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ENTREVISTA: Prorrogação de prazo para ônibus rodoviários se tornarem acessíveis é lamentável

Ônibus Iveco com carroceria Comil dotado de poltrona móvel.

Opinião é do gerente de Marketing da IVECO BUS para a América Latina, Gustavo Serizawa

ADAMO BAZANI

Enquanto a obrigatoriedade de os ônibus rodoviários de linhas regulares e de fretamento saírem de fato acessíveis de fábrica foi adiada pela quarta uma vez, parte da indústria brasileira já tem condições de deixar os transportes nestes veículos mais inclusivos.

É o que garante o gerente de Marketing da IVECO BUS para a América Latina, Gustavo Serizawa, em entrevista ao Diário do Transporte

“É lamentável essa decisão e, novamente, quem paga é o cidadão que possui algum tipo de dificuldade de locomoção. Acessibilidade não deve ser pensada só para quem está numa cadeira de rodas, mas para todos os passageiros. Quem quebra uma perna, obesos, gestantes, idosos, enfim, todos que têm alguma limitação, seja permanente ou não” – defendeu o executivo.

Em primeira mão, o Diário do Transporte noticiou nesta quarta-feira, 19 de julho, a publicação da portaria 215/17, do Inmetro, no Diário Oficial que prorroga para 1º de julho de 2018 a implantação já na linha de produção de plataformas elevatórias ou poltronas móveis nos ônibus do tipo rodoviário em vez das atuais cadeiras de transbordo, consideradas desconfortáveis e pouco práticas.  A obrigatoriedade primeiramente era para entrar em vigor no dia 2 de junho de 2015, depois foi para 1º de julho de 2016, 1º de julho de 2017 e agora 1º de julho de 2018. Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/07/19/adiado-mais-uma-vez-prazo-para-onibus-rodoviarios-acessiveis-sairem-de-fabrica/

“A tecnologia já existe há mais de quatro anos de forma consolidada. Parte da indústria já está com a solução, mais uma vez, no entanto, por forças maiores houve esse atraso que não condiz com a nossa realidade industrial, pelo menos no caso da Iveco. Não dá para dizer que o motivo para este adiamento seja falta de opções no mercado e falta de capacidade da indústria. Até mesmo alguns órgãos de governo já estão comprando os veículos inclusivos” – disse Gustavo Serizawa.

Micro Soul Class, em parceria com a Caio, foi projetado para ter poltrona móvel

Em abril, a Iveco Bus, que faz parte da CNH Industrial, lançou em parceria com encarroçadora Caio o micro-ônibus Soul Class, que já sai de fábrica com poltrona móvel como opção às plataformas ou cadeira de transbordo. Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/04/18/caio-e-iveco-apresentam-primeiro-micro-onibus-inclusivo-soul-class/

Daily. Acessibilidade e inclusão tem despertado interesse de gestores públicos

A van Minibus Daily e o chassi de ônibus de 17 toneladas 170S28, de motor dianteiro, que tem sido procurado por empresas de fretamento, também já possuem preparação para plataformas elevatórias e poltronas móveis, garante a Iveco.

ACESSIBILIDADE TAMBÉM É LUCRATIVIDADE

Transportadora Rota 13, de Salvador, que presta serviços de fretamento. Espaços no veículo são utilizados da mesma forma com ou sem pessoas que dependem de cadeira de rodas

Os ônibus rodoviários, independentemente do porte, com plataformas elevatórias ou poltronas móveis são mais caros do que os atuais veículos que podem sair de fábrica até 1º de julho de 2018 com as cadeiras de transbordo.

Mas pensar que estes veículos podem dar um maior retorno financeiro, mesmo sendo mais baratos, pode ser um erro.

Gustavo Serizawa relaciona uma série de fatores que podem, mesmo sem a imposição legal, fazer com que os prestadores de serviço de transporte se interessem pelos ônibus que ofereçam mais acessibilidade e inclusão.

“O mercado está cada vez mais competitivo e acessibilidade plena pode fazer com que os transportadores ganhem mais dinheiro. Um serviço qualificado atrai mais clientes. Um veículo com acessibilidade total pode ser decisivo na hora da escolha pela empresa de transporte.” – disse Gustavo que ainda acrescentou que a opção da poltrona móvel deixa o espaço do ônibus disponível para aplicações com ou sem passageiros com deficiência.

“A ocupação dos assentos nos ônibus é essencial para a lucratividade do empresário. A vantagem da poltrona móvel é que ela é adaptada para pessoas que precisam de cadeira de rodas ou possuam outros tipos de dificuldades de locomoção, mas quando esta poltrona não é usada para esta aplicação, está livre para uso convencional. Assim a empresa sempre terá a ocupação comercial deste espaço.”

Inclusão e segurança também são outras vantagens da opção de poltronas móveis com elevação

“O conceito que Iveco tem seu DNA é o da inclusão e não apenas da acessibilidade. Acessibilidade é o acesso ao veículo e pronto. A inclusão é tornar o passageiro com alguma limitação como os demais no interior do veículo, sendo transportado com o mesmo conforto, a mesma comodidade e segurança. As cadeiras de rodas atuais no mercado brasileiro não são indicadas para veículos em movimento, somente as que possuem o padrão americano WC19. Um acidente, mesmo em baixa velocidade, em torno de 40 km/h ou 48 km/h, pode ter consequências graves com a cadeira de rodas no veículo. A Iveco pensa na acessibilidade e inclusão muito além da legislação” – finalizou Gustavo.

Em vídeo de divulgação da encarroçadora Neobus, é possível ver poltrona móvel elevatória em ação.

https://www.facebook.com/neobusoficial/videos/870518609768064/

HISTÓRIA:

As necessidades para os ônibus serem mais acessíveis e inclusivos são antigas.

Um fato curioso e histórico remete a 1988, quando a empresa de fretamento Kuba Tur, de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, adaptou um monobloco O-364 com um rudimentar, mas bem interessante para época, elevador para cadeira de rodas. A medida foi tomada porque a Autolatina, uma das clientes da companhia de ônibus, precisava manter empregado um funcionário que havia ficado paraplégico depois de um acidente.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2017/04/09/historia-acessibilidade-antes-da-lei/

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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