Petrobras define presidente interino: Ivan Monteiro

Monteiro está na estatal desde 2015 e pode se tornar titular da estatal

Escolha foi de conselho-administrativo após saída de Pedro Parente

ADAMO BAZANI/ALEXANDRE PELEGI

Ivan Monteiro é o novo presidente da Petrobras, que fica no cargo interinamente.

Monteiro era diretor-executivo da Área Financeira e de Relacionamento com Investidores da Estatal.

O executivo ocupava posto de direção na estatal desde a gestão do presidente Aldemir Bendine, em 2015, com a saída de Graça Foster, e foi mantido por Pedro Parente.

A escolha ocorreu na tarde desta sexta-feira, 1º de junho de 2018, após reunião do conselho de administração. O nome foi indicado por Pedro Parente.

Ivan Monteiro é um nome bem visto pelo mercado e, nos bastidores, disse que não vai aceitar interferências políticas em sua gestão.

Na manhã de hoje, o então presidente, Pedro Parente, pediu demissão após o desgaste gerado pela greve dos caminhoneiros e a pressão do grupo com viés político do Governo Federal.

Parente foi responsável pela adoção, em 3 de julho de 2017, da atual política de preços da Petrobras atrelada à variação da cotação internacional do petróleo, que resultou em reajustes quase diários do valor nas refinarias da gasolina e do óleo diesel, principal queixa dos caminhoneiros que, na versão oficial do governo, durou entre 21 de maio e 31 de maio de 2018.

A política foi adotada para tentar recuperar a Petrobras que registrava um déficit de R$ 40 bilhões por causa dos não repasses das cotações internacionais aos preços de combustíveis . Esta espécie de “congelamento” ocorreu entre 2012 e 2015 e, de acordo com a atual administração federal, com objetivos políticos eleitorais.

Em uma carta com pedido de demissão, Pedro Parente disse que cumpriu a missão de recuperar financeiramente a empresa, assim como sua credibilidade.

“Excelentíssimo Senhor Presidente da República,

Quando Vossa Excelência me estendeu o honroso convite para ser presidente da Petrobras, conversamos longamente sobre a minha visão de como poderia trabalhar para recuperar a empresa, que passava por graves dificuldades, sem aportes de capital do Tesouro, que na ocasião se mencionava ser indispensável e da ordem de dezenas de bilhões de reais. Vossa Excelência concordou inteiramente com a minha visão e me concedeu a autonomia necessária para levar a cabo tão difícil missão.

Durante o período em que fui presidente da empresa, contei com o pleno apoio de seu Conselho. A trajetória da Petrobras nesse período foi acompanhada de perto pela imprensa, pela opinião pública, e por seus investidores e acionistas. Os resultados obtidos revelam o acerto do conjunto das medidas que adotamos, que vão muito além da política de preços.

Faço um julgamento sereno de meu desempenho, e me sinto autorizado a dizer que o que prometi, foi entregue, graças ao trabalho abnegado de um time de executivos, gerentes e o apoio de uma grande parte da força de trabalho da empresa, sempre, repito, com o decidido apoio de seu Conselho.

A Petrobras é hoje uma empresa com reputação recuperada, indicadores de segurança em linha com as melhores empresas do setor, resultados financeiros muito positivos, como demonstrado pelo último resultado divulgado, dívida em franca trajetória de redução e um planejamento estratégico que tem se mostrado capaz de fazer a empresa investir de forma responsável e duradoura, gerando empregos e riqueza para o nosso país. E isso tudo sem qualquer aporte de capital do Tesouro Nacional, conforme nossa conversa inicial. Me parece, assim, que as bases de uma trajetória virtuosa para a Petrobras estão lançadas.

A greve dos caminhoneiros e suas graves consequências para a vida do País desencadearam um intenso e por vezes emocional debate sobre as origens dessa crise e colocaram a política de preços da Petrobras sob intenso questionamento. Poucos conseguem enxergar que ela reflete choques que alcançaram a economia global, com seus efeitos no país. Movimentos na cotação do petróleo e do câmbio elevaram os preços dos derivados, magnificaram as distorções de tributação no setor e levaram o governo a buscar alternativas para a solução da greve, definindo-se pela concessão de subvenção ao consumidor de diesel.

Tenho refletido muito sobre tudo o que aconteceu. Está claro, Sr. Presidente, que novas discussões serão necessárias. E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o governo tem pela frente. Sempre procurei demonstrar, em minha trajetória na vida pública que, acima de tudo, meu compromisso é com o bem público. Não tenho qualquer apego a cargos ou posições e não serei um empecilho para que essas alternativas sejam discutidas.

Sendo assim, por meio desta carta, apresento meu pedido de demissão do cargo de Presidente da Petrobras, em caráter irrevogável e irretratável. Coloco-me à disposição para fazer a transição pelo período necessário para aquele que vier a me substituir.

Vossa Excelência tem sido impecável na visão de gestão profissional da Petrobras. Permita-me, Sr. Presidente, registrar a minha sugestão de que, para continuar com essa histórica contribuição para a empresa — que foi nesse período gerida sem qualquer interferência política — Vossa Excelência se apoie nas regras corporativas, que tanto foram aperfeiçoadas nesses dois anos, e na contribuição do Conselho de Administração para a escolha do novo presidente da Petrobras.

A poucos brasileiros foi dada a honra de presidir a Petrobras. Tenho plena consciência disso e sou muito grato a que, por um período de dois anos, essa honra única me tenha sido conferida por Vossa Excelência.

Quero finalmente registrar o meu agradecimento ao Conselho de Administração, meus colegas da Diretoria Executiva, minha equipe de apoio direto, os demais gestores da empresa e toda força de trabalho que fazem a Petrobras ser a grande empresa que é, orgulho de todos os brasileiros.

Respeitosamente,

Pedro Parente”

PEDRO PARENTE DEFENDEU POLÍTICA DE PREÇOS DA ESTATAL

Nesta semana, em um vídeo na internet, compartilhado por executivos da Petrobras, Pedro Parente, presidente da estatal, fez uma defesa enfática da política de reajustes diários dos combustíveis nas refinarias da Petrobras. Ele vinha sendo identificado como o grande inimigo dos caminhoneiros e petroleiros, que pediam sua demissão. O motivo era a política de reajustes diários dos combustíveis.

Parente afirma no vídeo que a medida “não foi uma escolha caprichosa da diretoria”, e é fundamental “porque ela nos dá a chance de poder lidar melhor com a nossa participação no mercado”.

Por conta da greve, o governo levou a Petrobras a reduzir a frequência dos reajustes do combustível por um determinado período, em troca do pagamento pela União dos prejuízos causados à empresa.

No vídeo, Parente afirma: “Quando a gente faz reajustes mensais, a gente corre o risco, fica exposto a uma perda de participação de mercado, que foi ruim para a empresa quando a gente observou nos últimos meses de 2017.”

Parente cita o caso do diesel, que no fim do ano passado levou a participação da Petrobras no mercado do país a cair para 67%, mesmo com a empresa tendo quase 100 % da capacidade de refino no Brasil.

Parente declarou ainda que a empresa tem “técnicos muito bem preparados” para tratar das taxas de utilização das refinarias, e que ele não interfere nisso:

Eu não tenho o poder de definir a carga nas refinarias, isso é um sistema bastante complexo, uma coisa que foi feita na empresa, que procura otimizar a nossa produção em todas as refinarias em função da demanda, em função do tipo de óleo, em função do que a gente consegue vender no mercado interno, o que a gente então exporta, portanto essa história que eu defino a carga na refinaria, pessoal, não acredita não”.

A política de reajustes diários de preços da Petrobras começou em meados do ano passado. A estatal visava rentabilidade, seguindo as cotações dos valores internacionais. A decisão contrasta com a postura adotada por gestões anteriores da estatal, de controle governamental dos preços que, entre outras coisas, visava o controle da inflação.

Outros executivos da Petrobras também gravaram vídeos em defesa da política de preços da estatal.

CRISE RESULTOU NA QUEDA DE PARENTE

No dia 21 de maio, segunda-feira, caminhoneiros iniciavam uma greve por tempo indeterminado. Principal reivindicação: zerar o PIS/Cofins incidente sobre o diesel, como forma de baratear o combustível. Com bloqueios em rodovias de 21 estados, totais ou parciais, o movimento mostrou força, impedindo a chegada de cargas aos centros de abastecimento e terminais de combustíveis.
No dia seguinte, terça-feira, a paralisação já atingia 24 estados e o Distrito Federal, alcançando 188 pontos de paralisação. Pedro Parente se reúne então com o governo, e declara que não vai mudar a política de reajuste dos combustíveis.
Quarta-feira, dia 23 de maio, o desabastecimento já começa a afetar São Paulo e Rio de Janeiro. Em reunião com os caminhoneiros o presidente Temer pede trégua de três dias, no que não é atendido. Pedro Parente anuncia que vai reduzir o preço do diesel nas refinarias em 10% durante 15 dias.
No dia seguinte, 24 de maio, o anúncio da queda nos preços dos combustíveis não surte nenhum efeito na paralisação dos caminhoneiros. Pelo contrário: o movimento endurece, e lideranças afirmam que suas reivindicações não foram atendidas. O governo, conversando com as lideranças erradas, anuncia que chegara a um acordo com sindicatos e entidades pelo fim do movimento.
A crise continua forte na sexta-feira, dia 25, e atinge diretamente o transporte coletivo. Postos ficam sem gasolina, álcool e diesel em vários estados. O Governo Temer apela às forças militares, e publica o decreto da Garantia da Lei e da Ordem, permitindo intervenção das forças federais na desobstrução das estradas.
No sábado, 26 de maio, o quadro é ainda mais grave, com manifestações crescentes e desabastecimento se espalhando por várias cidades. Nesse dia os petroleiros anunciam a decisão de entrar em greve por 72 horas a partir do dia 30 de maio. Pauta principal: contra a política de preços da Petrobras, contra a venda de refinarias e pela demissão do presidente Pedro Parente.
No domingo, 27 de maio, Temer vai à TV anunciar novas medidas: redução do preço do diesel em R$ 0,46 na bomba por um prazo de 60 dias.
Na segunda-feira, 28 de maio, a Petrobras já começa a sentir os efeitos da crise, e perde R$ 126 bilhões em valor de mercado. Em coletiva, o ministro Padilha repele veementemente a demissão de Pedro Parente.
Na terça-feira, 29 de maio, nono dia de manifestação, postos começam a ser reabastecidos lentamente nas principais cidades do país. O Tribunal Superior do Trabalho (TST) considera ilegal a greve dos petroleiros, a qual Pedro Parente chama de política e sem pauta reivindicatória.
Quarta-feira, 30 de maio, a Presidência da República reafirma que continua a preservar a política de preços da Petrobras. Começa a greve dos petroleiros. A greve já dá sinais evidentes que chegou ao fim. Não há quase mais bloqueios nas estradas do país.
Sexta-feira, dia 1º de junho, após a greve dos Caminhoneiros e dos Petroleiros ter sido encerrada, Pedro Parente se encontra com o presidente Michel Temer para entregar sua demissão.

Adamo Bazani e Alexandre Pelegi, jornalistas especializado em transportes

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