França aperta sanções contra uso do celular ao volante

Publicado em: 27 de julho de 2019

Foto: Reprodução

Lei de Orientação das Mobilidades, em análise no parlamento francês, prevê a suspensão da carteira de motorista em caso de infração cometida por uso do smartphone

ALEXANDRE PELEGI

Para desencorajar os motoristas incapazes de deixar seu smartphone enquanto dirigem, o governo francês anunciou recentemente um endurecimento da legislação.

Embora as estatísticas mostrem que é cada vez mais difícil para os motoristas deixarem seus telefones enquanto dirigem – distração que é a causa de muitos acidentes de trânsito –, as autoridades francesas querem apertar a repressão.

Um artigo da Lei de Orientação das Mobilidades (LOM – Loi d’Orientation des Mobilités), em análise no parlamento francês, prevê a suspensão da carteira de motorista em caso de infração cometida por uso do telefone celular.

Aprovado em primeira sessão em 18 de junho pela Assembleia Nacional, o texto prevê a suspensão da carteira de motorista em caso de violação da Lei juntamente com o uso do telefone celular. A regra inclui inclusive o uso do celular com viva voz ou fones de ouvido.

Na França, falar ao celular mesmo com o carro parado já é considerado uma infração. A tolerância para uso de celular em automóveis só é admitida com o veículo estacionado e desligado ou em casos de pane do veículo.

O desrespeito à lei implica em multa que pode alcançar R$ 3 mil, além da perda de três dos doze pontos da carteira de habilitação.

Emmanuel Barbe, representante do governo responsável pela segurança nas estradas, afirmou ao jornal Le Figaro que se a pessoa estiver com o telefone na mão e parar sobre uma faixa de pedestre, acelerando ou não respeitando os direitos de um pedestre, corre o risco de ser suspensa, e de ter sua carteira retirada imediatamente pela polícia.

O VÍCIO DO CELULAR E O RISCO NAS ESTRADAS

Um dado da Associação Profissional das Companhias Francesas de Rodovias (Asfa) aponta que nos últimos cinco anos, 670 agentes que atuam nas autoestradas foram vítimas de acidentes, incluindo duas mortes. “Esses agentes atuam de uma maneira muito visível nas estradas. Isso significa que os motoristas não estavam olhando para a pista, pois estavam fazendo outra coisa”, resume Christophe Boutin, o delegado geral da Asfa.

O principal suspeito, segundo ele, é o telefone celular, que 37% dos franceses reconhecem ter em mãos enquanto dirigem, alguns até explicando que fazem isso “mais facilmente” na estrada “porque é mais seguro“. Essa estatística sobe para 60% no caso de motoristas com menos de 35 anos de idade.

Christophe Boutin cita uma pesquisa realizada pela Harris Interactive (de 12 a 19 de outubro de 2018), que mostra a falta de cuidado dos franceses frente a esse companheiro cotidiano, o celular. A pesquisa cita que 93%, dos motoristas estão cientes do perigo representado pelo aparelho, colocando-o no mesmo nível do álcool, das drogas ou do sono ao volante. No entanto, um em cada três admite fazer e receber ligações, ler e escrever SMS ou consultar suas mensagens.

O jornal Le Figaro descreve os dados da pesquisa, que mostra que no carro o telefone nunca está longe do motorista: na bolsa (69%), no banco do passageiro (43%), apoiado nas pernas (15%). Metade dos motoristas com menos de 35 anos diz não poder ficar sem o telefone por mais de uma hora.

O psiquiatra Laurent Karila, presidente da organização francesa SOS Vícios, diz que os jovens são “nativos digitais”. Eles respondem com mais frequência aos pedidos, diz Laurent. Segundo ele, o smartphone cria uma dependência, à qual os especialistas associam agora um vocabulário: a “nomofobia” ou a “síndrome de ansiedade da bateria e da rede fraca”; a “athazagoraphobia”, medo de ser esquecido e ou ignorado por alguém de quem você gosta fortemente, o medo de não ser “curtido”, “retweetado” e compartilhado.

Perguntados sobre o que fazer, os franceses responderam maciçamente (76%) por sanções mais duras. O que exatamente será a lei de orientação das mobilidades, em exame no Parlamento.

A SOS Vícios é uma associação francesa cujo objetivo é mobilizar a opinião pública e informar os atores da sociedade civil, a mídia e os políticos sobre todas as formas de vício comportamental, como álcool, drogas, medicamentos, jogos, sexo, até mesmo o uso do celular.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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