DIA DO MOTORISTA: Profissional dos transportes deve se adequar aos avanços tecnológicos e às mudanças de comportamento da sociedade

Publicado em: 25 de julho de 2018

O instrutor Altair de Lima Mazur (de jaqueta preta e camisa verde) ao lado de motoristas da empresa Leblon, do Paraná. Foto: Arquivo pessoal

Informática e até conhecimento de outras línguas acabam sendo diferencias na carreira. Não basta mais saber operar um veículo grande. Instrutor fala dos desafios e oportunidades do mundo moderno para quem ganha a vida ao volante

ADAMO BAZANI/ALEXANDRE PELEGI

“Se o motorista só souber dirigir, não vai conseguir ficar mais na profissão. Ele tem de evoluir junto com a sociedade. E não falo só de tecnologia, mas de comportamento”
A frase é do instrutor de motoristas, Altair de Lima Mazur, profissional do volante há 38 anos e há 15 atuando no treinamento de condutores do transporte coletivo da região metropolitana de Curitiba.

Aliás, treinamento? O conceito já está ultrapassado!

“O treinamento não é mais suficiente para atender ao que a sociedade espera do motorista de ônibus. Hoje são necessárias atualizações e conscientizações do profissional e neste processo, todos têm de fazer sua parte: empresa e motorista” – explicou ao Diário do Transporte.

“As empresas, em suas capacitações, devem entender que o motorista já é um profissional. Ele sabe dirigir, o que ele precisa é ser atualizado sobre as evoluções do ponto de vista tecnológico e ser preparado para atender. Isso mesmo, o motorista é um profissional de atendimento. É o porta-voz da empresa para o passageiro, que hoje deve ser tratado como cliente. A pergunta é: você trataria mal seu freguês, seu cliente?”

Altair diz que há dois aspectos que para os profissionais devem estar atentos: aos avanços tecnológicos e às mudanças comportamentais.

Quanto à tecnologia, mais que as capacitações oferecidas pelas empresas e fabricantes, o que vale mesmo é o interesse do motorista e a humildade para aprender novas formas de condução, muitas vezes complemente opostas ao que o profissional praticou a vida toda.

“Um exemplo é o ônibus com câmbio. Trocar a marcha de um modelo atual é completamente diferente do que era antes, mesmo nos modelos mais simples. Muito mais que aprendizado, a questão é de hábito e mente aberta” – disse o instrutor.

Altair ainda comentou que os veículos, além de serem eletrônicos, possuem tecnologia embarcada e, noções de informática e até de outros idiomas, em especial o inglês, hoje são diferenciais.

Mas é o acompanhamento das mudanças comportamentais que mais exige das empresas e dos profissionais.

“Hoje a sociedade é outra e a evolução é mais rápida. Em um ano atualmente, as coisas mudam muito mais rapidamente que uma década no passado”

Um dos exemplos é que o profissional do transporte deve estar atento à legislação e não somente de trânsito.

Os direitos e deveres do passageiro, do motorista, relações de consumo, questões ambientais, noções de primeiros socorros, protocolos de ação diante de ocorrências, atitudes a tomar quando há um acidente envolvendo animais e as questões dos assédios nos transportes públicos requerem uma capacitação do condutor não apenas como profissional, mas como cidadão.

“Noções e discussões sobre cidadania são indispensáveis nos cursos e capacitações para motoristas de ônibus, mas a linguagem tem de ser prática e direta” – disse.

Um exemplo prático que Altair cita é a questão da direção econômica.

Segundo o profissional, não basta dizer que o motorista tem de dirigir de determinada forma para economizar combustível.

É importante, além de estimular com premiações por metas alcançadas, mostrar a importância da direção econômica.

“A direção econômica é mais suave, portanto, traz mais conforto e segurança para os passageiros, às pessoas ao redor e para o próprio motorista. A questão ambiental não é só por causa do consumo menor que gera menos emissões. A direção econômica desgasta menos as peças, que vão durar mais e não vão ser descartadas prematuramente. O mesmo ocorre com os pneus. Um ônibus sendo bem operado vai emitir menos ruído e barulho também é poluição, a poluição sonora” – disse Altair.

Mas o motorista se preocupa com isso mesmo?

“O motorista não, o profissional que é cidadão, sim” – garante Altair.

A evolução profissional, de acordo com o instrutor, é um via de mão dupla.

“O motorista tem de ser humilde para aprender sempre, se atualizar e ter interesse, mas a empresa tem também de oferecer um bom ambiente de trabalho. O trânsito é estressante. Nem sempre a relação com as pessoas no dia a dia é fácil. A segurança pública é um problema real. Mas quando o profissional tem a certeza de que trabalha em uma empresa que dá a ele as condições necessárias, fica mais tranquilo e consegue superar os desafios” – finaliza o Altair de Lima Mazur, que atua com instrutor do Grupo Leblon Transporte de Passageiros, que atua na cidade de Curitiba e em municípios da região metropolitana como Fazenda Rio Grande, Mandirituba.


HOMENAGENS PARA OS MOTORISTAS

Muitas empresas, associações e operadoras de transportes prepararam diferentes homenagens para o Dia dos Motoristas. Recebemos algumas delas, em diferentes estilos e formatos, que compartilhamos aqui:

METRA 

A operadora do Corredor Metropolitano ABD (São Mateus-Jabaquara) e extensão Diadema-Brooklin, fez  vídeos destacando motoristas que atuam na empresa:


TRANSWOLFF

A operadora que atua na zona sul da capital paulista pelo subsistema local (ex-cooperativas) com frota de mais de 1.200 veículos, optou por homenagear os motoristas destacando várias histórias que representam parte do universo de seus funcionários:

Personagens

Ex-fiscal de caixa da rede Wall Mart

A motorista de ônibus Kathiussia Borges de Queiroz, 34 anos, que dirige na linha 6035-10 – Vila Gilda – Sto. Amaro, conheceu o amor da vida durante uma viagem de ônibus quando ainda trabalhava na linha 6059-10 – Jd. Universal – Sto. Amaro, no extremo sul de São Paulo.

Durante uma das viagens, com destino ao bairro, o ônibus quebrou na rua José Barros Magaldi, no Jd. Novo Sto. Amaro, foi neste dia que rolou o primeiro contato, afinal os passageiros foram obrigados a descer para pegar o próximo ônibus e as duas conversaram.

Por coincidência na semana seguinte quando a atendente de lanchonete Hayanne Andrade, 23 anos, voltava do trabalho embarcou no ônibus dirigido por Kathiussia. E logo que subiu já brincou com ela. “Oi amiga da perua quebrada”.

Ela respondeu e no mesmo dia a noite por meio das redes sociais intensificaram a aproximação e o primeiro beijo já rolou no dia seguinte no ônibus.

“Estamos apaixonadas. Vivemos um amor intenso. Foi tudo muito rápido e já estamos morando juntas e super felizes”, comemora.

Ela conheceu a passageira durante viagem até Santo Amaro.

Formada em Psicologia – Mesmo após se formar em psicologia, por paixão, mulher não larga volante do ônibus

materia_dia_motorista_transw_Jeane_1A baiana Jeane Santos Pereira, 33 anos, é motorista de ônibus da Transwolff há 10 anos na zona sul da capital. Há 5 dirige na linha 6058-10 – Jd. Noronha – Term. Varginha. Desde criança via o meu pai dirigindo ônibus e achava lindo, maravilhoso a profissão e sonhava: “quero ser motorista de ônibus”.

“Me encantei com o ônibus. Eu gosto muito do que eu faço. Mulher é cuidadosa, dirige bem e é capaz.”

Mesmo aficionada e já exercendo a profissão de motorista, cursou e se formou em Psicologia, mas não quis abandonar o ônibus.

“E olha quem tem mudado a visão das pessoas ao verem a mulher no volante do ônibus. Acho que diminuiu muito o preconceito”, acredita Jeane.

Motorista sambista

Formado em Fisioterapia e TI, Gato Félix troca volante por cavaquinho no fim de semana

George Lourenço da Silva, 43 anos, o Gato Félix, é motorista de ônibus há 2 anos. Há 5 meses é motorista da linha 7055-10 – Guarujá – Term. Campo Limpo.

No final de semana ele troca o volante pelo grupo de pagode “Sem Segredo” onde é o tocador oficial do cavaquinho em várias casas de show da zona sul.

Formado em Fisioterapia e Tecnologia da Informação, mesmo com duas faculdades não quis exercer nenhuma das duas funções por conta da paixão pelo ônibus. Ele ainda faz uns frilas de massoterapia.

“O ônibus me ‘desestressa’. É uma das profissões mais importantes. Eu contribuo com a cidade levando os trabalhadores ao seu destino”, se orgulha Gato Félix.

Para seguir passos do pai, jovem abandona Direito após um ano

O motorista de ônibus Felipe Lima Alcântara, o chiclete, 25 anos, que dirige na linha 6062-51 – Jd. Castro Alves – Term. Sto. Amaro, cursou durante um ano o curso de Direito na unidade da Unip da Chácara Santo Antonio , mas ao se deparar com o pai doente que convalescia com um tumor na cabeça em 2014, abandonou a faculdade para seguir os passos do pai, que era motorista da mesma linha.

“Tinha que seguir os passos do meu pai por uma questão de honra. Tinha que continuar o legado que ele deixou”, conta Chiclete.

O pai de Chiclete veio de Umuarama, cidade no noroeste Paraná, a 580 km da capital Curitiba para a zona sul de São Paulo nos anos 80.

“Adoro dirigir e é um orgulho imenso seguir os passos do meu pai que chegou sem nada aqui e venceu”, lembra.

Casado com a operadora de caixa Audilene Bianca, 26 anos, é pai de Yasmin, 7, e Nicolly, 3. A esposa tá gestante de Davi Miguel que deve nascer ainda neste mês.

Ex-metalúrgico

materia_dia_motorista_transw_Daniel.pngApós 12 anos dentro de um galpão de uma metalúrgica, há cinco meses Daniel Araújo do Nascimento, 31 anos, migrou para o transporte coletivo. Ele trabalha na linha 6052-10 – Jd. Sete de Setembro – Term. Varginha.

“É uma grande satisfação, uma responsabilidade enorme. É uma profissão que transporta vida. As vidas dos passageiros estão nas minhas mãos. É muita responsabilidade”, diz.

“O carinho ao embarcar um cadeirante, um idoso, ao dar um bom dia isso é muito gratificante. O reconhecimento dos passageiros não tem preço. Faço com o coração e com amor.”


SPURBANUSS

Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo produziu um vídeo, realizado pelo Canal MOVA-SE, destacando dois motoristas:


SETRERJ

O Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro, em conjunto com a Autopista Fluminense, a NitTrans e a Ecoponte decidiram homenagear os motoristas exibindo mensagens aos profissionais responsáveis por transportar diariamente milhares de pessoas. “Mais de 18 mil profissionais trabalham com o transporte rodoviário, como motoristas, cobradores e nas áreas de operação, manutenção e administração, nas cidades de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá e Tanguá. Eles transportam 36 milhões de pessoas por mês“.

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MOBIBRASIL

A MobiBrasil informou que fez uma campanha interna para homenagear os motoristas, com cartazes, banner para o WhatsApp, além de vídeos animados para a TV interna. No início da operação, foi realizado um café da manhã na garagem Alvagenga SP, em Diadema e na garagem Jabaquara.

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TRANSPORTES FLORES

Maior empresa de ônibus da Baixada Fluminense, com uma frota de 484 veículos e mais de 2.903 colaboradores, a empresa transporta mais de 6,8 milhões de clientes a cada mês. A Flores optou por escrever uma mensagem aos motoristas:

Rodoviário: paixão pelas ruas e orgulho do ofício

Profissão passada de pai para filho, capacitação, histórias de vida: Dia do Rodoviário é celebrado em 25 de julho

Muitas profissões são passadas de pai para filho. E assim também é entre os rodoviários, reforçando os laços de família e o orgulho pelo ofício, que é celebrado em 25 de julho, o Dia do Rodoviário. Assim é a história do motorista de ônibus Vagner da Silva, que está há 12 anos na Transportes Flores. Ele foi levado para o emprego pelo pai, Luiz Cláudio da Silva, que também era motorista e faleceu em 2012. Os dois chegaram a trabalhar no mesmo carro algumas vezes, um como cobrador do outro. E até hoje, os ensinamentos do pai estão no dia a dia do filho.

“Ele sempre me alertava aos perigos do trânsito. Ele tinha um olhar diferente, de orgulho, confiava demais em mim. E dizia que só os treinamentos tornavam um motorista profissional”, diz Vagner. Ele conta que se sentia orgulhoso de mostrar ao pai os ensinamentos aprendidos. “A cada risco que eu evitava, eu me sentia orgulhoso do meu pai estar vendo que eu era um motorista defensivo. E ele também se orgulhava por fazer parte da minha instrução como motorista e como pessoa”, recorda o filho, emocionado.

O Dia do Rodoviário homenageia os profissionais que trabalham em empresas de ônibus e transportes de cargas. Mesmo com a rotina desgastante e as dificuldades da carreira, como a violência, motoristas, cobradores e outros profissionais do setor declaram orgulho pela profissão. Durante 10 dias deste mês de julho, a Transportes Flores está homenageando seus profissionais com fotos e vídeos nas redes sociais.

História de vida

Vagner se recorda da importância que Seu Luiz Cláudio teve em sua carreira na Flores, onde está desde 2006. “Eu saí da empresa em 2008 para ingressar num concurso público que passei. Não deu certo, eu quis voltar e, a pedido do meu pai, eu voltei. Quando ele adoeceu, me desliguei para cuidar dele. Dois meses depois do meu pai falecer, em 2012, a empresa, mais uma vez, me concedeu a chance de voltar. O meu pai e a Flores foram muito importantes para mim”, conta o motorista.

Outro que tem uma história de vida na Transportes Flores é o supervisor de operação Manoel Amintas, com 25 anos de carreira como rodoviário. Ele se apaixonou pela profissão ainda novo, quando era motorista no transporte de cargas. Além de amar o que faz, Amintas conta que, para crescer no setor, é preciso gostar de lidar diariamente com pessoas e estar atento a oportunidades e formas de capacitação.

“Eu me sinto dentro de um corpo em movimento, que a todo momento uma célula depende da outra. Me sinto muito bem dentro dessa dinâmica que é ser rodoviário. Para mim, é um orgulho”, afirma.

Com mais de trinta anos de estrada, o cobrador João Gomes Filho, de 71 anos, destaca que paciência é uma das características fortes para quem atua no setor rodoviário. “Gosto sempre de falar coisas agradáveis e de ter diálogo com as pessoas. Quem me vê trabalhando, sempre vai me ver de bem! Só tenho a agradecer por todas as oportunidades que o meu trabalho me proporciona”, diz Gomes Filho.

Capacitação

Paciência e extrema atenção são algumas das palavras-chaves para quem quer seguir no setor rodoviário. Para o motorista Claudio dos Santos, que atua há dez anos na linha Santa Teresa – Pavuna e começa a sua jornada às 4h da manhã, ter uma boa alimentação e dormir bem faz com que ele tenha um bom desempenho no trânsito caótico da cidade.

Segundo Santos, as capacitações e a atenção total na via são fundamentais para nunca ter sido multado. “Uma senhora vinha na bicicleta na direção contrária, bateu no retrovisor de um carro parado e caiu na minha frente. Como vinha na direção preventiva, consegui parar e ainda auxiliei a senhora após a queda”, conta ele.


Adamo Bazani e Alexandre Pelegi, jornalistas especializado em transportes

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