro veículo de combustível líquido desenvolvido de forma privada a atingir a órbita da Terra. A demonstração técnica de sucesso permitiu que, em dezembro do mesmo ano, a NASA concedesse à SpaceX um contrato crucial de US$ 1,6 bilhão para reabastecer a Estação Espacial Internacional (ISS). Esse aporte financeiro salvou a empresa da falência e financiou o desenvolvimento do Falcon 9, consolidando a SpaceX no mercado espacial.
ENTREVISTA: A lição central não está na tecnologia, mas na capacidade de se preparar para momentos críticos
Em entrevista ao Diário do Transporte, o advogado e especialista em regulação do TRIP, Ilo Löbel da Luz, traça um paralelo entre a quase falência da SpaceX em 2008 e os desafios do transporte rodoviário interestadual de passageiros.
Para Löbel, a lição central não está na tecnologia, mas na capacidade de se preparar para momentos críticos.
Diário do Transporte: A história da SpaceX quase quebrando em 2008 parece distante da realidade do transporte rodoviário. Existe alguma relação com o setor?
Ilo Löbel: Existe, e é maior do que parece. A SpaceX de hoje é uma empresa líder, avaliada em centenas de bilhões de dólares. Mas houve um momento em que ela estava a um único lançamento da falência. No transporte rodoviário não é diferente. Empresas consolidadas passam a impressão de solidez permanente. Mas qualquer organização pode enfrentar momentos decisivos. O que determina o resultado é como ela chega a esses momentos.
Diário do Transporte: Qual é a principal lição dessa história?
Ilo Löbel: Que o sucesso raramente é linear. É fácil olhar para trás e concluir que o êxito da SpaceX era inevitável. Não era. Ela sobreviveu por muito pouco.
No setor, há uma tendência de enxergar os grandes riscos sempre no futuro: uma mudança regulatória, um novo concorrente, uma virada de mercado. Mas o problema quase nunca é a mudança em si. É chegar fragilizado a ela.
Diário do Transporte: Isso vale também para a regulação?
Ilo Löbel: Principalmente para a regulação. Muitas empresas se concentram em tentar prever a próxima decisão da ANTT. É uma preocupação legítima, mas existe uma pergunta anterior e mais importante: se essa decisão sair amanhã, minha empresa consegue lidar com ela?
Porque a regulação vai mudar. Sempre muda. A questão é estar em condições de responder quando isso acontecer.
Diário do Transporte: Como uma empresa se prepara para isso na prática?
Ilo Löbel: Monitorando o ambiente regulatório de forma contínua, não só quando surge uma crise. Isso significa acompanhar consultas públicas, entender a lógica das decisões da ANTT, identificar tendências antes que virem norma. Quem faz isso antecipa cenários. Quem não faz, corre atrás.
No fundo, é uma questão de gestão. Empresas que tratam a regulação apenas como burocracia ficam sempre na defensiva. As que enxergam neste aspecto uma fonte de informação estratégica saem na frente.
Diário do Transporte: O que diferencia as empresas que conseguem atravessar momentos difíceis?
Ilo Löbel: Capacidade de adaptação. A história empresarial está cheia de organizações que não eram as maiores nem as mais capitalizadas, mas sobreviveram porque se adaptaram mais rápido. No transporte rodoviário, isso passa por eficiência operacional, controle de custos e decisões baseadas em dados, não em percepções.
Diário do Transporte: Qual seria a mensagem final para os operadores do setor?
Ilo Löbel: A história da SpaceX lembra que o futuro de uma empresa pode mudar muito rapidamente. Por isso, a pergunta estratégica não é só qual será a próxima mudança regulatória ou concorrencial.
A pergunta mais importante é: se essa mudança acontecer amanhã, minha empresa está preparada?
Porque muitas empresas não desaparecem por causa da mudança. Desaparecem porque chegam despreparadas a ela.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

