Número de acidentes cresce nas marginais, e Doria escolhe restrição a motocicletas como alvo primordial

Para especialista, mortes envolvendo motocicletas é tragédia anunciada há décadas no Brasil. Em pleno Maio Amarelo prefeito ainda não conseguiu demonstrar resultados efetivos que marquem o começo de um trânsito mais seguro

ALEXANDRE PELEGI

Após oito mortes em acidentes de moto neste ano nas marginais, a gestão João Doria (PSDB) iniciou neste sábado (13) a restrição à circulação desses veículos no período noturno (das 22h às 5h) na pista central da Tietê. Esta é a principal, e pelo visto a grande aposta da gestão municipal para frear a alta de acidentes com vítimas nas vias expressas.

Começando no sentido Castelo Branco/Ayrton Senna, a restrição às motos será ampliada no sentido oposto no dia 27 de maio. A multa para os infratores será de R$ 130,16, mas a CET-SP avisa que será aplicada somente após uma etapa “educativa”.

A mudança será pequena, uma vez que as motos já estão proibidas de rodar pela pista expressa desde 2010. A partir de hoje elas só poderão rodar no final da noite e madrugada pela pista local, com a velocidade limitada em 60 km/h.

Só para recordar: depois da elevação dos limites nas marginais Tietê e Pinheiros em 25 de janeiro, grande promessa eleitoral do prefeito Doria, o número de mortes nessas pistas já chega a nove, oito envolvendo motos e um pedestre.

Dados da Polícia Militar mostraram recentemente que nos dois meses seguintes ao aumento das velocidades máximas, os acidentes com vítimas subiram 51% nas marginais.

A prefeitura justifica a medida de restrição às motos dizendo que o objetivo é “reduzir acidentes e garantir a segurança dos motociclistas, que estão presentes em 80% dos acidentes com vítimas”.

Apesar de mirar nas motos – cujo crescimento de casos chegou a 60%, importante citar que houve elevação também das ocorrências entre carros (10%) e caminhões (108%), além de atropelamentos (300%).

MORTES EM OCORRÊNCIAS DE TRÂNSITO ENVOLVENDO MOTOCICLETAS SÓ SÃO COMPARÁVEIS À TRAGÉDIA DA ESCRAVIDÃO NO PAÍS

“É difícil encontrar na história do Brasil, fora a escravidão, um fenômeno social tão destrutivo quanto a motocicleta”. A frase é do engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara Vasconcellos, especialista na análise de dados sobre o trânsito nas cidades e consultor da ANTP, além de importantes organizações internacionais.

Autor do livro “Risco no trânsito, omissão e calamidade” (ed. Annablume), lançado em 2016, Eduardo, um estudioso do tema há anos, aponta em defesa de sua tese que desde a introdução da motocicleta no Brasil, pelo menos 220 mil pessoas morreram e 1,6 milhão ficaram permanentemente inválidas devido a quedas e colisões com motocicletas, somando impressionantes 1,8 milhão de acidentes.

Eduardo conta que em 300 anos de escravidão no Brasil, os historiadores estimam que cerca de 640 mil negros morreram durante o deslocamento em navios, transportados à força por traficantes. O levantamento foi feito por pesquisadores da Universidade Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos.

Apenas em 2015, segundo dados coletados pelo especialista, 3 em cada 4 pedidos de indenização por morte ou invalidez no trânsito de São Paulo se originaram de acidentes com motocicletas. Detalhe: as motos representam apenas 19% da frota de veículos no Estado.

Ou seja: o fenômeno é antigo, conforme analisa Eduardo Vasconcellos, mestre e doutor em política pública pela USP, com pós-doutorado na Universidade de Cornell (EUA). Eduardo cita que foram várias políticas públicas que incentivaram a disseminação de motocicletas pelo país. Ou seja, o que estamos assistindo há vários anos, e de forma alarmantemente crescente, é uma tragédia anunciada, diante da qual as autoridades nada fizeram. E quando fizeram alguma coisa, foi de maneira afoita e paliativa.

ESTÍMULO À COMPRA E USO DE CARROS E MOTOCICLETAS

Entre 2012 e 2014 o governo federal reduziu o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para a indústria automotiva. Com a redução do custo de automóveis o que vimos foi um amento gigantesco na frota de veículos no trânsito. Os fabricantes de motocicletas, instalados na Zona Franca de Manaus, já se beneficiavam da isenção do imposto. Resultado: entre 2011 e 2014 o número de acidentes anuais com motos aumentou 156%, saltando de 194 mil para 497 mil em todo o país.

Some-se a isso os erros de regulamentação e de capacitação detectados na difusão das motocicletas, além da deficiência do transporte público urbano. O transporte ineficiente e demorado que levou muitas pessoas a adotarem um veículo que se vende como barato (tanto no preço de venda, como na manutenção), como rápido e veloz, pois dribla os problemas de lentidão do trânsito. O preço final está aí: mortes e invalidez permanente, tragédia que impacta os custos de saúde, além de atingirem diretamente milhões de famílias brasileiras.

Alexandre Pelegi – jornalistas especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Luiz Portella disse:

    A moto é um veículo q tem q seguir as regras estabelecidas no código nacional de trânsito . Não existe “corredor de Moto” a moto tem q ficar a 1,5 mts do automóvel assim como a bicicleta . O desrespeito a visibilidade no posicionamento da moto com relação aos pontos cegos do automóvel é imenso , além de alguns motoristas mau formados ! O Zig Zag das motos, as buzinas, etc , são garotes de risco e proibidas . Na mairia das vezes as motos estão em péssimo estado , não sabem brecar , acelerar , se posicionar , capacetes fora de esoecuficação e tantas outras coisas . Há cursos de pilotagem com segurança da Honda, Yamaha e outras fabricantes , porém os “espertos” acham que sabem tudo e MORREM!
    Tenho certeza q os números de acidentes provocados pelas motos , efetivamente, são infinitamente maiores do que os carros provocam ás motos . Sou motociclista , formado na primeira turma de pilotagem com segurança de um grande fabricante .
    “MOTOCICLISTA SE FAÇA SER VISTO”

    1. William de Jesus disse:

      Perai, estou lendo isso mesmo? A moto é a causa dos acidentes? Está falando sério? Se um motorista de um carro avança contra uma moto a culpa é do motoqueiro? Que planeta você vive, cara?!

  2. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    O que causa a tragédia, não é o tipo de veículo e sim a forma como o seu condutor o dirigi.

    Estou fazendo um “book” das aberrações que vejo diariamente no trânsito e já tenho algumas fotos legais.

    Mas não vou dedurar ninguém, nem expor as placas ou nomes de empresas.

    Vejam o que eu já tenho:

    – Micro ônibus escolar circulando na ciclofaixa;

    – Van escolar que para todo dia na faixa de pedestre numa escola;

    – Microônibus escolar que para próximo da esquina;

    – Auto escola que ‘todo dia” entra á esquerda em cima da faixa dupla e da faixa zebrada;

    – Ciclista no meio da rua e na contra mão, na mesma foto do auto escola acima;

    – Perua da PMSP estacionada em cima da ciclofaixa;

    – Carro da CET estacionado em cima da zebra ;

    – Guincho a serviço da CET estacionado na frente da rampa de acesso ao PNE´s (essa foi na exposição do buzão no Pacaembú);

    – Caminhão de entrega que todo dia par em cima da calçada e embaixo da placa de proibido estacionar e parar;

    – Caminhão plataforma estacionado em cima da calçada;

    Agora eu pergunto:

    O problema está no tipo de veículo ?????

    Sem mais.

    Att,

    Paulo Gil

  3. Paulo Gil disse:

    Complementando:

    A grande maioria dos motoristas escolares precisam ser requalificados, mas antes o curso deve ser reestruturado, pois o atual não serve pra nada.

    Outro dia uma TIA, fez uma conversão à esquerda logo após o cruzamento, em cima da faixa contínua ou dupla, passou por dentro do posto de gasolina e saiu na Avenida tranquilamente.

    Eu vi pelo retrovisor e até hoje eu custo a acreditar, mas é a mais pura verdade.

    SESC SENAT, esse curso de escolar já era, não serve para mais nada, nem para crianças de 4 anos.

    Att,

    Paulo Gil

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