Anunciados como legado para o Rio, BRT e Metrô penalizam carioca mais pobre

Fundação Getúlio Vargas analisa legado de grandes eventos e mostra que BRT e Metrô comprometem até 2/3 da renda dos usuários da zona Oeste do Rio

ALEXANDRE PELEGI

Quem não leu ou ouviu sobre o tal “legado olímpico” que as grandes obras de transporte público deixariam para o carioca?

A mobilidade urbana, cantada em prosa e verso durante os jogos, foi o grande destaque dos noticiários  em 2016. A integração do metrô com o BRT e o VLT era uma das novidades anunciadas. O Rio de Janeiro prometia uma transformação profunda no transporte público.

Mas o legado dessas intervenções já era desde então uma das grandes preocupações de quem vive na cidade maravilhosa, como já demonstrava Thereza Lobo, diretora executiva do movimento Rio Como Vamos (RCV). Para ela, apesar de todos os investimentos, questões importantes precisavam ser discutidas, como a manutenção posterior.

O carioca estava esperançoso. Pesquisa feita pelo RCV em 2015, um ano antes dos jogos Olímpicos, constatou que 29% acreditavam que o principal benefício (o “legado”) dos Jogos seria a melhoria dos transportes públicos. E os entrevistados citavam como investimentos prioritários as novas vias de BRT  (66% ) e a expansão do metrô (56%).

No entanto, uma pesquisa inédita feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra realidade distinta quanto ao famigerado legado. Hoje, além de problemas sérios de manutenção, somados a questões envolvendo custos do sistema – que enseja uma queda de braço entre prefeitura e empresas de ônibus, ligada ao congelamento da tarifa de ônibus – , o bolso do carioca demonstra que também está sofrendo…

A pesquisa da FGV aponta que o gasto com o sistema de transporte no Rio – BRTs e metrô – , em relação à integração dos dois modais, castiga a Zona Oeste e a Zona Norte, sentido Pavuna, onde se detecta uma desigualdade de acesso por conta da renda. O estudo mostra, por exemplo, que o sistema de transportes chega a comprometer 65% da renda dos moradores de Vila Paciência, na Zona Oeste carioca.

Para quem esperava uma revolução na mobilidade da cidade, o legado parece ter ficado largado. Segurança pública, despoluição da Baía de Guanabara e o uso da infraestrutura deixada pelo Parque Olímpico, são outros exemplos de um legado que não veio como anunciado.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes