Mais uma morte de motociclista nas marginais desafia prefeitura de SP

Publicado em: 11 de julho de 2017

Diminuir os acidentes com motocicletas em vias rápidas da cidade é o grande dilema das autoridades de trânsito

ALEXANDRE PELEGI

A morte de mais um motociclista neste domingo (dia 9), após colisão com um poste na marginal Tietê, elevou para 12 o total de mortes registradas nas marginais Tietê e Pinheiros em 2017.

O acidente fatal crava a 11ª morte de motociclista nas marginais desde que os limites de velocidade foram alterados, em janeiro de 2017. O 12º óbito nas marginais nesse período foi decorrente de um atropelamento.

Como já citamos aqui, as mortes em ocorrências de trânsito envolvendo motocicletas só são comparáveis à tragédia da escravidão no país. Esta analogia foi feita pelo engenheiro Eduardo Vasconcellos, especialista na análise de dados sobre o trânsito nas cidades e consultor da ANTP, além de importantes organizações internacionais. (Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2017/05/13/numero-de-acidentes-cresce-nas-marginais-e-doria-escolhe-restricao-a-motocicletas-como-alvo-primordial/)

Autor do livro “Risco no trânsito, omissão e calamidade” (ed. Annablume), lançado em 2016, Eduardo, um estudioso do tema há anos, aponta em defesa de sua tese que desde a introdução da motocicleta no Brasil, pelo menos 220 mil pessoas morreram e 1,6 milhão ficaram permanentemente inválidas devido a quedas e colisões com motocicletas, somando impressionantes 1,8 milhão de acidentes.

Em maio deste ano, após a ocorrência de oito mortes em acidentes de moto nas marginais somente em 2017, a gestão João Doria (PSDB) iniciou no dia 13 daquele mês a restrição à circulação desses veículos no período noturno (das 22h às 5h) na pista central da Tietê. Esta foi até aqui a principal, e pelo visto a grande aposta da gestão municipal para frear a alta de acidentes com vítimas nas vias expressas.

Entrando no segundo semestre com 11 mortes de motociclistas apenas nas marginais, o desafio à Prefeitura de SP continua: como reduzir os acidentes com motocicletas, principalmente em vias rápidas da cidade?

Pelo visto o propalado aumento da fiscalização, prometido pelo programa Marginal Segura, não tem surtido o efeito desejado. As estatísticas de acidentalidade têm mais confundido que esclarecido, decorrentes de uma guerra de números que tem revelado uma disputa entre organismos do estado e da prefeitura, ao invés de orientar ações de planejamento para o aumento da segurança viária.

Os dados revelados por outros organismos do governo do Estado, como a Polícia Militar, têm confrontado os dados da prefeitura. De fevereiro a abril deste ano, segundo a PM, foram 396 acidentes com vítimas nas marginais. Para a prefeitura, no mesmo período, foram 113 acidentes em geral (graves ou não).

ACIDENTES COM MOTOCICLETAS DESAFIAM AUTORIDADES DE VÁRIOS PAÍSES:

Na América Latina e Caribe, os acidentes de trânsito ocorridos com motos são a segunda causa de morte entre a população de 15 a 44 anos. Em países como Brasil, Colômbia, República Dominicana e Uruguai, a motocicleta responde por cerca da metade dos óbitos nos acidentes de trânsito.

Muitos estudos apontam que na América Latina há quase 30 milhões de motocicletas registradas. No Brasil o total de motocicletas registradas aumentou de 5,7 milhões em 2002 para mais de 21,4 milhões (346%) em 2013.

Entre 1997 e 2009 a frota de motocicletas registradas na Colômbia aumentou em 400%. Isto coincide com o fato dos dois países serem, na região, aqueles com mais alta mortalidade de usuários de motos: Colômbia – 3,6 mortes por 100 mil habitantes e Brasil – 2,9 por 100 mil habitantes.

Encontrar uma solução que reduza os acidentes envolvendo motocicletas parece ser algo que transcende cidades e países. Técnicos e especialistas latino-americanos têm trocado experiências e realizado estudos. Pelo visto, a questão das marginais é muito mais complexa do que os dados permitem ver.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

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