HISTÓRIA: Sérgio Pavani, da Tupi: um desbravador que ajudou o desenvolvimento da cidade de São Paulo

Com roupas mais claras, à frente do microfone, Sérgio Pavani, fundador da Tupi. Acervo: Marcos Prestes. Reportagem: Adamo Bazani – Diário do Transporte – MANTENHA TODOS OS CRÉDITOS.

Diário do Transporte faz um singelo registro do pioneiro da Tupi Transportes, uma das empresas mais antigas da cidade que foi comprada pela MobiBrasil

ADAMO BAZANI

Na última semana que antecede à licitação dos transportes de São Paulo, cujos envelopes com as propostas devem ser entregues no dia 23 de janeiro de 2019 (se não houver nenhum outro entrave), o setor foi marcado por várias notícias de rearranjo de mercado entre as empresas de ônibus.

Diversos novos nomes de companhias surgiram, mas todos ligados às viações que já a operam, e a MobiBrasil, da empresária Niege Chaves, comprou a Tupi Transportes Urbanos, uma das empresas de ônibus mais antigas da cidade, com cerca de 60 anos de atuação na zona Sul cidade.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Transporte, Niege disse que vai investir na melhoria dos serviços e que vai respeitar e manter a história da empresa e aprender com a experiência de seus profissionais, que serão mantidos.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/01/17/mobibrasil-compra-tupi-transportes-e-novos-nomes-aparecem-para-empresas-de-onibus-no-periodo-pre-licitacao/

Passageiros, motoristas, cobradores, fiscais, pessoal da manutenção, da instrução, das áreas administrativas fizeram com que a Tupi ajudasse a cidade a se desenvolver pelos transportes.

Capitaneava todo este grupo, o pioneiro da empresa, Sérgio Pavani, que faleceu em outubro de 2014.

A Tupi Transportes Urbanos Piratininga Ltda. foi fundada em 1960 e começou as operações com apenas três ônibus em uma acanhada garagem na esquina da Avenida Jabaquara com Avenida Indianópolis.

Pelas janelas dos ônibus da Tupi, na viagem pela história, foi possível ver que a cidade de São Paulo era predestinada ao crescimento. Os ônibus da Tupi passaram por estreitas ruas de terra que depois de tornaram grandes avenidas, começou a servir parques, conjuntos habitacionais e se tornou uma das primeiras empresas a se integrar com o “novato” Metrô na cidade, que começou as operações na linha 1-Azul, de forma gradativa entre 1974 e 1978.

As “rodas da Tupi” também ligaram as pessoas que moravam mais afastadas aos locais de geração de emprego e renda como a mais paulista das avenidas, a Avenida Paulista.

A companhia foi crescendo juntamente com o avanço do desenvolvimento urbano da capital paulista. Em 1978, segundo o relato histórico do portal da empresa, a Tupi comprou duas empresas da zona Sul: Viação Senhor do Bonfim e Viação Cidade Leonor.

Sergio Pavani tem em sua memória ótimas referências por parte de amigos e colegas do setor.

A foto de abertura desta matéria faz parte do acervo do diretor da Vip Transportes Urbanos, Marcos Prestes, que cedeu o material ao Diário do Transporte e fez questão de destacar uma das características de Pavani: o companheirismo.

“Posso dizer que ele foi um batalhador, estava sempre disposto a bater na porta do prefeito para dar sugestões para melhorar os transportes, a qualquer hora. Sempre pensou na categoria, nunca deixou um colega ser prejudicado.” – relembra Marcos Prestes ao repórter Adamo Bazani.

Na época da foto, anos 1990, quando o sistema recebeu uma nova modelagem com interferência maior do poder Público, com a chamada “municipalização” , era a gestão de Luíza Erundina frente à prefeitura.

Marcos Prestes (de bigode) está ao lado de Pavani na foto tirada por um jornal paulistana, ao qual ele não se recorda.

Prestes representava, no encontro com autoridades da prefeitura, a Viação São José.

O empresário José Sérgio Pavani, recebeu uma homenagem na categoria “In Memorian” da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, que representa mais de 500 viações em todo o país, em 2016.

DE PAI PARA FILHOS:

Paulo Pavani, filho de Sérgio, em entrevista ao repórter Adamo Bazani, do Diário do Transporte, em 29 de janeiro de 2018.

Em 29 de janeiro de 2018, durante a entrega de uma frota nova de ônibus articulados Caio Millennium IV, Mercedes-Benz O500  UA, Paulo Pavani, filho de Sérgio , à frente da Tupi, contou um pouco da história da trajetória da empresa:

HISTÓRIA:

Na entrevista, Paulo Pavani contou um pouco da história da Tupi, que remete a 1960.

Em seu início, a empresa tinha apenas três ônibus.

O crescimento começou a vir na mesma década com as necessidades cada vez maiores da população em se deslocar na cidade. Um dos marcos deste crescimento foi, ainda nos anos 1960, a fusão com a Viação Cidade Leonor.

“Operamos linhas tradicionais na Zona Sul que acompanharam o desenvolvimento e as mudanças da cidade. Um exemplo é uma linha da Avenida Paulista, antes de ter Metrô, a linha do Aeroporto. Veio o Metrô e disseram na época que as linhas da Paulista iam ‘morrer’ e hoje várias linhas continuam atendendo o usuário, sendo alimentadoras do sistema de trilhos, sendo alternativas em caso de falhas operacionais do metrô. A Tupi tem no seu DNA transportar passageiros” – lembrou Pavani

O empresário, da segunda geração da família frente à gestão da companhia, conta que de sua juventude no setor se recorda de dois modelos de ônibus, o Caio Amélia, apelidado de Amelinha, e o Monobloco O-364 Urbano, da Mercedes-Benz. Pavani conta ainda que tem saudades da época que casa empresa tinha sua identidade visual.

“Eu lembro da época romântica que as frotas tinham suas pinturas próprias. Eu entendo até mesmo a razão de não existir mais, mas eu sinto falta. A identidade do operador, da empresa de ônibus. A gente às vezes não é percebido como empresa em função da dinâmica das cores da frota.”- conta.

Monobloco O-364 Mercedes-Benz, já com a pintura “saia e blusa”, implantada a partir de 1978

A padronização de pinturas de ônibus na cidade de São Paulo começou em 1978, com a reorganização do sistema na gestão do então prefeito Olavo Setúbal. Era o chamado “saia e blusa”. A saia, correspondente à parte de baixo da lataria, na altura das rodas, recebia uma cor referente a cada região operacional. No caso das áreas da zona Sul atendidas pela Tupi e outras empresas, a cor designada foi azul clara. A blusa, que era a parte acima das rodas até o teto, poderia ser escolhida pelas empresas.  Muitas se consorciaram e para manter uma organização de cores, o padrão visual das “blusas” chegava ser combinado entre algumas viações.

No dia 25 de julho de 1991, após a aprovação pela Câmara em maio do mesmo ano, a prefeita Luíza Erundina assinou a lei 11.037,que reorganizou o sistema e a forma de remuneração das companhias passou a ser por serviço prestado e não por passageiro transportado. Por causa da maior interferência do poder público na gestão e operação do sistema (à época pela CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos), o modelo foi chamado de “municipalização”.

Na ocasião, novas cores: Toda a frota passou a ser branca com uma faixa vermelha. Havia no meio da faixa a letra “M”, que remetia popularmente à municipalização. A cor desta letra mudava de acordo com as regiões, mas em geral, com algumas mudanças, as cores regionais da época de Olavo Setúbal foram mantidas.  Quando Paulo Maluf assumiu a prefeitura, em 1993, manteve o mesmo padrão visual da cor branca com faixa vermelha, mas a letra “M” foi retirada porque o modelo de “municipalização” tinha sido descontinuado. Maluf privatizou entre 1993 e 1994 a CMTC. Em 8 de março de1995, para a gestão do sistema, foi criada a SPTrans – São Paulo Transporte.

Pintura adotada a partir de 1991, mas já sem a letra “M” no meio da faixa vermelha

Em 2003, após licitação, na gestão Marta Suplicy, houve nova organização do sistema de transportes de São Paulo e a pintura mudou de novo. As cores ainda eram basicamente as mesmas de Olavo Setúbal, do ano de 1978, com algumas reorganizações e criações de lotes. A parte da frente do ônibus recebia a cor de cada região e o restante da lataria era branca, com uma faixa mais fina se estendendo até a traseira do ônibus, onde a cor da região atendida voltava a ser predominante na lataria. Na época, as lotações foram regulamentas e o padrão visual era semelhante, mas na frente e atrás, metade era da cor da região e a outra metade branca. O padrão indicava que se tratava de um veículo de cooperativa.

A partir da gestão de Marta Suplicy, com novo modelo de transportes de 2003, a frente dos ônibus era pintada, de acordo com a área atendida, mas ainda seguindo lógica semelhante à gestão de Olavo Setúbal, em 1978

Já os veículos de cooperativas tinham o mesmo padrão, mas a cor de cada região só ocupava metade da frente e da traseira, como neste ônibus da Cooperauhton.

Entre 2014 e 2015, mesmo sem a licitação realizada, a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad faz outra alteração nas pinturas. O design continuava o mesmo, mas a parte branca passaria a ser prata nos ônibus que chegavam zero quilômetro.

Os ônibus articulados, superarticulados e biarticulados, além de alguns trólebus, foram pintados todos de prata, para indicar que eram veículos de linhas troncais e lembrarem visualmente do Metrô.

A partir de 2014/2015, ainda na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, todos os ônibus zero quilômetro passaram a vir com a cor prata e a cor das regiões. O novo sistema de identificação de ônibus novos continuou no início da gestão do prefeito João Doria.

Ônibus articulados, superarticulados e biarticulados zero quilômetro, desde 2015, passaram a ser de cor prata inteiramente.

Mas antes de todas estas padronizações, as empresas escolhiam suas pinturas integralmente.

E Paulo Pavani se lembra das cores da Tupi.

“Teve um momento que a [empresa de ônibus] Paratodos operava com a Tupi, se não me falha a memória, era o lote 18 da cidade, era o mesmo azul de hoje, só que a parte de cima era creme-marrom. A cor original da Tupi era como os ônibus Cometa, aquele cromado [lataria polida] com faixas vermelhas, depois a parte polida foi branca. A Tupi tem Piratininga em seu nome, Piratininga se refere à cidade de São Paulo, que tem a cor vermelha em sua bandeira. A primeira pintura tinha vermelho, branco e preto.” – relembra.

Ônibus da Tupi em suas primeiras pinturas, antes da padronização de 1978, de Olavo Setúbal

OUÇA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

entrevista-paulo-pavani

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

8 comentários em HISTÓRIA: Sérgio Pavani, da Tupi: um desbravador que ajudou o desenvolvimento da cidade de São Paulo

  1. WILLIAM DE JESUS SANTOS // 20 de janeiro de 2019 às 11:14 // Responder

    Com certeza a Tupi fará muita falta. Nunca me esqueço quando ela tinha os Alpha OF-1721, sempre muito bem cuidados. Aliás ela cuidava tão bem da frota que até os ex-RJ eram bem conservados. É que ironia do destino: tanto Paratodos como ela foram comprados pela Mobibrasil. Mais um ciclo bonito que se encerra.

    Sobre o que a Dona Niege disse, duvido que ela irá manter o mesmo padrao de excelencia que a Tupi tentava manter. A Paratodos tinha uma das frotas mais bem cuidadas da cidade e isso não foi respeitado

    • William de Jesus Santos, boa tarde.

      Muito bem observado:

      1) “Mais um ciclo bonito que se encerra.”

      2) “duvido que ela irá manter o mesmo padrão de excelência que a Tupi”

      Complemento com outro exemplo de padrão de excelência; os buzões da Viação Gato Preto, quando dirigida pelo seu fundador Sr. Luiz Gatti.

      Monoblocos MBB, com rodas pintadas em duas cores, catraca Capelinha cromada e buzões limpos.

      Lembro até hoje de uma matéria publicada na Folha ou no Estadão intitulada:

      “OS ASSEADOS ÔNIBUS DA VIAÇÃO GATO PRETO”

      Tudo muda, mas nem sempre pra melhor.

      Vamos ver o que nos aguarda, lembrando:

      “PELA OBRA SE CONHECE O AUTOR”

      A marca identifica a empresa, mas o seu trabalho “fala” ao mercado como ele é realizado.

      Att,

      Paulo Gil

  2. Parece estranho, mas no maior mercado do país, a empresas atuam apenas localmente, e são presas fácies para empresas de fora, mesmo de mercados muito menores !

  3. OLÁ ADAMO

    Qualquer história dos desbravadores do transporte por ônibus em SP passará pelas intervenções dos meados dos Anos 30, final dos 40, final dos 70, meados dos 90 e meados dos 2010.

    Tais intervenções, em todos os casos, serviram para dar fim a competentes empresas e não melhoraram significativamente os sistemas como um todo.

    Pelo contrário, tiveram a capacidade de fazer aumentar a frota circulante de automóveis, motos e carros de aluguel, em face das inúmeras baldeações e dificuldades criadas mais para prejudicar do que para auxiliar a população.

    Deu no que deu! Todos os stakeholders eternamente insatisfeitos.

    É só consultar os livros de história do transporte e as mídias escrita e falada em suas inúmeras reportagens.

    Saudações,

    MARIO CUSTÓDIO

  4. Me lembro quando era criança que minha mãe andava comigo de TUPI na linha Fonte Sao Bento nos saudosos Gabriela eeeeeita saudades! E a MOBI BRASIL jamais oferecerá um serviço tão bom. Triste fim

  5. Meus cumprimentos, vejo muito se falar quando uma empresa é repassada para outra, que os padrões não serão mais conservados, mas uma coisa; troca-se o dono mas os funcionários, na maioria das vezes são os mesmos, quem faz com que a dedicação e manutenção seja preservada são os próprios funcionários, se um empresário se interessou a comprar uma outra empresa, com certeza ele já teve informações sobre esta, então cabe aos funcionários a manter a qualidade do serviço.
    Não é possível que um empresário compre uma empresa com excelência de qualidade e queira que isso vá para o ralo.

    Um grande abraço a todos!

    • Infelizmente Sr. Dirceu, temos uns pontos a levantar, hoje acontece que muitos “empresários” ao adquirir outras empresas não levam em conta só porque são boas, e sim por expansão territorial, e claro os lucros, sempre os lucros. Porém nesta empreitada, os funcionários passam a ser apenas marionetes, das quais dançam a musica que toca. Em poucas palavras, quando boas empresas caem em declínio após serem compradas, não devemos nunca culpar seus trabalhadores e sim quem está na gestão. São os cortes exagerados, visando lucros astronômicos que matam as qualidades. Também não podemos deixar de lembrar que alguns casos também são devido a essas mudanças políticas que muitas vezes para mostrar serviço, mexem no que funciona, e onde o que era lucrativo passa a ser prejuízo.

      Grande Abraço

  6. Edson Moreira dos Santos // 30 de janeiro de 2019 às 23:37 // Responder

    Na verdade antes do lote 18 a Tupi começava o lote com o numeral 42 e cada empresa tinha o seu número aleatoriamente se é que eu percebi. A São Luiz 39, a Jurema 15 e etc.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: