Ideia que flexibiliza uso do Vale-Transporte vence Hackatona e grupo recebe US$ 10 mil para incubação

Publicado em: 3 de dezembro de 2018

Vencedores da HackAmericas 2018 com presidente da EMTU, Theodoro de Almeida Pupo Junior. Foto: Adamo Bazani/Diário do Transporte (Clique para Ampliar)

Projetos mostram que jovens e estudantes assimilaram ideias de aplicativos de transporte individual como integrantes de solução para mobilidade

ADAMO BAZANI

Os aplicativos de transporte individual parecem ter caído no gosto de jovens e estudantes, não só porque são um dos públicos que acabam usando frequentemente este tipo de serviço, mas por entenderem que estes modais podem ser uma das soluções para os deslocamentos nas cidades.

No 1º Y4PT Continental Transport Hackathon Américas 2018 (HACKAMERICAS 2018), uma hackatona para reunir projetos de tecnologia voltados para a mobilidade, os aplicativos foram destaque nas ideias apresentadas por alguns grupos participantes.

O evento ocorreu entre os dias 30 de novembro e 1º de dezembro na Universidade Presbiteriana Mackenzie, na capital paulista.

A proposta vencedora ganhou 10 mil dólares para a incubação da solução encontrada entre os desafios propostos e concorrerá a uma vaga para participar da 3ª Hackathon Global de Transporte – Y4PT Estocolmo 2019, na Suécia.

O projeto vencedor, escolhido por um júri formado por especialistas e profissionais na área de mobilidade, propõe flexibilizar o uso dos créditos do VT – Vale Transporte fornecido pelos empregadores aos funcionários.

De acordo com Carolina Araújo Torres, uma das integrantes do grupo vencedor, a carteira digital proposta pelo projeto receberia estes créditos do VT e os passageiros poderiam usá-los no meio de transporte que quisessem.

“A empresa [empregadora] iria depositar o Vale-Transporte na nossa carteira digital e o usuário conseguiria administrar isso em corridas da 99 [empresa de aplicativo], Yellow [de compartilhamento de bicicleta] ou o próprio transporte público mesmo.” – explicou.

OUÇA NA ÍNTEGRA:

Uma auditoria do TCM – Tribunal de Contas do Município de São Paulo, divulgada em julho deste ano, sobre a eficiência, os custos e o financiamento dos transportes, com base nos dados consolidados da SPTrans, gerenciadora do sistema de ônibus da capital paulista [que possui integração com o Metrô e os trens da CPTM], revelou que o VT é a segunda maior fonte de recursos para os transportes públicos na capital paulista.

Ademais, a participação relativa dos passageiros transportados, em 2017, no total do Sistema é: dinheiro, 5,6%; bilhete comum, 37%; vale transporte, 30,6%; estudante 1,6%; e gratuidades 25,2%. Observa-se que a participação dos passageiros pagantes está diminuindo em relação ao total de passageiros transportados, em sentido contrário ao aumento de gratuidades (estudantes, idosos e deficientes físicos), segundo o RAF. Em 2012, a participação relativa dos pagantes era de 57,8%, passando a 48,5%, em 2017, e contribuindo para o aumento dos déficits do Sistema de Transporte, que, em 2017, foi de R$ 3,3 bilhões.”

Veja a matéria completa sobre o diagnóstico da auditoria do TCM neste link:

https://diariodotransporte.com.br/2018/07/17/especial-auditoria-do-tcm-aponta-diversas-falhas-na-politica-de-transportes-da-prefeitura-em-sao-paulo/

As passagens pagas no sistema de transportes públicos acabam criando uma espécie de subsídio cruzado. As viagens mais curtas, que têm menos custos de operação, acabam bancando as viagens mais longas que, muitas vezes são deficitária economicamente, mas indispensáveis do ponto de vista social.

Caso não fosse essa política, por exemplo, uma viagem de ônibus urbano entre o Pacaembu e a Avenida Paulista, que são próximos, teria um custo baixo. Mas, em compensação, um trajeto entre Cidade Tiradentes, no extremo leste, e a mesma Avenida Paulista, teria uma tarifa de ônibus muito mais alta que a atual.

Isso sem contar que em cidades onde não existem as complementações tarifárias (subsídios do poder público) é o passageiro pagante, como o que usa dinheiro, bilhete comum ou vale-transporte, que acaba bancando as gratuidades, como para idosos e estudantes.

Outros projetos na hackatona também consideravam a ideia de ampliação do uso dos aplicativos de transporte individual.

Uma delas propõe disponibilizar a passageiros de regiões onde há ônibus quebrados a possibilidade de chamarem “parceiros” da plataforma tecnológica, ou seja, motoristas de aplicativos por preços menores que se fizessem um chamado convencional de corrida. Os passageiros dos ônibus quebrados é que gerariam as informações, que também poderiam se transformar em um banco de dados para o gerenciador público sobre linhas e empresas com as frotas que mais quebram.

Outro projeto consistia em considerar as necessidades e hábitos de cada pessoa e direcioná-la a opções de transportes possíveis para os deslocamentos diários, levando em conta o tempo de trajeto por exemplo. Os aplicativos aparecem entre estas opções. A diferença das atuais ferramentas que fazem hoje as comparações é ter uma abordagem individualizada de cada usuário.

Houve propostas também em relação ao desenvolvimento de um aplicativo que mostra as rotas mais acessíveis em calçadas e estações e terminais; ao uso de crédito de carbono para quem deixa o carro em casa; trajetos culturais de bicicleta; aluguéis de bicicleta por pessoas físicas e a criação de serviços de aplicativo com micro-ônibus que ligariam bairros afastados até estações metroferroviárias ou terminais de ônibus, proposta que guarda semelhanças nos trajetos do subsistema local de distribuição da licitação dos transportes da cidade de São Paulo.

Ao todo, a hackatona teve 118 inscritos e projetos de 14 grupos que viraram mais de 30 horas, com supervisão de monitores que atuam na área de transportes.

O evento foi uma iniciativa do Youth For Public Transport Foundation (Y4PT), instituição vinculada à União Internacional de Transporte Público (UITP), e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A realização é da EMTU/SP, por meio de seu laboratório de inovação, o ELAB-Experimentos em Transportes, Universidade Presbiteriana Mackenzie e a Scipopulis, com patrocínio do Metrô de São Paulo; apoio técnico do Núcleo de Inovação da Secretaria de Governo do Estado de São Paulo; e apoio institucional da CPTM e da Artesp.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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