OPINIÃO: A desculpa perfeita

Foto: Mobilize

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Há muitos anos assisti palestra de um psicólogo que apresentou o conceito de “Desculpa Perfeita” como um recurso utilizado para postergar ou deixar de fazer o que não julgamos importante. Ela é o motivo que encontramos para justificar uma escolha, uma decisão.  Muitas vezes pode até ser decorrente de uma circunstância.  Em outras livre.  Mas sempre é um produto da nossa vontade.

De início resisti em aceitar. Como assim “desculpa perfeita”?  Muitas vezes somos obrigados a abrir mão de uma coisa por outra, deixamos de comparecer a um compromisso porque temos outro, optamos em gastar dinheiro numa coisa e não em outra.  Obviamente que somos movidos por “necessidades circunstanciais” eleitas como prioritárias. Ou seja, nossas decisões são sempre baseadas no que decidimos como importante naquele momento.  Se tratam de escolhas.

O conceito está aí, é muito simples, trivial e praticado no nosso dia a dia.  Define todas as nossas tomadas de decisão: desde as de natureza pessoal, até como gestores públicos, legisladores, por exemplo, decidem como será gasto o dinheiro dos impostos. É aí onde quero chegar.

Temos uma desculpa perfeita para justificar calçadas de tão baixa qualidade: despadronizadas, esburacadas e invadidas por toda sorte de irregularidades.  É porque são construídas e mantidas por proprietários dos lotes contíguos e fiscalizadas pelas prefeituras.  A lei assim determina na grande maioria das cidades brasileiras.

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Cada um faz o que quer na calçada em frente ao seu lote (Foto: Associação Cidadeapé)

E porque é assim? Lá vem a desculpa perfeita: prefeituras não tem dinheiro, gente e estrutura suficiente para se responsabilizarem pela construção e manutenção de calçadas.  Nem mesmo para fiscalizá-las como determina a legislação.

Entretanto quando se trata da pista veicular há dinheiro, gente e estrutura para cuidar dela inteiramente. O dinheiro sai dos impostos. Qual é a desculpa perfeita para se ter dinheiro público para isso então? É porque não é admissível gerir pistas da mesma forma que calçadas. Já pensou como seria circular de carro numa pista com o mesmo modelo de gestão de calçada, onde cada proprietário de lote construiria e pavimentaria a pista na frente de seu lote sem a devida fiscalização da prefeitura?

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Já pensou se cada um fosse o responsável por pavimentar a pista na frente de seu lote? (Foto: Viva São Lourenço)

Acho que agora ficou bem claro para todos o que é “desculpa perfeita”.   Essa tal de “desculpa perfeita” é “vontade política”, aquele critério de importância que habita mentes de nossos tomadores de decisão, legisladores, formadores de opinião, até mesmo da sociedade de forma geral.

E assim se escolhe privilegiar determinado tipo de mobilidade urbana e sua infraestrutura, determinado segmento social em detrimento de outro. Privilegia o que usa o veículo em detrimento do que caminha. Se ainda a escolha deste privilégio corresponder à maioria de cidadãos até se justifica democraticamente. Mas quando é dirigida a uma minoria, só uma coisa explica:  a tal “desculpa perfeita”. Neste caso, uma “desculpa esfarrapada” …

Meli Malatesta (Maria Ermelina Brosch Malatesta) – Arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestrado em Transporte a Pé na FAUUSP e doutorado em Transporte Cicloviário pela FAUUSP; presidente da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Mobilidade da ANTP. Escreve também para o Blog “Pé de Igualdade”, do site Mobilize.

1 comentário em OPINIÃO: A desculpa perfeita

  1. Livre pensar é só pensar, já ensinava o filósofo Millôr: É difícil fiscalizar tantas calçadas. Então, sugiro que sorteie calçadas a serem inspecionadas. As irregulares terão um tempo para serem reparadas, após o qual o proprietário do imóvel (não o morador) será multado caso não seja realizado o serviço.

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