Santos vai receber três carros (vagões) históricos da SPR para visitação e preservação da memória do transporte ferroviário

Um dos carros (vagões) restaurados que serão expostos no Litoral Paulista. Foto: Divulgação Prefeitura de Santos/Texto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)/Clique para Ampliar

Um dos carros chegou a transportar presidentes da República e outras autoridades nacionais e internacionais. Ônibus também atraíam “público Vip”

ADAMO BAZANI

Os mais jovens talvez nem consigam imaginar, mas em uma época, presidentes, governadores, prefeitos, artistas, esportistas e grandes empresários andavam de ônibus e trem como todos os demais cidadãos.

Até os anos 1950 e 1960, os carros (vagões) de madeira ou aço de ferrovias como a Santos-Jundiaí e os charmosos ônibus, como os norte-americanos importados GMs da Viação Cometa, eram verdadeiros “veículos de diplomatas”.

Os trens tinham categorias diferentes. Havia carros (vagões) que eram quase mansões sobre trilhos, com suas toaletes dotadas de peças de ouro, camas confortáveis, sala de estar, serviço de bordo, restaurantes e lustres que pareciam os adornos das entradas de salas de espetáculos.

Havia até mesmo amplas salas de estar em algumas composições. Foto: Divulgação Prefeitura de Santos/Texto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)

Um pouquinho desta época poderá ser revivido a partir de dezembro em Santos, no Litoral Paulista.

A cidade vai receber do DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes três carros (vagões) que pertenceram à SPR – São Paulo Railway, a empresa inglesa que construiu, inaugurou em 1867 e foi concessionária da linha Santos – Jundiaí até 1946.

As três peças estão guardadas atualmente em um armazém na Lapa, zona Oeste da capital paulista.

Trens de luxo também tinham bares e restaurantes. Foto: Divulgação Prefeitura de Santos/Texto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)

Segundo a prefeitura de Santos, os carros (vagões) serão expostos a partir de dezembro, no armazém 12A (garagem dos bondes), ao lado da Estação do Valongo. A intenção da Secretaria de Turismo (Setur) é realizar, por exemplo, visitas monitoradas, que vão contar um pouco da história dos transportes ferroviários.

Em nota, a prefeitura diz que estes carros (vagões) já transportaram presidentes e outras autoridades nacionais e internacionais. Um dos veículos também foi usado por engenheiros da ferrovia para fazer as inspeções na linha.

“Restaurados e em bom estado, os vagões serão doados à Prefeitura sem qualquer custo. De 1909, o mais luxuoso é chamado de vagão Presidencial porque era usado para viagens inaugurais e com autoridades, tanto que transportou ex-mandatários do País como Getúlio Vargas, Afonso Pena e Washington Luís. Possui 16 poltronas estofadas e banheiro. O carro Administrativo, de 1913, era utilizado em viagens de inspeção por técnicos e engenheiros ferroviários. Possui uma cauda panorâmica (de vidro) e capacidade para 23 pessoas. Já o vagão Buffet Pullman (1922) foi usado pela São Paulo Railway até 1947, inclusive nas viagens regulares entre Santos e a Capital. Com capacidade para 14 pessoas, tem cozinha com bar e banheiro”. – explica a nota.

Carro de inspeção levava técnicos e engenheiros. Parte de trás permitia uma visão ampla da linha a ser verificada. Foto: Divulgação Prefeitura de Santos/Texto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)

A transferência da Lapa para Santos vai exigir uma verdadeira operação que vai contar com técnicos e engenheiros.

Os carros irão pelos trilhos das linhas da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e, na fase mais difícil do transporte, descerão a Serra do Mar por Paranapiacaba, revivendo parte do trajeto que faziam regularmente.

O diretor do DNIT, Charles Magno, disse na nota que as peças são relíquias da história dos transportes.

“São relíquias importantes para o Brasil. Estamos felizes de doar para uma cidade histórica como Santos” – comentou.

O encontro entre o executivo do DNIT e o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, ocorreu na última terça-feira, 13 de novembro de 2018.

O chefe do executivo prometeu que os carros (vagões) já serão atrações para os turistas neste Verão e elogia as peças.

“São um marco histórico. Com certeza, serão muito bem cuidados na nossa cidade”.   – comentou.

NAS ESTRADAS:

Rodomoça em ônibus da Empresa Unica na linha Rio-São Paulo, nos anos 1960

O luxo também trafegava pelas rodovias brasileiras.

Com poltronas confortáveis que quase viravam uma cama, banheiros mais amplos, ar-condicionado e até serviços de rodomoça (como as aeromoças), os ônibus também atraíam o que hoje se chamaria de “público Vip”.

Também até os anos 1970, a Viação Cometa tinha serviços de rodomoça e fazia questão de enfatizar o diferencial, principalmente na ligação Rio-São Paulo

Na rota Rio São Paulo, até os anos 1960 e 1970, por exemplo, se destacavam empresas como Expresso Brasileiro, com os Diplomata (Flxilble – importados dos Estados Unidos); Única com os Caio Gaivota e Viação Cometa, inaugurando a rodovia Presidente Dutra, em 1951, com os norte-americanos Twin Coach, com os lendários Morubixabas (GM PD 4104, a partir de 1954, também dos EUA), Ciferal Turbo Jumbo e Ciferal Dinossauro.

Diferentemente dos trens, que tinham seus carros de luxo separados, quando os ônibus eram de linha regular, deixavam nestas épocas pessoas de destaque social e as mais simples lado a lado mostrando que acima de tudo o transporte coletivo poder ser democrático e igualitário.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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