HISTÓRIA: Mudanças do ABC em três cenas

A foto, de autoria do saudoso colecionador Paulo, do Rio de Janeiro, mostra elementos de uma Santo André nem tão antiga, mas que mudou num ritmo acelerado a partir dos anos de 1990. Em primeiro plano, um Caio Vitória, Mercedes Benz OF-1315, da Viação Alpina, empresa que marcou a história do ABC Paulista e que opera desde 1993. Ao fundo, placas de estabelecimentos que também ficaram para a Memória de Santo André: uma propaganda do “Clube, Agência e Empresa de Fretamento Icaraí”, ao lado da Cooperativa de Consumo Volkswagen (hoje supermercado Nagumo e que revela o quanto foi mais forte a categoria dos metalúrgicos no ABC) e placa da Igreja Universal do Reino de Deus que ocupava o prédio que antes era do Cine Tamoio, evidenciando que já nos anos de 1990, a época dos cinemas de rua ficou para trás. Foto: Paulão/RJ

Épocas que cada empresa de ônibus tinha suas próprias cores, dos times de bairros até as padronizações dos sistemas de transportes mostram como as cidades mudam. Cada uma destas fases tem sua importância e ajudam a construir o futuro

ADAMO BAZANI

As mudanças na sociedade, na economia, nas relações entre os diversos agentes de uma cidade, na mentalidade humana e na paisagem urbana estão cada vez mais rápidas. Rápidas ao ponto de nem serem percebidas ou de receberem a atenção. Depois, quando paramos um pouquinho, puxamos pela memória ou vemos uma foto antiga, que nem precisa ser tão velha assim, e vemos como o tempo passou.

O QUE ESTÁ AO ENTORNO DO ÔNIBUS:

É o que foi possível com a primeira imagem desta matéria registrada pelo saudoso Paulão, colecionador de fotos e imagens de ônibus e pesquisador do setor de transportes que, de tanta paixão pelo ramo, costumava andar pelo Brasil registrando imagens cotidianas, que todos viam e nem ligavam. Hoje estas imagens despertam o saudosismo em muita gente e se tornaram importantes registros históricos.
Na primeira foto,  um Caio Vitória, Mercedes Benz OF 1315, da Viação Alpina, empresa que prestava serviços na cidade de Santo André.

A foto é do início dos anos de 1990. No para-brisa direito, o cartaz branco colado indicava que a Viação Alpina estava sob intervenção da Prefeitura de Santo André. A empresa, nesta época pertencente a João Antônio Setti Braga, que não havia concordado com a reformulação do sistema proposta pelo então Prefeito Celso Daniel, em 1989, quando criou a EPT – Empresa Pública de Transportes, que de gerenciadora, acabou, em 1991, sendo operadora após criar as linhas que uniam os dois distritos de Santo André. Entre 1992 e 1993, assumiu a frota, os bens, a garagem e os itinerários que eram servidos pela Viação Alpina.

A Alpina teria remanejado frota nova de Santo André para serviços da empresa em outras cidades, como Diadema, e não concordava em atender às novas exigências do sistema chamado “municipalizado”, um termo não fiel, pois apesar do maior gerenciamento do poder público sobre os transportes e da criação de companhias municipais, as viações particulares continuavam, mas não sendo remuneradas pelo que era obtido nas catracas e sim pelos serviços prestados. Era o popular quilômetro rodado.
Como o ônibus é um agente social vivo na cidade, que faz parte e interfere em seu cotidiano, não sendo apenas um veículo, ao redor deste modelo da Alpina, que na época provocava suspiro nos admiradores de ônibus, os chamados busólogos, é possível perceber como em tão pouco tempo a cidade de Santo André mudou.

Na época do retrato, se intensificava um grande fenômeno denominado “Guerra Fiscal”. Estados e municípios, para recuperarem as perdas provocadas pela galopante inflação, corriam atrás de investimentos e muitas indústrias do ABC, em busca de vantagens fiscais e econômicas saíam da região. Os trabalhadores e as representações sindicais também sentiam esse processo.
Quando a indústria era mais forte no ABC Paulista, as representações de trabalhadores tinham verdadeiras organizações de diversos ramos. Entre elas, as cooperativas de consumo. E na parte superior da foto é possível, entre as várias placas de estabelecimentos comerciais, ver a da Cooperativa da Volkswagen, que ficava no Ipiranguinha. Era uma cooperativa criada pela representação dos funcionários da montadora, mas que qualquer pessoa podia comprar nela.

Hoje, no local, funciona o Supermercado Nagumo.

Uma placa mais para baixo, quase colada na imagem do Viação Alpina, mostra um anuncio do Clube, da empresa de ônibus e da Agência de Viagens Icaraí. Era outro grupo antigo na cidade que possuía, além dos ônibus de fretamento, um salão, nas proximidades da Viação São Camilo, na Vila Assunção, que remetia aos bailes que eram realizados na cidade até os anos de 1990. O local era usado para festas de formaturas de diversos colégios públicos e privados. Este repórter, orgulhosamente estudou todo o ensino fundamental e médio numa escola pública, a E.E.P.S.G Dr Luiz Lobo Neto, no bairro Paraíso, quando a severa, porém justa e competente, Dona Cleuza era diretora da escola. A formatura foi lá, no Icaraí.

Na parte mais alta da foto, perto da frente do teto do marcante Viação Alpina a placa dizia: “Igreja Universal do Reino de Deus – Uma Vida Melhor Espera por Você”.
A igreja evangélica ficou por mais de 15 anos instalada no antigo Cine Tamoio, que exibiu em Santo André, os maiores sucessos mundiais e nacionais da indústria cinematográfica. Na época da foto, anos 1990, cinema de rua praticamente não mais existia na cidade. Seus enormes galpões eram aproveitados por comércios, estacionamento ou igrejas evangélicas em plena expansão no País. Hoje, o local que era o cinema e a igreja é estacionamento do Hospital Santa Helena. A Igreja Universal construiu uma Catedral bem próximo, na Avenida Santos Dumont e, independentemente de polêmicas e convicções religiosas, é uma das edificações mais bonitas daquela região.

O local onde está a Catedral da Igreja Universal do Reino de Deus, de Santo André, reserva uma história curiosa de como era a rotina das pessoas para se divertirem.
Até os anos de 1980 eram comuns os parques de diversão viajantes e os circos. O terreno onde está a Igreja abrigava estas formas de lazer.

Quantos que lêem esta matéria já não brincaram nos arcaicos e não muito seguros brinquedos destes parques ou sentaram com seus pais nos duros e desconfortáveis bancos de madeira do circo comendo pipoca. O conforto realmente não era lá essas coisas, mas o que valia era a diversão
E o que todos estes elementos da foto têm em comum? A prova de que as coisas mudam muito rapidamente mesmo. Os anos 1990 … parece que foram na semana passada.

Quanto ao ônibus da Alpina, quantas saudades também.

Primeiro de uma época que o passageiro sabia realmente quem o transportava, pois as empresas tinham suas próprias pinturas e nome em evidência. Aliás, nesta época, a Alpina inovava como o design de seu nome, enquanto as outras empresas seguiam estilos parecidos, com a saia (parte inferior da carroceria, abaixo do friso na altura das roda), de uma cor, o nome no meio da lataria e uma faixinha logo abaixo das janelas. Em Santo André, além da Alpina, uma das pinturas mais criativas era da Viação Padroeira do Brasil, com a imagem da santa e desenhos únicos. Se houvesse um concurso de design de pintura de fora, como existe hoje, Padroeira e Alpina estariam sempre na disputa.

O MODELO DO ÔNIBUS:

O modelo do ônibus também desperta saudosismo até em quem não é aficionado por este tipo de veículo.

O que chamava a atenção no Caio Vitória é que o modelo tinha linhas modernas, com um vidro em ângulo mais rebaixado entre a porta dianteira e as demais janelas. O veículo foi lançado em 1988, sucedendo o Caio Amélia e foi até 1995/1996. O Vitório foi um dos maiores sucessos da Caio, que produziu mais de 28 mil carrocerias do modelo, que ao longo de sua produção, teve diferentes versões.
Além disso, muitos diziam na época que era um ônibus urbano com portas de turismo, por ser de folha única que “empurrava” o passageiro para dentro, com segurança é claro.
O Vitória fez parte da paisagem de muitas cidades do País, inclusive de Santo André – SP.
A linha do retrato também mostra como a evolução na cidade fez com que alguns trajetos fossem ampliados e alterados por causa da mudança do perfil econômico e do aumento de serviços em alguns lugares em detrimento de outros.

A LINHA NA FOTO:

Marcopolo Torino da linha T 15 Mercedes Benz OF-1722 M, operado pela Viação Guaianazes, trafegando pela Rua Jabaquara, no bairro Paraíso, em Santo André. A T 15 é correspondente a linha 15 da Alpina, que ligava a Estação de Santo André até o Jardim do Estádio. O perfil econômico e de ocupação na cidade de Santo André mudou muito desde os anos de 1990, com a “guerra fiscal” entre estados e municípios, o que afugentou muitas indústrias do ABC Paulista. Vários bairros industriais foram esvaziados e outros tipicamente residenciais se tornaram mistos com oferta dos setores de comércio e serviços. O bairro Paraíso foi um destes lugares que cresceram com estas atividades: primeiro foi o Mappin, depois os trólebus (Corredor ABD), os mercados, os hospitais e o Parque Central. Essa mudança de perfil econômico também alterou as formas de deslocamento dentro da cidade e algumas linhas tiveram de acompanhar este processo. Foi o caso da linha T 15 que teve de ser prolongada do Jardim do Estádio até o bairro Paraíso, com ponto final entre o Hospital Estadual Mário Covas e o Parque Central.. Foto: Adamo Bazani

O colecionador Paulão/RJ retratou uma linha 15, Jardim do Estádio – Estação de Santo André.
Esta linha, hoje operada pela Viação Guaianazes (lote 01 do Consórcio União Santo André) é a T 15, que desde 2001, inicialmente com a derivação T 15 R, foi prolongada do Jardim do Estádio ao Bairro Paraíso, com ponto final nas proximidades do Hospital Mário Covas e do Parque Central.
Após a instalação do Mappin, onde havia a Casa Publicadora Brasileira, que depois virou Shopping ABC; da inauguração do Corredor Metropolitano ABD (servido por trólebus e ônibus diesel em sistema diferenciado); da conclusão do Hospital Mário Covas, da ampliação do Hospital Brasil e da reforma do Parque Central, a região do Bairro Paraíso foi revitalizada e o número de deslocamentos aumentou para a região.

É verdade que ainda são necessárias outras ligações, como para a região da Vila Luzita, no sistema municipal, e para São Caetano do Sul, nas linhas gerenciadas pela EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos.
Mas a linha T 15 foi uma resposta que mostra a demanda da região que até os anos de 1980 era só servida pela linha intermunicipal 151, da Viação Padroeira do Brasil, que ia até São Paulo, via Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo.
Outras regiões de Santo André também registraram a mesma movimentação: as vilas industriais deixavam de ser amplamente frequentadas, enquanto as que eram tipicamente residenciais tornavam-se mistas com os deslocamentos que aumentaram.

Ainda o sistema de transportes de Santo André não está totalmente atualizado com essa realidade, havendo linhas em lugares que só servem de passagem em detrimentos de bairros procurados pela oferta de serviços e comércio mas com pouca ligações por ônibus.
E claro, o personagem principal desta imagem de Paulão/RJ, a Viação Alpina não pode deixar de receber considerações sobre seu papel fundamental no desenvolvimento e crescimento de Santo André.

A VIAÇÃO ALPINA:

A empresa, inicialmente denominada Auto Viação Vila Alpina – AVVA, surgiu no momento que a cidade de Santo André mais precisava de transportes.

Era nos anos de 1950. Nesta época, o ABC que já tinha atraído um fluxo de migrantes e imigrantes considerável, passava por um novo período de aumento populacional.

A indústria automobilística se instalava na região pela conveniência de acesso pela ferrovia e pela malha rodoviária. Esse processo foi fruto da política desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck que incentivou a consolidação do caráter industrial no Brasil e não necessariamente brasileiro, já que as indústrias, principalmente do setor automotivo são de capital estrangeiro.

O ABC Paulista se tornou mais ainda sinônimo de emprego e geração de renda maior.
As áreas próximas à linha de trem, que desde 1867 passavam por um processo de urbanização para os padrões da época, já estavam altamente adensadas e o valor dos imóveis nos bairros próximos tinha se elevado justamente por causa desta maior procura e estrutura para servir à indústria, ao comércio e demais atividades econômicas.
Os bairros mais distantes então começaram a ficar mais populosos e novas vilas surgiam. Além da falta de espaço na região central, é importante destacar que boa parte da mão de obra que vinha para o ABC não tinha a qualificação necessária para o emprego industrial e, portanto, recebia uma remuneração menor, sendo obrigada a procurar regiões com imóveis mais em conta.

O número de vilas e a extensão dos bairros só aumentavam.
Não havia condições financeiras e vontade política por parte do poder público para investir em modais ferroviários. Além disso, o crescimento era muito rápido, inclusive em regiões que do ponto de vista técnico não poderiam ser servidas pelos trilhos.
Desde os anos de 1920, quando a região correspondente ao ABC assumiu um caráter urbano mais intenso, o ônibus, inicialmente jardineiras dirigidas, consertadas e lavadas pelos próprios donos, faziam este papel social e econômico de ligar as regiões residenciais onde havia emprego e renda, ligar o capital ao trabalho.
Com a aceleração da atividade industrial e aumento da população nos anos de 1950, mais empresas e serviços de ônibus precisaram ser criados. Mas com uma diferença em relação ao início do século: não havia o dono do ônibus, mas o empresário, que mesmo ainda estando presente nas operações, precisava ter uma postura mais administrativa.
Diversas famílias já atuavam nos transportes do ABC Paulista.
Entre elas a família Fogli.

APLAUSOS PARA A VIAÇÃO ALPINA:

Em 1953, Luiz Fogli e o filho Ruben Fogli, vendo a necessidade de transportes da região da Vila Alpina, Vila Guiomar, Bairro Jardim, entre outros bairros, fundou a Auto Viação Vila Alpina.
Os ônibus, os donos, os motoristas e cobradores eram verdadeiros guerreiros. Enfrentavam ruas de terra, lama e operavam com ônibus de direção dura, sem muita tecnologia, porém, essenciais para atender a população e facilitar o acesso das pessoas ao emprego, a saúde, lazer e educação.
Ada Alonso Justo, que morou por mais de 20 anos na Rua das Pitangueiras, conta uma história que era sempre repetida a sua mãe. Quando em meados dos anos de 1950 a Auto Viação Vila Alpina começou a circular pela Pitangueiras, no bairro Jardim, os moradores saíram de suas casas, que não eram muitas na época, e começaram a aplaudir os ônibus.
Era a satisfação de ter um serviço de transportes disponível, bem na rua de casa.

“O ponto do outro lado da rua em frente da minha casa está lá até hoje. São mais de 60 anos no mesmo local e nunca foi alterado. Cresci vendo os ônibus da Alpina mudando de tipo, de modelo, de cor. O ônibus foi muito importante para o crescimento do bairro.” – disse Ada. Hoje, onde era a casa de Ada, filha do ferroviário de Paranapiacaba, Romão Justo Filho, é um Buffet, na Rua das Pitangueiras, 470.

O marido de Ada, Wilson Bazani, lembra que na rua das Pitangueiras, nos anos de 1950, de um lado ficavam as casas, como a do pai de Ada, o ferroviário Romão Justo Filho, e de outro lado, no sentido Vila Guiomar/ Rua das Figueiras, ficava a chácara do Castanho.
“Nesta chácara havia dezenas de pés de café e várias árvores frutíferas. No meio do terreno, tinha a casa principal, muito bonita. Somente na segunda metade dos anos de 1960 é que a chácara foi loteada e começaram a surgir as primeiras construções neste lado da Rua das Pitangueiras”.

O FUTEBOL DE BAIRRO E O BRASIL DE VILA ALPINA:

A Associação Atlética Brasil, de Vila Alpina, e seus torcedores andaram muito de Viação Alpina. Os jogos eram lotados, a maior parte das pessoas não tinha carro e o ônibus provava que não era apenas um elo entre o capital e trabalho, mas sempre permitiu que a população tivesse acesso ao lazer, esporte, cultura e outros serviços. A foto é do Brasil de Vila Alpina de 1963, Equipe Juvenil. Em pé: Eduardo Correia (técnico), Newton Portella (de terno, à época candidato a vereador), Ferreira, Clésio, Dirson (goleiro), Zé Roberto, Bazani, Brajato e Tibaji (M – Massagista). Agachados: Vaílo, Toninho, Monsueto, Caiuby, Zé Rota. À frente, o mascote do time, o garoto apelidado de Corda. Foto: acervo Wilson Bazani.

Wilson Bazani, metalúrgico aposentado, se recorda que logo acima da curva que a Viação Alpina fazia na própria Rua das Pitangueiras, nas proximidades da Rua Itapura, havia a Praça de Esportes da Associação Atlética Brasil. O clube foi fundado em 1938.

“Eu joguei no Brasil de Vila Alpina, como era conhecido o clube, de 1954 a 1967. Comecei no mirim. Lembro que a equipe que joguei ficou invicta 74 partidas a partir de 1962, mais de um ano e meio sem perder” – declara Wilson Bazani.
A Viação Alpina não foi só importante para ligar as pessoas ao emprego. Até para os amantes de futebol a empresa marcou a história.

“O campo do Brasil de Vila Alpina ficava lotado nos dias de jogo. Não dava nem pra ver direito as partidas de tanta gente que havia. Um tinha de pedir licença para o outro. Ao lado do campo, em frente ao Empório de Secos & Molhados do senhor Stéfan, de origem alemã, por isso que o estabelecimento era chamado de Armazém do Alemão, existia uma parada do Viação Alpina, onde os torcedores desembarcavam. Para voltar para a casa, o ponto ficava do lado oposto, em frente ao campo” – recorda Wilson.

Pouca gente tinha carro nesta época, apesar de o crescimento da indústria automobilística. Então, o ônibus era o transporte da torcida do Brasil e da adversária. Não eram só os moradores da Vila Alpina que torciam pelo Brasil. Havia gente de outros bairros.
Se havia rivalidade no campo, na volta, na maior parte das vezes, a convivência entre torcidas rivais era pacífica. Todos iam para casa juntos no mesmo ônibus.
Na Vila Alpina, nesta época, a família do dono do Empório era uma das únicas que tinham carro.

“Mas antes, o alemão fazia as entregas de mercadorias numa carroça, com breque, acionado por uma manivela que bloqueava a roda da carroça. O cavalo era cinza, muito bonito” – diz o Wilson. “Até o sr Stéfan ter o carro, a garagem de sua casa era onde ficava o cavalo”.
Essa linha que passava perto do Clube Brasil tinha ponto final em frente a Padaria Nancy, que já existia desde os anos de 1940 na Vila Alpina. O estabelecimento foi fundado por João Manzato e recebeu o nome da filha dele, Nancy.
Mas até a primeira metade dos anos de 1950, o ônibus não subia até a Vila Alpina. Ele ia até os prédios do IAPI (moradias populares) pela Rua das Monções.
Quem morava na Vila Alpina e em parte do Bairro Jardim tinha de fazer uma longa caminhada para pegar o transporte coletivo.

A Viação Alpina, pelo seu crescimento e importância das linhas, despertava interesse de vários investidores tradicionais dos transportes.
A família Fogli, que fundou a empresa em 1953, não ficou nem cinco anos com a viação. Em 1958, a empresa foi comprada por Antônio Bataglia. Em seguida, os Fogli voltam ao controle da empresa. Era comum o fato de os empresários revezarem o controle das companhias. Além de operar ônibus, comprar e vender empresas era lucrativo e uma forma de consolidar a atuação dos investidores já existentes. Se um grupo se enfraquecia, outro comprava. Era o tempo do grupo se fortalecer novamente e recomprar a empresa ou iniciar novas linhas.

Desta vez era Atílio Fogli que assumia a Alpina junto com Iduglio Marcelino Maranesi e Idel Waisberg. Waisberg também era investidor de transportes e controlava a Viação Nima e Expresso Santa Rita.
A família Sófio, fundadora da TCPN -Transportes Coletivos Parque das Nações e da Transportadora Utinga Ltda também chegou a ter sociedade na Auto Viação Vila Alpina.

Em 1983, a empresa foi adquirida por João Antônio Setti Braga.
O número de linhas aumentou e a Alpina começou a ter um serviço intermunicipal entre Santo André e Mauá.
Em 1991, após sofrer intervenção da prefeitura de Santo André pelo fato de a família controladora da empresa não concordar com os termos da reestruturação dos transportes, implantado em 1989, pelo prefeito Celso Daniel, que aumentava o controle do poder público sobre o sistema, a Viação Vila Alpina deixa de operar na cidade, tendo suas linhas, garagens e ônibus encampados pela EPT – Empresa Pública de Transportes.

A Alpina que já operou nas cidades de São Bernardo do Campo e Diadema.

O crescimento da cidade, as mudanças rápidas que ocorreram principalmente nos anos de 1990, a formação dos bairros, a economia, a transformação na mão de obra e no perfil financeiro de Santo André, religião, esporte, cultura, histórias pessoais e românticas e muito mais pode ser contado pela memória de uma empresa de ônibus. Isso é prova de como os transportes são relacionados com o dia a dia de uma população, sendo influenciado e podendo influenciar nesta realidade. Por isso, entender a história dos transportes é analisar por um ângulo diferente como se formaram as cidades, os costumes, o perfil econômico e até mesmo poder compreender os fatos que contribuiriam para que a vida nas cidades se transformasse como é agora. Afinal, é olhando para o passado que compreendemos o presente.
Adamo Bazani, especializado em transportes.

9 comentários em HISTÓRIA: Mudanças do ABC em três cenas

  1. Amigos, bom dia.

    Que maravilha começar o domingo de sol lendo uma matéria aula desta e viajando a bordo de um Vitória da legítima CAIO; parabéns Adamo.

    Bom, algumas coisas me emocionaram nesta matéria e outras eu adorei, as quais destaco abaixo.

    – Curiosamente, temos uma foto que registra o buzão de Santo Andre tirada por um carioca, o Sr. Paulo, muito legal

    – Vibrei quando eu li:

    “João Antônio Setti Braga, que não havia concordado com a reformulação do sistema proposta pelo então Prefeito Celso Daniel, em 1989,…

    Adorei saber desta posição firme contra o puder a ponto de ter sua empresa sob intervenção do puuuuuuuuuuuuuuuder.

    Hoje o Barsil carece de pessoas com esta personalidade firme e posição definida SIM ou NÃO.

    – Me emocionei, ao ler:

    “… os moradores saíram de suas casas, que não eram muitas na época, e começaram a aplaudir os ônibus.”

    Aqui cabe uma observação, muito importante e que pode muiiiiiiiiito bem ser refletida nos dias de hoje; o buzão foi aplaudido pela iniciativa dos empresários e não pela iniciativa e ingerência do puder como temos hoje.

    Claro eram empresários, visavam lucros, mas trabalhavam e levavam o buzão aonde precisava fosse barro ou asfalto.

    Hoje vivemos o caus por que os empresários do buzão (quem realmente entende do riscado) não conseguem trabalhar como tem e sabem trabalhar, são obrigados a seguir um zilhão de regras e normas do puuuuuuuuuuuuuder sem contar a ingerência infernizante.

    E vou além, as vans, tidas como ilegais, também sabem trabalhar, e o pior eles cobrem um vácuo deixado pelo puder.

    Em Sampa, os malditos e duros bangos de fibra sumiram graças aos perueiros com suas confortáveis Sprinter´s que fizeram o buzão se mexer.

    Em 1992, sofri muiiiiiiiiiito nas mãos da Triângulo e seus Vitórias reciclados do RJ, bem como as linhas sem número dada a ingerência perpétua da EMTOSA desde aquela época, cujas linhas foram numeradas face a muitas reclamações por carta à época, inclusive a compra de uns urbanos da Busscar.

    Posso dizer que tive minha parcela de contribuição para deixar os serviços da Triangulo menos pior e fazer a EMTOSA se mexer um pouco também.

    E olha foi difícil, muitas cartas mesmo.

    E hoje não sei como está, mas não sei se melhorou muito não.

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  2. Luís Marcello Gallo // 12 de novembro de 2017 às 17:31 // Responder

    Excelente reportagem! Só é preciso corrigir o itinerário da antiga linha 15, que ia do Jardim do Estádio até a Vila Alice, conforme informado na bandeira do carro da finada Alpina que ilustra o início desta matéria.

  3. ABC? Só fiquei com a leve impressão que a matéria tratou apenas de Santo André, e as outras cidades do ABC? Tendenciosa nada

    • Nossa! Que matéria horrível! Meu Deus, chamem o DOPS para censurá-la. Que tendenciosa ….. é sempre o que falamos: esta máfia maldosa dos historiadores de Santo André é um dos problemas sociais mais graves hoje da região.

      Ops, peraí.. Olha essa frase: “O ABC Paulista se tornou mais ainda sinônimo de emprego e geração de renda maior.
      As áreas próximas à linha de trem, que desde 1867 passavam por um processo de urbanização para os padrões da época, já estavam altamente adensadas e o valor dos imóveis nos bairros próximos tinha se elevado justamente por causa desta maior procura e estrutura para servir à indústria, ao comércio e demais atividades econômicas.
      Os bairros mais distantes então começaram a ficar mais populosos e novas vilas surgiam. Além da falta de espaço na região central, é importante destacar que boa parte da mão de obra que vinha para o ABC não tinha a qualificação necessária para o emprego industrial e, portanto, recebia uma remuneração menor, sendo obrigada a procurar regiões com imóveis mais em conta.” — tá lá no texto, o texto da leve impressão.

      Mas realmente, você mostrou uma postura tendenciosa realmente preocupante a todos e felizmente fez um comentário que nos acrescentou muito mesmo.
      Valeu hein

  4. Parabéns Adamo, verdadeira aula de Historia! As pinturas dos ônibus eram realmente muito mais interessantes, vide Ribeirão Pires, EAOSA, São Camilo até Riacho Grande.

  5. Maravilhosa reportagem. De parabéns….

  6. Caramba! Que delícia de matéria! Obrigado por resgatar uma parte tão singela e bonita da nossa história. Quanta coisa a gente pode aprender com um ônibus, não?

    Parabéns mesmo! Essa foi a melhor matéria que li em anos na Internet!

  7. Mas vamos à história de quem viveu o meados do anos 60, pela A.V. Vila Alpina e seu trajeto real, entre 65 e 73>> os onibus começavam sua viagem a partir do fim da Av. Aurea no Jardim do Estadio>> Hortencias> Luiz Silva> Andrade Neves> Coronel Seabra com saida direta para Senador Flaquer, onde todos coletivos convergiam (não era ainda a Rua Antonio Fláquer nem havia a Perimetral), seguia até a Siqueira Campos e descia até a Queiróz Santos (Atacadão,hoje) e seguiam para a estação na Rua Itambé. Subia a Monções até o fim parava na Igreja Rosa, hj Tamarutaca. e vice versa. Enquanto isso a Viação Esplanada tinha 2 linhas saindo da Rua Luiz Silva na Vila Helena (uma direto para Pq Dom Pedro II e outra até Utinga). Em 1970 a Esplanada foi aceita/aprovada a prolongar suas 2 linhas pela Hortências se juntando à Vila Alpina , no fim da Av. Áurea. (que eu fiquei feliz com isso pois viajava 2 horas e meia até SP, naquele CAIOs Bela Vista (cores listradas entre metalizado e verde escuro), quando em 1973 José Roberto Bataglia comprou 300 MBB 0362 numa tacada só e lançou o famoso Zebrinha que apelidamos. Os únicos veiculos coletivos com rádios AM em todos os carros. Lançaram tambem calendários de bolso, ao qual ainda tenho um para recordar. Sua Garagem era na Av. Santos Dumont, depois transferida para Rua Otávio Marques na Vila Assunção, a qual visitava muito prá ver as naves verdes, do José Roberto, era a minha paixão a Esplanada. Semanalmente pegava o 173 e seguia ali sentado no primeiro banco lateral de 3, vendo o condutor dirigir, fiz muitas amizades, torcendo pelas ultrapassagens lá pela Industrial e Nações. Sempre ouvia nos rádios a musica Domingo Feliz, que ainda me faz chorar, pois iria passar fim de semana com minha mãe na Aclimação em SP, aos 12/13 anos. Fiquei triste em saber da compra da empresa pela S. Camilo que se apoderou da linha, já que tambem tinha na Vila Linda, para SP (mas a S. Camilo seguia diferente, enquanto a Esplanada subia para o Industrial, a S. Camilo descia av, da Paz em Utinga e pegava a av. Goiás, São Caetano, para o Parque D. Pedro II..Enfim, ao final dos anos 90 a linha da Alpina prolongou-se até a Av. Aclimação, desde 1992, com denominação EPT azulão, feio da porra, e depois já em 99 virou T-15 não ais fazendo ponto final no Estádio e sim no Hosp Mário Covas. Atualmente não sobe mais a Rua Monções, termina como T-15 no terminal Santo André Oeste.

  8. Não sou da época dessa alpina mas as linhas 01/02 da SBC Trans jà estiveram nessa empresa pelo que pude ver em algumas imagens.

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