OPINIÃO: Transportes: investir também é cuidar do que já existe

Publicado em: 8 de julho de 2019

Sistema de ônibus de Curitiba. Exemplo para o mundo, mas que precisa ser modernizado. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte) – Clique para Ampliar)

Novos Corredores de ônibus, metrôs e linhas de trem são maravilhosos. Mas manutenção e modernização de atuais serviços são fundamentais para que a população seja atendida como merece

ADAMO BAZANI

Inauguração de obras é bom para todo mundo: para a população que passa a contar com um equipamento ou serviço novo, para a economia porque sempre há uma movimentação de diversos setores como da construção civil e de máquinas, e, claro, para os gestores que acabam acumulando ganhos políticos.

Com uma sociedade carente do básico, quanto mais for ampliada a oferta de saúde, educação, estruturas de segurança e, claro, transportes, melhor será.

Ocorre que tão importante quanto inaugurar, é manter e modernizar o que já existe.

Talvez não tenha o impacto midiático quanto “cortar uma fita”, mas é do que de fato, a população precisa.

Na semana retrasada, a convite da montadora de ônibus Volvo, de Curitiba, estivemos em Bogotá, na Colômbia. A empresa foi uma das vencedoras de uma licitação para renovação de frota do sistema Transmilenio, considerado um dos melhores sistemas de BRTs – Bus Rapid Transit do mundo, fornecendo 700 veículos entre articulados e biarticulados.

É importante lembrar que BRT não é um “simples corredor de ônibus”, incorporando características a mais, como pontos de ultrapassagens entre os coletivos e estações em vez de pontos de ônibus, todas dotadas de pré-embarque (pagamento de passagem antes do embarque no ônibus), acessibilidade (com o piso no mesmo nível do assoalho dos ônibus) e informação ao passageiro.

Apesar de em alguns pontos apresentar sinais saturação, o Transmilenio de Bogotá, que em 125 km atende em torno de 2,5 milhões de pessoas por dia, possui estações amplas e conseguiu organizar diversas regiões de Bogotá, reduzindo os acidentes de trânsito e incorporando em seu trajeto ciclovias e bicicletários (são 5.620 vagas gratuitas de bicicletas, segundo o governo local).

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/07/01/especial-com-video-brt-transmilenio-de-bogota-a-transformacao-das-cidades-pelo-transporte-publico/

O Transmilenio teve como grande inspiração o sistema de BRT de Curitiba, pioneiro no País, considerado ainda referência em transportes, seguida por diversas partes do mundo.

Mas a estrutura atual do BRT curitibano precisa e muito melhorar, com a requalificação das apertadas estações e das vias já em operação, a fim de atender com mais qualidade ainda a demanda de passageiros.

Para que o transporte público seja atrativo de fato, não pode parar no tempo. É necessário que haja atualizações na forma de atendimento, no material rodante e na infraestrutura.

Uma das características do BRT é ser uma solução viável, de baixo custo, fácil implantação, boa capacidade de atendimento e que, assim, respeite os cofres públicos: o dinheiro suado do povo.

Desta forma, pensar em mais corredores, para atender a áreas cada vez distantes e a mais pessoas, é essencial, mas modernizar e qualificar a atual estrutura, melhorando o que já existe, é tão importante quanto novas obras.

O mesmo ocorre com o sistema de trilhos. Inaugurar linhas novas é essencial, principalmente em regiões metropolitanas, como de São Paulo. A demanda é muito grande e carece de mais oferta.

Mas melhorar a rede atual é fundamental para que as pessoas encontrem a qualidade que merecem.

Exemplo é a CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Ao assumir as linhas que eram da CBTU – Companhia Brasileira de Transportes Urbanos e da Fepasa – Ferrovias Paulista S.A., a CPTM conferiu à rede de trilhos da Grande São Paulo um inegável ganho de qualidade. Mas ainda longe do que a população precisa e merece.

Além da inauguração de novas linhas de trilhos, a região metropolitana tem anecessidade de investimentos e modernização no que já existe, em especial na CPTM. E isso vai além de troca de trens, que também é importante. Reformulação das estações transformando-as em acessíveis e agradáveis, integração do centro de controle operacional da CPTM com o centro do Metrô, comunicação visual melhorada para os passageiros, sistema de controle que permita mais trens e menores intervalos nas linhas, mais segurança em trens e estações (com o combate e prevenção ao assédio sexual, comércio ambulante e roubos) são algumas das ações que o passageiro espera de forma efetiva e que são muito mais “baratas” e eficientes que as necessárias novas linhas.

O governador João Doria promete tudo isso até o final do primeiro mandato.

Tudo começa por um novo conceito de gestão, que é o que anunciou o atual presidente da CPTM, Pedro Moro, com ações como melhor gerenciamento e aplicação dos recursos financeiros, materiais e mão de obra já existentes, além da maior proximidade dos gestores da companhia no dia a dia da operação.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/04/08/cptm-anuncia-mudanca-na-forma-de-gestao-e-diz-que-vai-capacitar-funcionarios-para-fiscalizar-contratos/

Outro caso de sucesso em transportes, mas já que precisa ser modernizado e receber mais investimentos, em especial do poder público, é o Corredor Metropolitano ABD de ônibus e trólebus.

O corredor liga São Mateus, na zona Leste de São Paulo, ao Jabaquara, na zona Sul, passando por municípios do ABC Paulista em 33 km: Mauá (terminal Sônia Maria), Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema. Há também uma extensão mais simples de 12 km entre Diadema e o Brooklin (zona Sul de São Paulo).

De acordo com a ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, entidade que reúne técnicos e especialistas, e com a gerenciadora do sistema EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, do Governo do Estado de São Paulo, o índice de satisfação dos passageiros com o corredor ABD é alto, quase de 90%, superando a satisfação com o Metrô de São Paulo.

Mas o trecho principal do corredor foi inaugurado em 1988 e, desde então, pouca coisa mudou uma infraestrutura. A maior parte das paradas ainda é da época em que se embarcava por trás nos trólebus, não há pontos de ultrapassagem entre os ônibus (apesar de em alguns poucos locais poderem ser implantados) e os ônibus não têm exclusividade em toda a extensão, tendo de dividir espaço com os carros e ficando presos em congestionamentos, como no Paço Municipal de São Bernardo do Campo e entre o Terminal Santo André Oeste e a Avenida Ramiro Colleoni.

Um sistema não se satura (embora que este termo virou moda e é bastante contestável) por ser ônibus ou trilhos, mas pela atualização que nem sempre é na mesma velocidade que o crescimento das necessidades das pessoas.

O transporte reflete a realidade das mudanças econômicas, sociais e culturais. Por isso, os investimentos devem ser para que os atuais serviços acompanhem e ajudem estas transformações.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Comentários

  1. Falando aqui da minha linha ABD, muita coisa mudou sim, inclusive na preocupação em minimizar o ar mais poluido da região, com implantação de vegetação ao longo da linha. Sobre ultrapassagem não é tão necessário ja que as linhas se destinam ao mesmo local. Os pontos é fixo e de acabamento em concreto a cobertura que se mantem sem nenhum deterioração. Acontece que quando muda-se a administração municipal, ou estadual é pouca a intervenção daqueles que não estiveram em seu inicio..A CPTM tem muito a fazer, inclusive as obras cotidianas como a capinação ao longo de várias linhas, assim como o mais difícil será trocar todos postes super antigos em mais de 150 kms. Se não fosse a ganancia de governos dos estado em alimentar as construtoras com mais e mais obras que nunca se findam, tenho a certeza que tudo seria ao menos 90 por cento conservados e modernizados. Desde a Era Quércia venho acompanhando essa saga das empreiteiras como Andrade Gutierrez, Camargo Correia e Odebrecht, OAS…(Revista Veja 1986)

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