Um modelo de ônibus brasileiro vencendo a nevasca chilena

Ônibus brasileiro desafiando nevasca na Cordilheira dos Andes

Neobus exporta três unidades do New Road N10 360 para enfrentar uma rota exuberante, mas desafiadora. Qualidade dos ônibus brasileiros se destaca no mundo

ADAMO BAZANI

Os ônibus brasileiros são considerados pelo mercado global um dos melhores do mundo e topam qualquer desafio.

A resistência do modelo da Neobus, New Road N10 360, sobre chassi Scania é uma prova disso.

Neste primeiro trimestre, a empresa sediada em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, exportou três unidades para a companhia transportadora Buses Díaz, do Chile.

Ônibus Neobus em parada após linha em meio à neve

Trajeto entre Santiago a Chillán tem 450 quilômetros de belezas e desafios

Os veículos operam a exuberante, mas desafiadora, rota de Santiago a Chillán. É um trajeto de 450 quilômetros, boa parte, tomada por intensa nevasca no inverno. Perto de Chillán, existe Thermas de Chillán, que é um resort de alta montanha, encravado na Cordilheira dos Andes.

O local é exuberante e possui montanhas e até vulcões, tudo coberto de gelo e com uma vegetação típica e inconfundível.

A região de Chillán é um dos principais destinos turísticos do mundo. Já Santiago é a capital chilena.

Thermas Chillán é uma estância composta de belezas naturais e é um dos principais destinos turísticos do mundo

Assim, para fazer esta ligação, procurada por milhares de pessoas todos os anos, além de força e resistência, os ônibus devem ter conforto, segurança e requinte.

Os veículos brasileiros contam com 46 poltronas Super Soft, três monitores internos, geladeira, cafeteira e calefação reforçada.

Não é a toa que os modelos de ônibus brasileiros fazem sucesso em todo o mundo.

As intensas exportações para todos os continentes comprovam a preferência de diversos países pelos veículos do Brasil, apesar de fabricantes de destaque sediadas nos Estados Unidos e Europa.

Somente neste ano, entre janeiro e agosto, de acordo com números divulgados na última quarta-feira, 6 de setembro de 2017, pela Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores foram embarcados para o mundo 5.745 chassis de ônibus. Para o mercado interno, foram vendidos 7.697 ônibus entre janeiro e agosto, queda de 10,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Em poucas vezes, na história, as  exportações se aproximaram tanto do mercado interno.

Aliás, não fossem as vendas para diversos países, a situação da indústria brasileira de veículos de transportes coletivos estaria mais crítica ainda diante da crise econômica no Brasil que se arrasta desde 2013. No acumulado de 2013 até agora, as vendas para o mercado interno somam retração superior a 50%.

São vários os motivos de os ônibus brasileiros fazerem sucesso em todo o mundo.

O primeiro deles é a tradição na produção deste tipo de veículo que os brasileiros adquiriram ao longo de décadas.

Os chassis até os anos de 1950 eram predominantemente importados, mas desde 1911 o Brasil produz de forma profissional carrocerias de ônibus. A primeira fábrica foi a Luiz Grassi & Irmão, de São Paulo, que construiu uma carroceria de ônibus sobre chassi francês De Dion-Bouton por encomenda da Hospedaria dos Imigrantes, que recebia pessoas de todo o mundo, em especial da Europa nesta época, com destaque para italianos, espanhóis e portugueses.

Os imigrantes eram atraídos pela agricultura forte no Brasil. A maior parte chegava de navio pelo Porto de Santos e seguia de trem até São Paulo. O ônibus passou a ser usado para pegar os imigrantes na estação e levar até a hospedaria.

Muitos deles nem seguiam até o interior, para as lavouras de café . Ficavam em São Paulo mesmo, o que contribuiu muito para o surgimento da indústria e comércio na capital paulista, atividades á conhecidas por muitos destes imigrantes.

O “Mamãe Me Leva”, da Grassi, de 1924, é considerado por diversos historiadores o primeiro ônibus feito em “linha” no mercado brasileiro.

A demanda por transporte coletivo era grande e logo depois, no ano de 1924, a empresa se firmou como fabricante de carrocerias.

Antes da Grassi, isoladamente, já havia oficinas que faziam as carrocerias de ônibus (ou jardineiras), de madeira, em especial sobre chassi de caminhão.

Apesar do processo artesanal, entretanto, a Grassi pode ser considerada a primeira indústria.

Nos anos 1920, um dos marcos em São Paulo foi o ônibus/jardineira apelidado de “Mamãe Me Leva”. As carrocerias de madeira eram abertas e tinham três bancos transversais, parecidos com os dos bondes que a cidade tinha na época. O “Mamãe Me Leva” chegou a ser vendido para outros estados.

A Grassi abriu um mercado para outras empresas que se destacariam no setor, como Cirb (1935), Caio (1945), Busscar (que surgiu em 1946 como Nielson), Eliziário (1946), Metropolitana (1948), Marcopolo (que surgiu em 1949, como Irmãos Nicola), Comil (que surgiu a partir da Incasel, fundada em 1949), Ciferal (1955), Striuli (1958), Neobus (cujo um dos fundadores teve participação na Thamco, fundada em 1985), entre outras. As empresas de ônibus também montaram suas carrocerias, como a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos de São Paulo, que em 1963 começava a fabricar veículos próprios com kits de encarroçadoras, a Tecnobus (1981), da Viação Itapemirim e a CMA – Companhia Manufatureira Auxiliar, da Viação Cometa (1983), por exemplo.

Carrocerias Nicola, que deu origem à gigante Marcopolo

Linha de montagem de carroceiras da CMTC

Linha de montagem com o Tribus II, da Tecnobis, da Itapemirim

Linha de Montagem da CMA, da Cometa

Outro motivo que pode explicar esta predileção pelos ônibus brasileiros é a flexibilidade e diversidade dos produtos nacionais, que acabam atendendo ao que os diferentes países precisam.

Como o Brasil possui uma extensão territorial muito grande, de 8.515.759,090 km2, com diferentes realidades operacionais, sociais e econômicas, há diversos tipos de ônibus, desde os mais simples e robustos, que enfrentam atoleiros e estradas de terra, em pleno ano de 2017, até ônibus de alto padrão, como os luxuosos veículos rodoviários de dois andares ou urbanos articulados, superarticulados e biarticulados, que têm gestão operacional informatizada.

A indústria brasileira de carrocerias também sabe se adaptar a qualquer exigência e entrega o produto que for pedido. Isso se explica, por exemplo, pela falta de padronização entre os municípios brasileiros, mesmo aqueles com realidades semelhantes. Hás cidades que pedem três portas de acesso, sendo que a segunda porta bem no meio da carroceria, outras já querem a segunda porta mais próximo da roda da frente. Existem cidades com embarque e desembarque por portas à esquerda. E a mais inimaginável configuração, a indústria brasileira faz . Tudo que um prefeito exigir numa cidade, as fabricantes nacionais conseguem atender.

Assim, bem fica mais fácil atender às diferentes exigências mundiais que, por incrível que pareça, têm menos versões do que o mercado nacional pede.

Toda esta experiência e versatilidade conferem à indústria brasileira de ônibus, uma das mãos de obras mais qualificadas do mercado mundial de veículos de transportes coletivos.

As indústrias hoje possuem modernas linhas de produção, máquinas e plantas industriais que não deixam a desejar em comparação a outros países, mas ainda há, por causa da diversidade de versões, muitas características artesanais no processo fabril de carrocerias, o que exige trabalhadores qualificados, tanto por cursos de formação profissional como pelo dia-a-dia das fábricas.

As primeiras grandes exportações de ônibus pelo Brasil começaram no início dos anos de 1960.

Monoblocos O-321 da Mercedes-Benz que seriam embarcados para a Venezuela. Foi uma das primeiras grandes exportações brasileiras de ônibus nos anos 1960

Um dos veículos que marcaram este início foi o Monobloco O-321, da Mercedes-Benz, feitos em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

A exportação de mais de 10 unidades para Venezuela mostrava que o Brasil começava a ter vocação mundial para ônibus.

Mas nem sempre foi assim. Apesar de o Brasil produzir ônibus desde 1911 na Grassi, que começou a intensificar sua atuação no ramo em 1924, até os anos de 1960 as importações de ônibus eram comuns, principalmente por empresas que quisessem oferecer veículos de maior qualidade para se destacar nas suas linhas.

Um dos casos mais conhecidos da história dos transportes foi “guerra no trajeto Rio-São Paulo), entre a Viação Cometa, que importou em 1954, os 30 GM PD 4104, por aqui chamados de Morubixaba, e a Expresso Brasileiro, que para fazer frente à concorrência, em 1956, trouxe para o Brasil, 30 Flxible VL – 100, que ficaram embargados do Porto de Santos por quase três anos, o que até hoje rende polêmicas históricas. Por aqui, estes ônibus foram chamados de Diplomata (não era os da Nielson, que viriam a partir de 1961).

“Morubixaba”, da Cometa, chegando ao Porto de Santos, em 1954

Flxible da Expresso Brasileiro conferiu requinte à linha Rio-São Paulo pela empresa.

As importações até então, de certa maneira, ajudaram a indústria nacional que tomavam exemplos internacionais e desenvolviam soluções para o Brasil.

Hoje os ônibus brasileiros estão no mundo, enfrentando sol, chuva, lama, poeira, neve, frio intenso, calor escaldante e, claro, também operando pelos modernos corredores BRT – Bus Rapid Transit, em diversos países.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

4 comentários em Um modelo de ônibus brasileiro vencendo a nevasca chilena

  1. Amigos, bom dia.

    Nooooooooooooooooooooooooosssa, nem sei por onde começar.

    Primeiro agradeço a Deus por não ter nevasca no Brasil e por hoje termos este lindo dia de SOL.

    Depois agradeço ao Adamo e a equipe do Diário, por nos proporcionar mais esta matéria aula rica em detalhes, com fotos sensacionais escolhidas a dedo e por eu ter aprendido mais uma nestas aulas, conhecer a ‘Mamãe me Leva da Grassi”, que eu desconhecia.

    Mesmo depois de tanta$ mala$ uma matéria desta nos trás de volta o orgulho de ser brasileiro, pois nesta matéria vemos exemplos de pessoas que empreenderam e trabalharam para ganhar o seu merecido lucro.

    Este é o espírito da grande maioria dos brasileiros.

    Sensacional todas as fotos mas a do New Road N 10 360, debaixo da Nevasca ficou show e bucólica.

    A foto da linha de montagem da CMTC, também me fez tremer nas bases.

    Parabéns aos autores de todas as fotos e obrigado por compartilhar-las com o mundo.

    Neobus, tô esperando o NEOBUS DD 399-PG, não esqueçam tenho certeza que será algo
    translumbrantes.

    OBS.: Esta matéria vou ler e ver as fotos no mínimo mais umas 3 vezes.

    Ótimo domingo a todos!

    Att,

    Paulo Gil
    “Buzão e Emoção é a Paixão”

  2. Parabéns, mais uma vez, Adamo.
    Bela matéria e um bom resumo da história dos nossos ônibus.

  3. A indústria de carrocerias de ônibus é motivo de orgulho. Também tenho muito orgulho da Embraer que também é uma das maiores do mundo.

  4. Jackson de sousa leite // 14 de setembro de 2017 às 22:06 // Responder

    a industria de carrocerias com certeza é um sucesso! mas só queria saber o porque de não termos modelos monoblocos ? seria um acordo? a legislação criada pra favorecer A ou B? fica a incógnita?

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: