CPI dos Ônibus do Rio investiga papel das garagens em fraudes contábeis; esquema justificaria aumento da tarifa

Rio Ônibus afirma que gastos com garagens não fazem parte do cálculo tarifário

ALEXANDRE PELEGI

A CPI dos Ônibus da Câmara Municipal do Rio de Janeiro está avançando nas investigações sobre a contabilidade das empresas de ônibus que operam no sistema de transporte coletivo da cidade.

As garagens, setor específico e nem sempre visível na estrutura das empresas de ônibus do Rio, começam a surgir com força nas investigações da CPI.

Estes locais já foram citados na Operação Cadeia Velha como o espaço utilizado para fazer a mágica da transformação do dinheiro recolhido dos passageiros em propina paga a deputados estaduais.

Mas agora, vereadores que integram a CPI dos Ônibus descobrem outro papel estratégico das garagens na engrenagem das propinas: eles colheram provas de que elas são usadas para fraudar a contabilidade das empresas, inflando os gastos operacionais através da simulação de aluguéis e da inflação no valor final das tarifas.

Os vereadores agora querem unificar as investigações com a Operação Cadeia Velha, por estarem convencidos de que há pontos importantes de convergência entre as duas investigações, que cruzam o transporte municipal e o intermunicipal.

Integrantes da CPI estiveram na última quinta-feira (14) com o procurador-chefe da Procuradoria Regional de República do Rio (PRR-2), José Gomes Ribeiro Schettino. O objetivo da visita foi buscar uma agenda comum, com o compartilhamento das provas de que as empresas BKR Viagens e Turismo e PJ3 Empreendimentos Imobiliários, pertencentes à família do vereador Thiago K. Ribeiro (PMDB), serviram como destino da propina que operava o esquema de corrupção da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

As investigações realizadas pela operação Cadeia Velha ocasionaram a prisão dos deputados Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo, todos do PMDB, ao denunciarem a vinculação do pagamento de propina pelas empresas de ônibus intermunicipais à troca de interesses atendidos na Alerj. Foi desta forma que as empresas de ônibus do serviço intermunicipal obtiveram benefícios como isenções fiscais, aumento de tarifas, retenção de créditos oriundos do Riocard, entre outros.

A CPI da Câmara suspeita agora que o mesmo esquema funcionava nas linhas municipais.

O QUE A CPI DOS ÔNIBUS JÁ SABE

Com base na investigação da CPI, ao menos três empresas do grupo de Jacob Barata Filho e seu filho David Ferreira Barata foram usadas para realizar uma suposta manobra contábil para inflar os preços das tarifas no município.

As garagens, antes pertencentes às empresas de ônibus, mudaram de mãos – ganharam personalidade jurídica própria – e a partir daí passaram a cobrar aluguéis elevados. Como consequência imediata, o esquema elevou os custos operacionais, que impactaram diretamente nos cálculos do valor das tarifas.

As empresas Viação Nossa Senhora das Graças, do consórcio Intersul; Viação Verdun S/A, do consórcio Internorte; e a Transurb, do consórcio Intersul, todos pertencentes à família Barata, integram os consórcios que operam as linhas municipais. Seus CNPJs integram uma ampla sociedade de empresas representadas pela família do “rei do ônibus”.

Um e-mail enviado por Jacob Barata a um funcionário da Rio Ônibus contendo uma planilha dos custos dos aluguéis foi obtido pelo jornal O Globo. Pelo e-mail pode-se ver que apenas da empresa Transurb foram pagos R$ 24,3 milhões em aluguéis nos últimos sete anos. Outro documento aponta que a Verdun S.A desembolsou R$ 26 milhões em aluguéis no mesmo período.

Tarcísio Motta (PSOL-RJ), um dos vereadores da CPI dos ônibus, afirma que tais contratos de locação de garagem comprovam a existência de uma maquiagem nos custos da operação do sistema de transporte. O vereador afirma que falsas despesas como esta “mascaram o lucro das empresas e apontam para indícios de fraudes”, afirma à reportagem do jornal carioca.

A expectativa dos vereadores da CPI dos Ônibus é que, com o compartilhamento de provas com a Operação Cadeia Velha, outras frentes serão abertas. Dentre as evidências já descobertas, a CPI quer avançar nas investigações.

Alguns exemplos:

– o pai do vereador Thiago K. Ribeiro, Jorge Luiz Ribeiro, está preso sob a acusação de ser o principal operador de Picciani;

– o nome da diretora do Centro Cultural da Câmara Municipal do Rio, Marcia Rocha Schalcher de Almeida, aparece na Operação Cadeia Velha; ela teria facilitado a entrega de propina quando era gerente do Bradesco e administrava as contas de Picciani e Ribeiro, além de algumas empresas dos deputados e de contas de terceiros utilizadas para depósito. Matheus Schalcher de Almeida, filho de Marcia, doou RS 40 mil para a campanha do vereador Thiago K. Ribeiro (PMDB) em 2016.

RESPOSTAS DOS ACUSADOS

A defesa de Jacob Barata Filho afirmou em nota que os gastos com as garagens não entram no cálculo da tarifa: “A fórmula contratualmente prevista para reajustar a tarifa é calculada com base na variação do preço do óleo diesel, dos pneus para ônibus, dos ônibus, chassi com motor e carroceria, da mão de obra e das despesas gerais (item que não inclui aluguel com garagem ou investimentos em garagem própria)”.

O Rio Ônibus, sindicato que reúne as empresas de ônibus da cidade do Rio de Janeiro, repetiu a mesma informação: os gastos com garagens não fazem parte do cálculo tarifário.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

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