MP investiga remanejamento de R$ 12,3 milhões de corredores de ônibus em São Paulo para Autódromo de Interlagos

Publicado em: 20 de julho de 2019

Sem malha de corredores suficiente, ônibus ficam lentos e operação cara na cidade de São Paulo. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte) – Clique para Ampliar

Procedimento quer saber se houve legalidade e razões para a transferência dos recursos. Diário do Transporte foi o primeiro a noticiar a mudança de destinação de verbas em fevereiro

ADAMO BAZANI

O MPSP – Ministério Público do Estado de São Paulo instaurou uma investigação sobre a transferência de R$ 12,39 milhões (R$ 12.392.207,64) que estavam previstos para ampliar e modernizar a rede de corredores de ônibus da cidade em benefício do Autódromo de Interlagos, que ainda deve ser concedido à iniciativa privada.

O remanejamento de recursos ocorreu em fevereiro deste ano e foi noticiado em primeira mão pelo Diário do Transporte.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/02/18/bruno-covas-remaneja-para-o-autodromo-de-interlagos-r-123-milhoes-que-seriam-para-corredores-de-onibus/

Os promotores querem saber a legalidade desta transferência e as reais razões.

Alguns fatores despertaram estranhamento no MP, como o remanejamento ocorrer mesmo havendo um déficit de corredores de ônibus, a existência de problemas no desempenho operacional do transporte público sobre pneus na cidade que poderiam ser minimizados com os espaços exclusivos e também pelo fato de a transferência ter sido feita mesmo com a possibilidade de privatização do autódromo.

Além de permitir maior velocidade operacional aos ônibus, que, em média é menor que 20 km/h na cidade, uma rede de corredores poderia também reduzir os custos de operação do sistema de transportes, cuja necessidade de subsídios tem aumentado a cada ano.

Estes espaços permitem que menos ônibus consigam fazer um maior número de viagens mais rápidas, o que também ajuda a reduzir os gastos operacionais.

Neste aspecto, a cidade também está defasada.

Dos 17 mil km de vias de São Paulo, apenas cerca de 130 km são ocupados por corredores de ônibus, dos quais, somente 8 km são BRT (Bus Rapid Transit), referentes ao trecho entre os terminais Sacomã e Mercado do Expresso Tiradentes, realmente segregados dos demais veículos, sem conversões de carros e compartilhamento com outros veículos, como táxis.

Enquanto, em geral, a média de velocidade dos corredores de ônibus à esquerda em São Paulo varia entre 12 km/h e 25 km/h, a velocidade comercial dos ônibus no Expresso Tiradentes varia entre 46 km/h e 48 km/h.

No plano de metas da prefeitura, no início de 2018, estava a previsão de mais 72 km de corredores de ônibus até o final de 2020.

Mas no dia 8 de abril de 2019, Bruno Covas divulgou um novo Plano de Metas para o período de 2019-2020.

O destaque negativo foi para a redução da meta do programa de Doria que previa a construção de 72 km de corredores de ônibus. Na mudança, Bruno Covas prevê implantar pouco mais de 10% disso, apenas 9,4 km de vias exclusivas.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/04/09/bruno-covas-reve-metas-de-doria-e-reduz-plano-de-construir-72-km-de-corredores-para-apenas-94-km/

Entretanto, até agora, foram inaugurados 3,3 km de corredores efetivamente novos.

O mais recente trecho entregue foi de 530 metros do Corredor Berrini, em 15 de setembro de 2018.

https://diariodotransporte.com.br/2018/09/13/sptrans-entrega-trecho-do-corredor-berrini-neste-sabado/

Muitos dos corredores que ainda não saíram do papel foram apresentados em 2011, pelo então prefeito Gilberto Kassab.

Na gestão Haddad, em 2014, o TCM – Tribunal de Contas do Município barrou uma licitação que englobaria em torno de 150 quilômetros de corredores.

O órgão de contas contestou a metodologia da licitação que seria única.

A licitação foi desmembrada, mas alguns projetos de corredores continuaram com problemas sendo apontados pelo TCM e TCU – Tribunal de Contas da União.

Estes espaços permitem que menos ônibus consigam fazer um maior número de viagens mais rápidas, o que também ajuda a reduzir os gastos operacionais.

Um estudo de 2012, encomendado pela prefeitura de São Paulo, já apontava na ocasião que a cidade, além da ampliação da rede de trilhos (metrô e trens pesados de alta demanda) e de espaços prioritários para ônibus.

Entre o modelo mais adequado de estrutura está o de BRT – Bus Rapid Transit, que possui mais elementos que um corredor de ônibus comum, como pontos de ultrapassagem entre os coletivos permitindo linhas expressas, semi-expressas e paradoras e estações em vez de pontos comuns. Estas estações devem oferecer abrigo total aos passageiros, pré-embarque (pagamento da tarifa fora do ônibus, dispensando a catraca dos veículos), acessibilidade com plataformas ou guias na mesma altura do assoalho dos ônibus dispensando a necessidade de uso dos degraus dos veículos e sistemas de informações, como painéis com a previsão de horários dos ônibus.

Estes estudos apontam que sistemas de BRT conseguem incorporar aos ônibus conceitos de metrô, guardadas as proporções.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. SERGIO HENRIQUE disse:

    Parabéns ao MP pela investigação do desvio do valor para o Autódromo

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