Na Inglaterra, efeitos da poluição do diesel sobre as crianças têm levado famílias a mudar escola dos filhos

Publicado em: 18 de novembro de 2018

Estudo em Londres descobriu que a capacidade dos pulmões das crianças foi reduzida em cerca de 5% quando a poluição estava acima dos níveis legais. Foto: Alicia Canter / The Guardian

Ar limpo passou a ser fator importante na hora de fazer a matrícula dos filhos. Há pais que pensam em deixar áreas urbanas para evitar problemas de saúde

ALEXANDRE PELEGI

Matéria deste domingo, dia 18 de novembro de 2018, do jornal inglês The Guardian, relata que um número cada vez maior de pais está evitando matricular seus filhos em boas escolas por causa da qualidade do ar local, enquanto outros, mais radicais, estão procurando deixar de vez as áreas urbanas onde residem. Essa reação, segundo o jornal, se deve ao aumento dos temores sobre os efeitos das emissões do diesel sobre a saúde.

Na semana passada, relembra o Guardian, um importante estudo publicado pela revista científica Lancet revelou que a poluição causada por veículos a diesel estava diminuindo o crescimento dos pulmões das crianças, deixando-os danificados para o resto da vida.

A pesquisa, realizada com mais de 2.000 crianças em idade escolar em Londres, é o primeiro estudo desse tipo em uma cidade onde a poluição por diesel é um fator significativo, e tem implicações para cidades do mundo todo. Ele também mostrou que as recentes restrições para impedir a entrada de caminhões poluidores na cidade reduziram um pouco a poluição do ar, mas não reduziram os danos aos pulmões das crianças.

Em entrevista ao jornal inglês, Sarah Macfadyen, diretora de política e assuntos públicos da British Lung Foundation, Ong britânica que promove a saúde dos pulmões e apoia as pessoas afetadas por doenças pulmonares, afirmou: “Descobriu-se que as crianças perderam cerca de 5% de sua capacidade pulmonar”. Junto com o grupo ambientalista Client Earth, ela criou a Clean Air Parents ‘Network (em tradução livre, “Rede de Pais por ar limpo”), um grupo que cobra ações dos políticos para melhorar a qualidade do ar nos distritos e cidades da Inglaterra.

A matéria cita uma profusão de dados emergentes, incluindo discussões em fóruns online, pesquisas com pais e dados produzidos por Ongs ambientalistas, como uma demonstração de que as preocupações entre os pais estão se tornando tão comuns que muitos consideram a poluição o principal fator na escolha de uma escola, enquanto um pequeno, mas crescente número, passou a evitar completamente os ambientes urbanos.

“É incrível que na Grã-Bretanha do século XXI os pais tenham que pensar em mudar com suas famílias para escapar do ar ilegalmente poluído que está prejudicando seus filhos“, disse Andrea Lee, ativista sênior da Client Earth. “Isso é o que acontece quando você tem um governo que não quer comprometer recursos e vontade política em enfrentar o que se tornou uma crise de saúde pública“.

No início deste ano, a Ong britânica Living Streets entregou um relatório ao ministro dos Transportes, Jesse Norman, pedindo uma ação urgente para melhorar o caminho das crianças até a escola. A Ong, que afirma que mais de 2.000 escolas primárias estão em pontos críticos de poluição, apresentou dados que mostraram que a poluição do ar é a principal preocupação de 10% dos pais ao escolher uma escola, e um fator decisivo para quase um em cada quatro.

A maioria das áreas urbanas do Reino Unido tem níveis ilegais de poluição por dióxido de nitrogênio (NO2). Recentemente o governo inglês sofreu três derrotas na justiça sobre a inadequação de seus planos de combate ao problema. O mais recente, que os advogados ambientais chamaram de “lamentável”, revelou que a poluição do ar era ainda pior do que se temia anteriormente.

Uma pesquisa de um portal de uma rede de mães e pais na Inglaterra, o Mumsnet, reforça a percepção de que os pais estão a cada dia mais conscientes, e temerosos, dos efeitos da poluição na saúde das crianças. Segundo o portal, muitos entrevistados se preocupam com o impacto da poluição do ar na saúde de seus filhos – mais da metade (54%) disse estar “bastante” ou “extremamente preocupado”. Esse índice salta para 66% dos pais que vivem em áreas urbanas e 80% dos pais que moram em Londres ou na Grande Londres. Pouco mais de um quarto (26%) dos pais em Londres/Grande Londres disseram que estavam “extremamente” preocupados.

Alguns pais estão tão preocupados com o impacto da poluição na saúde das crianças que consideraram mudar de casa por causa disso – destes, quase 4 em cada 10 (39%) moram em Londres/Grande Londres; 28% vivem em áreas urbanas e 17% de todos os entrevistados disseram que consideraram se mudar, informa o site Mumsnet.

Sarah Macfadyen, diretora de política e assuntos públicos da British Lung Foundation, reforça o que a pesquisa do Mumsnet identificou: um número cada vez maior de pais que moram em áreas urbanas está suficientemente preocupado com a questão para considerar a mudança de local de residência. Segundo ela, o que despertou a consciência dos ingleses sobre a questão da poluição do ar foi uma série de batalhas legais movidas contra o governo por este não enfrentar o problema devidamente.

Escândalos como os que envolveram a montadora Volkswagen (a fraude do diesel) também despertaram as pessoas para o problema ambiental – assim como o uso da tecnologia: os pais perspicazes agora usam aplicativos para ver onde estão as principais ruas poluídas da cidade, para que possam evitá-las na caminhada para a escola.

A poluição do ar é realmente uma área rica em informação”, disse Macfayden para o jornal The Guardian.

Agora sabemos com certeza que a poluição do ar é um fator causador do câncer de pulmão em pessoas com problemas pulmonares. Isso os coloca em maior risco de ataque. Novos estudos estão surgindo, ligando a poluição do ar a diferentes tipos de câncer, diabetes, Alzheimer e obesidade”, conclui.

Sobre o efeito da poluição sobre as crianças, leia:

Poluição mata 600 mil crianças por ano no mundo e no Brasil e transportes coletivos limpos podem ajudar a reverter o quadro, diz OMS

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Com informações do jornal The Guardian (UK)

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