HISTÓRIA: Uma rara imagem, um retrato de Santo André de 1978

Empresa por quase toda sua existência tinha pintura que usava a cor azul em parte da carroceria. Clique na foto para ampliar

Pesquisador mantém foto de um Nimbus, da tradicional Auto Viação Vila Alpina, em uma das ruas mais tradicionais da cidade

ADAMO BAZANI

Basta uma imagem para que várias lembranças sejam retomadas e parte das histórias das pessoas e das cidades seja reconstruída.

O pesquisador da área de transportes de passageiros, Mário dos Santos Custódio, presenteou os leitores do Diário do Transporte com um dos primeiros registros que fez na cidade de Santo André, no ABC Paulista.

Trata-se de um ônibus de chassi Mercedes-Benz com carroceira Nimbus, da “Auto Viação Vila Alpina”, uma das mais tradicionais empresas que marcaram a história dos transportes da cidade.

O ônibus, segundo Mário Custódio, foi fotografado quando trafegava pela Rua Senador Fláquer, em frente ao Cartório de Notas e à Lanchonete Macallu.

Chamada atualmente de rua dos bancos, pelo grande número de agências bancárias, localizada no centro de Santo André, a Rua Senador Flaquer é antiga e uma das mais importantes da cidade.

A rua, antes denominada Avenida 1 e Rua do Theatro, recebeu este nome em 1º de maio de 1916. Foi uma homenagem ao político senador Flaquer, que nasceu em Itu, no dia 1º de maio de 1854 e morreu em Santo André, no dia 5 de dezembro de 1924. Na ocasião, era possível colocar nomes de pessoas vivas em vias públicas. A iniciativa da homenagem foi do então vereador Godofredo Genofre.

José Luiz Flaquer foi professor, médico e um dos principais políticos do ABC, ocupando por vezes seguidas os cargos de deputado estadual e federal até chegar a ser senador. Era irmão de Coronel Alfredo Luiz Flaquer, outro nome importante da política regional.

A família teve destaque na história da cidade e há diversas ruas com o sobrenome Flaquer, como Luiz Pinto Flaquer (Júnior), que integrou a primeira legislatura do antigo município de São Bernardo, eleita em 30de agosto de 1892, assumindo em 29 de setembro. Luiz Pinto Flaquer Júnior foi intendente de 1892 a 1895. O cargo se equipara a de prefeito hoje em dia.

Mário dos Santos Custódio tem várias lembranças dos ônibus da Vila Alpina, companhia fundada em 1953, em Santo André, por Luiz Fogli e o filho, Rubens Fogli. Em 1958, foi adquirida por Antônio Bataglia até que em 1983 por João Antônio Setti Braga (dono da Auto Viação ABC).  Nesta época, a empresa não se chamava mais Auto Viação Vila Alpina, mas apenas Viação Alpina. No início da década de 1990, no Governo de Celso Daniel, do PT, durante o processo de “municipalização” dos transportes em Santo André e da “remuneração por quilômetro rodado”, a empresa sofreu intervenção da prefeitura. A família Setti Braga não aceitava os termos da “municipalização” do sistema, havendo transferência de ônibus de Santo André para outras cidades onde a Alpina atuava, como São Bernardo do Campo e Diadema. A recém-criada EPT- Empresa Pública de Transportes encampou a Viação Alpina, pintou seus carros, tomou a garagem e operou suas linhas. A EPT deixou de ser operadora em 1997, com a criação da Onda Azul e a “desmunicipalização das operações”, e empresários da região formaram a ENSA- Expresso Nova Santo André.

“A Alpina teve vários modelos de ônibus. Começou com o Caio Fita Azul, depois teve Monobloco O-321, Caio Bossa Nova, Grassi Argonauta, Nicola Série Prata, Caio Jaraguá, Caio Bela Vista, Striulli e Nimbus” – relembra.

Já como Viação Alpina, a empresa teve modelos como Caio Bela Vista Máscara Negra, Caio Gabriela I e II, Caio Amélia e Caio Vitória.

A marca Nimbus, da fabricante da carroceria do ônibus da foto, surgiu em 1968, e é originária da Manufatora Furcare S.A., fundada em 1959, em Caxias do Sul (RS). Incialmente, a Furcare produzia apenas carrocerias de caminhão furgão e frigorífico.

A expansão para o setor de transporte de passageiros começou em 1967, quando os irmãos Doracy e Nelson Nicola, que fundaram outra encarroçadora de ônibus, a Nicola (que hoje é a Marcopolo), assumiram a administração. Em 1968, outro irmão Nicola, Dorval, se juntou ao negócio dando início à marca Nimbus para carrocerias de ônibus.

A empresa depois passou  pelo controle do Grupo Industrial Rodoviária, fabricante de semi-reboques do Rio Grande do Sul, que comprou a Furcare em 1974.

Em 1977, sentindo a crise econômica da época, o Grupo Industrial Rodoviária vendeu 50% de seu capital para a Randon, concorrente no segmento de cargas.

As operações da Nimbus foram compradas pela Marcopolo na mesma época.

O nome Nimbus existiu até 1979, quando foi absorvida integralmente pela Invel – Indústria de Veículos e Equipamentos Especiais Ltda, também da Marcopolo.

A Invel foi o embrião da atual Volare, a unidade de ônibus pequenos da Marcopolo.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

6 comentários em HISTÓRIA: Uma rara imagem, um retrato de Santo André de 1978

  1. Raramente se tem uma ideia completa do passado dos serviços de transporte coletivo e, quando contada, é somente de um único ponto de vista. Quem voltar para os primórdios do período “motorizado” vai perceber que os veículos automotivos levaram, por distintas razões, ao desaparecimento dos “bondes”, que eram também conhecidos como “tranvias” em castelhano e “elétricos” em português. Eles foram agentes definidores da urbanização, até então. Um aspecto que levou à sua substituição por ônibus foi a incapacidade de acompanhar a rápida urbanização ocorrida no período, quando os agente loteadores viam com bons olhos o novo serviço e, por vezes, o fomentavam, repetindo antiga estratégia de expansão da Light, ao garantir mobilidade, porém com outra modalidade de transporte. A substituição dos bondes por ônibus foi rápida, embora os trens de subúrbio tenham se mantido por não estarem sujeitos às dificuldades do trânsito urbano. As cidades passaram a se movimentar predominantemente sobre pneus e demoraram a perceber seu efeito paralelo de poluição por monóxido de carbono e material particulado. A história da mutação da mobilidade ainda não se estabilizou, porque ainda está a ser percebido que se toda a população de uma cidade locomover-se por automóvel, o espaço necessário para locomoção seria maior que o ocupado pela cidade. Um filósofo diria: “É uma situação aporética”!…

  2. Excelente reportagem,alem de citar a referida empresa,aind a nos contemplou com a origem dos onônib citados,parab par pela matéria.

  3. Dalton ÉDSON MESSA // 9 de abril de 2018 às 07:06 // Responder

    Excelente matéria! Envie para e-mail Dalton.edson.messa@bol.com.br . Instituto do patrimônio histórico e artístico Nacional do ABC. GRATO .DALTON ÉDSON MESSA. 11 995323256

  4. Márcia antoAnt // 9 de abril de 2018 às 10:17 // Responder

    Amei a história, parabéns ao jornalista responsável. 😍

  5. – tinha também a viação Santa Rita em vila Lucinda em Santo André – Sp

  6. Esse Antonio Bataglia deve ter sido pai do José Roberto Bataglia, criador da Viação Esplanada (lembro de suas iniciais em cada Monobloco da Mercedes em 73),,,meu zebrinha de coração. A primeira empresa a instalar rádios em todos os ônibus…quem não se lembra? Linha J.Estádio-Parque Dom Pedro II

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