Moro autoriza retirada de tornozeleira de Ronan Maria Pinto dentro de hospital
Publicado em: 20 de novembro de 2017
Com isso, empresário de ônibus e dono do Diário do Grande ABC pode ser operado e conduzido mais rapidamente à cadeia. Defesa aguarda decisão sobre recurso
ADAMO BAZANI
O juiz Federal Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato, autorizou nesta segunda-feira, 20 de novembro de 2017, a retirada momentânea da tornozeleira eletrônica do dono de empresa de ônibus e do jornal local Diário do Grande ABC, Ronan Maria Pinto, enquanto ele estiver internado no Hospital Albert Einstein.
Ronan recebeu voz de prisão na última sexta-feira, 17, dentro do hospital, um dos de maior padrão do País, onde está internado para operar de uma hérnia umbilical.
A retirada do aparelho de rastreamento é um pedido dos médicos para fazerem a operação.
Ronan terá de recolocar a tornozeleira em Curitiba cinco dias depois da alta médica.
Com isso, a defesa do dono de empresa de ônibus e de jornal ganha tempo para tentar reverter a prisão do cliente.
Após a recolocação do equipamento, Ronan poderá ser levado para uma unidade prisional, o que sua equipe de advogados tenta evitar.
O empresário foi condenado em segunda instância a 14 anos de prisão pelos desembargadores da 3º Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo no processo sobre suposta corrupção no setor de transportes de passageiros durante a gestão do prefeito de Santo André, Celso Daniel, que foi encontrado assassinado em 18 de janeiro de 2002, na cidade de Juquitiba, após ter sido sequestrado na região do Ipiranga, zona Sul de São Paulo.
De acordo com as acusações do Ministério Público Estadual, que foram aceitas pela Justiça, Ronan era um dos principais responsáveis pelo suposto esquema que extorquia dinheiro de outros empresários de ônibus da cidade.
As cobranças foram confirmadas por empresários de ônibus que atuavam em Santo André e alegaram que saíram o sistema porque não concordavam com os achaques, entre estes empresários, estão Ângelo Roque Gabrili, da extinta Viação São José de Transportes Ltda, e João Antônio Setti Braga, que era sócio da Expresso Nova Santo André, empresa liderada por Ronan.
Em sessão de 11 de junho de 2002, durante uma CPI da Câmara Municipal, João Antônio Setti Braga citou textualmente Ronan no esquema.
“A quantia era entregue em dinheiro vivo pelo Ronan [Maria Pinto, um dos sócios da empresa]”, disse Setti Braga, que não soube informar a quais pessoas eram levadas a propina e se os pagamentos prosseguiram após ter deixado a empresa. “Só posso dizer que os receptores” eram pessoas da Prefeitura de Santo André. Mas nunca presenciei nada.”
Setti Braga disse à CPI que deixou a Nova Santo André no início de 2000 por não concordar com os métodos da administração da empresa -à época, a cargo de Ronan e Gabrilli. “Saí, pois não compactuava.” – Relembre matéria da Folha de São Paulo com o depoimento – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1107200202.htm
A defesa de Ronan nega a existência de esquema de corrupção e diz que todas as ações do empresário no sistema de Santo André são feitas dentro da lei e devidamente documentadas.
Para o Ministério Público, este esquema de corrupção foi o principal motivo do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel.
Ronan não é acusado pela morte.
Também foram condenados na última sexta-feira pelo esquema de corrupção, o ex secretário de Celso Daniel, Klinger Luís de Oliveira, a 17 anos de prisão; o empresário Humberto Tarcísio de Castro, a 5 anos de prisão e um dos responsáveis pela AESA – associação das empresas de ônibus de Santo André, Luís Marcondes de Freitas Júnior, a 8 anos.
TORNOZELEIRA É DE PROCESSO FEDFERAL
Já a tornozeleira eletrônica faz parte de outro processo respondido por Ronan Maria Pinto, condenado em primeira instância pelo juiz federal Sérgio Moro, no âmbito da Operação Lava Jato, no dia 2 de março de 2017.
Ronan também nega os crimes pelos quais foi condenado na instância federal, entre os quais, lavagem de dinheiro.
O dono do Diário do Grande ABC, da Viação Guaianazes e ETURSA (todas em Santo André) chegou a ser preso em 1º de abril de 2016 na deflagração da Operação Carbono 14, que foi a 27ª fase da Operação Lava Jato. Ronan ficou na cadeia, em Curitiba, até 08 de julho de 2016.
Como condição para responder o processo federal em liberdade na primeira instância (o processo de corrupção de Santo André é estadual e está em segunda instância), Ronan Maria Pinto teve de pagar fiança de R$ 1 milhão e usar a tornozeleira eletrônica.
PETROBRÁS PODE RESVALAR NO CASO CELSO DANIEL:
Na investigação federal, Ronan é acusado de ser beneficiário de cerca de R$ 6 milhões de um total de R$ 12 milhões com origem em empréstimo fraudulento concedido pelo Banco Schahin ao pecuarista e amigo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o pecuarista José Carlos Bumlai. As investigações apontam que os R$ 12 milhões foram para o PT – Partido dos Trabalhadores. Como “recompensa” pelo empréstimo, o Grupo Schahin conseguiu um contrato irregular de US$ 1,6 bilhão para operação do Navio-Sonda Vitória 10000 junto à Petrobras, segundo ainda o Ministério Público Federal.
As investigações da Lava Jato apontam ainda que dos R$ 12 milhões, em torno de R$ 6 milhões foram para Ronan Maria Pinto. As datas de saques e transferências coincidem com as informações do publicitário Marcos Valério, sobre o Mensalão Petista, de que Ronan Maria Pinto estava extorquindo dinheiro do PT para não envolver nomes de peso nacional do partido no caso da morte de Celso Daniel, entre os quais, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros dirigentes do PT, como Gilberto Carvalho, José Genoíno e José Dirceu.
Com o dinheiro fraudulento, aponta a acusação, Ronan concluiu a compra do jornal local Diário do Grande ABC e pagou fornecedores de suas empresas de ônibus.
Ronan também atuou na coleta de lixo de Santo André com sua empresa Rotedali.
Também no processo federal de lavagem de dinheiro, a defesa de Ronan nega as acusações e diz que todas as movimentações financeiras do cliente foram legais e comprovadas por documentos.
O CAMINHO DO DINHEIRO PARA RONAN, SEGUNDO A LAVA-JATO:
– Os R$ 12 milhões que saíram do Banco Schahin foram transferidos para conta bancária do Frigorífico Bertin, de José Carlos Bumlai
– R$ 6 milhões foram para pagar dívidas de campanha do PT e outros R$ 6 milhões para Ronan, mas não diretamente para o empresário de ônibus.
– Os quase R$ 6 milhões para Ronan Maria Pinto foram primeiro para a Remar Agenciamento e Assessoria Ltda, de Oswaldo Rodrigues Vieira Filho, empresário do Rio de Janeiro que já havia sido indicado por outros membros do esquema.
– Foi a partir deste momento que, segundo os procuradores, o dinheiro começou a ser pulverizado. Do total de quase R$ 6 milhões, a Remar repassou R$ 2,94 milhões para Expresso Nova Santo André, empresa de ônibus que tinha como principal sócio, Ronan Maria Pinto
– Da Expresso Nova Santo André foram repassados R$ 1,2 milhão para a conta de Maury Campo Dotto, um dos sócios do Diário do Grande ABC.
– A Remar passou diretamente para a conta de Dotto R$ 210 mil
– Ronan também usou parte do dinheiro com origem fraudulenta para comprar ônibus para suas empresas. Segundo o rastreamento do dinheiro, R$ 1,37 milhão para a Mercedes-Benz e R$ 1,13 milhão para a encarroçadora Caio. As fabricantes não são investigadas porque o negócio foi legal. O que os procuradores dizem é que a origem do dinheiro é ilegal, não havendo conhecimento por parte da encarroçadora e da fabricante de chassis.
VEJA DECISÃO SOBRE TORNOZELEIRA:
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


