Passeios comemorativos com veículo histórico comprovam que ônibus não é apenas uma máquina que roda, mas que pulsa
ADAMO BAZANI
Pela janela, a paisagem era do presente, mas na mente e no coração, as imagens remetiam ao passado, à história de cada um.
O Diário do Transporte esteve em uma das viagens comemorativas dos 70 anos da Viação Cometa, a bordo de um Flecha Azul VII, Scania K 113 CL, ano 1998, com um design parecido com o dos ônibus norte-americanos, que são as raízes deste modelo.
Foram várias versões destes ônibus que se tornaram tradicionais na empresa, desde 1972, ainda com o nome Dinossauro, e, a partir de 1983, com o nome Flecha, sendo fabricados pela própria Cometa por meio da subsidiária CMA – Companhia Manufatureira Auxiliar.
Relembre a história dos modelos:
Foi possível perceber na prática o que sempre é dito neste site: como o ônibus é importante na vida e história das pessoas.
As paisagens pelas janelas do trajeto São Paulo/Jundiaí – Jundiaí/São Paulo, realizado neste domingo, 06 de maio de 2018, eram as mesmas para todos. Mas as imagens nas mentes e corações eram diferentes, individuais em cada um dos passageiros da história.
Robson Kresse era um dos passageiros que não lembrou apenas de uma máquina potente que cortava as rodovias brasileiras, mas sim de um pouco da história de sua família.
“Os anos 80 foram maravilhosos na minha vida. Quando eu era pequeno, ia com minha família para Sorocaba. Mas na volta, só meu tio vinha dirigindo. Eu fazia meu pai parar na rodoviária só para voltar de Flecha Azul. Quando eu vi esse ônibus encostando hoje na plataforma da rodoviária do Tietê, os olhos encheram de lágrimas” – relatou Robson.
Outro passageiro deste domingo tem sua história pessoal ligada à história do ônibus.
Antônio Kaio Castro é presidente do Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro, responsável por eventos para a preservação da memória dos transportes, como a VVR – Viver, Ver e Rever, uma exposição de ônibus e caminhões antigos, cujas edições que ocorreram entre os anos de 2004 e 2014, dando origem a outras exposições semelhantes.
“Este ônibus maravilhosamente restaurado é um exemplo a ser seguido por todas as outras empresas de transportes que têm modelos clássicos e uma rica história que não pode ser perder no tempo. Estar neste momento Vivendo, Vendo e Revendo esta viagem é algo emocionante, contagiante. É um presente que Deus nos dá, que os diretores da Viação Cometa, como o ‘dr’ Octávio nos propicia” – disse Kaio que participou de uma das viagens no mesmo ônibus na ocasião dos 65 anos da empresa.
O comandante da máquina do tempo neste domingo foi o motorista Wellington Fernandes dos Santos, que se intitula “filho caçula” do veículo restaurado, o prefixo 7455. Foi neste ônibus que o motorista fez o teste para entrar na empresa, em 2010, quando o ônibus ainda operava comercialmente.
“Eu entrei na Cometa em 2010, e tive oportunidade de fazer o teste exatamente neste carro, o 7455. E hoje a Viação Cometa está me proporcionado a satisfação de fazer estas viagens comemorativas. Este ônibus lembra muito a minha infância. Eu viaja muito com meu pai de São Paulo para Campinas e já naquele tempo, de menino, eu já tinha uma paixão pela Viação Cometa, em especial pelos Flechas. Lembro muito o cheirinho de chiclete dentro do ônibus, era um produto usado pela Cometa para limpeza interna e que também foi uma das marcas da empresa” – conta Wellington que antes de trabalhar na Cometa, atuou em outras empresas, tendo iniciado a carreira de motorista há 22 anos na Turismo Eroles, de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.
A Viação Cometa foi fundada em 1948, pelo major italiano Tito Masciolli. Um ano antes, Mascioli comprou a Auto Viação São Paulo – Santos, que, em 17 de fevereiro de 1948, passou a se chamar Auto Viação São Paulo-Santos S.A. e em 07 de maio de 1948 teve sua denominação alterada para Viação Cometa.
A empresa teve diversos marcos, como “inaugurar” a ligação interestadual Rio-São Paulo pela rodovia Presidente Dutra, em 1951; importar, em 1954, os ônibus norte-americanos GMPD 4104, chamados no Brasil de “Morubixabas”; desenvolver junto com a encarroçadora Ciferal um modelo exclusivo de ônibus, lançado em 1972, chamado Dinossauro , que a partir de 1983 foi fabricado pela própria empresa com o nome de Flecha.
Em 2001, a Cometa foi comprada pelo Grupo JCA, mesmas iniciais do empresário Jelson da Costa Antunes, controlador do grupo, que, desde os anos 1960 viaja nos ônibus da Cometa e tinha o sonho de comprá-la, mas na ocasião, ainda um pequeno empresário, não tinha as mínimas condições.
O Grupo JCA reúne empresas como Viação Cometa, Auto Viação 1001, Macaense, Expresso do Sul, Rápido Ribeirão e Viação Catarinense, que neste ano completou 80 anos, sendo a primeira empresa rodoviária do Brasil a ter um registro oficial para operar. O Grupo JCA também controla os serviços de encomendas Bus Log.
As viagens comemorativas com este ônibus histórico ocorrem até julho. Veja o cronograma:
http://www.viacaocometa.com.br/viagem-flecha/
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
