ENTREVISTA: Municípios do ABC continuam sem ajudar no planejamento de ônibus metropolitanos

Joaquim Lopes EMTU Joaquim Lopes diz que informações podem contribuir para que licitação tenha melhores resultados

Segundo presidente da EMTU, com exceção de São Bernardo do Campo, cidades da região não forneceram dados sobre a rede a fim de evitar sobreposições

ADAMO BAZANI

A licitação dos transportes metropolitanos no ABC Paulista nunca saiu do papel. Boa parte dos ônibus é velha, com idades que superam os 15 anos, as linhas são desatualizadas e empresas com graves problemas operacionais e jurídicos continuam prestando serviços abaixo da qualidade mínima necessária.

A primeira tentativa de licitação ocorreu juntamente com as outras quatro áreas da Grande São Paulo, em 2006. Todas foram licitadas, menos o ABC, a chamada Área 5. Alegando maiores custos operacionais, os empresários da região contribuíram para certame não ir para frente, esvaziando por cinco vezes a licitação, e o empresário Baltazar José de Sousa, com auxílio da Justiça de Manaus, conseguiu impedir a realização de uma das tentativas, alegando que a licitação prejudicaria o processo de recuperação judicial de suas empresas.

Em 2016, deveria ter sido realizada outra licitação dos contratos de dez anos de validade assinados em 2006, que venceram.

De acordo com presidente da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, responsável pela licitação de pelas linhas intermunicipais, Joaquim Lopes, em entrevista ao Diário do Transporte, a elaboração dos editais está em finalização. Lopes disse que uma das dificuldades em relação ao ABC Paulista é que as prefeituras não forneceram dados dos sistemas municipais para a criação de uma rede metropolitana mais enxuta e eficiente, eliminando as sobreposições de linhas que aumentam os custos, tendo como resultando tarifas mais altas.

O presidente da EMTU disse também que se reuniu com o prefeito de Santo André, Paulo Serra, para que o chefe do executivo andreense lidere um processo de conscientização dos outros prefeitos para ajudar na elaboração desta nova rede de transportes

“Vamos manter cinco lotes [operacionais] na Grande São Paulo e o ABC é um deles. Nós já tivemos nos últimos anos um processo de racionalização da frota muito grande na região. Tínhamos mais de 900 veículos e hoje estamos com [pouco mais] de 700, quase 200 carros [ônibus] já saíram. Eu diria que ainda tem um trabalho para ser feito, racionalizar um pouco mais olhando para o conjunto da frota de sistema metropolitano e sistemas municipais. Na semana passada, numa reunião em Santo André, eu chamei atenção para esse fato. A gente tem forte sobreposição entre sistemas municipais e sistema intermunicipal. Eu lembrei inclusive ao prefeito Paulo Serra [de Santo André] que ele poderia tá liderando para a gente aqui um processo de retomada desse trabalho de racionalização da frota dos dois sistemas.”

Ainda na entrevista ao repórter Adamo Bazani, do Diário do Transporte, Joaquim Lopes afirmou que tenta desde as gestões passadas as informações das redes de ônibus municipais do ABC, mas que só São Bernardo do Campo respondeu o pedido na ocasião.

“Naquela a última vez que estávamos trabalhando dessa maneira, o único município a enviar os seus dados de rede foi São Bernardo. Nenhum outro município disponibilizou seus dados para que gente pudesse o olhar para as duas redes e fazer a compatibilização dos serviços existentes nos municípios e os metropolitanos. Precisamos saber o que dá para cortar, o que tentar racionalizar e ajustar estes custos. É importante porque é a partir disso que vai vir a melhoria. Não tem segredo, até porque a tarifa para cobrir custo operacional, remunerar investimento … a tarifa é insuficiente. Se a gente não fizer trabalho com os municípios, não vai dar para ter [eficiência]”

O presidente da EMTU disse que a gerenciadora das linhas intermunicipais vai tentar novos contatos com os prefeitos do ABC Paulista. Segundo Joaquim Lopes, com as informações das redes de ônibus municipais do ABC, será possível fazer um edital da Área 5 mais adequado à nova realidade dos transportes da região.

“Vamos tentar retomar esse trabalho até para ajustar a rede, o que é uma necessidade nossa. Quanto mais a gente conseguir aperfeiçoar, ajustar essas redes de serviços locais e metropolitanos, melhor será. Começar a buscar um pouco mais de qualidade e melhorar os indicadores que vão assegurar a viabilidade. Para que a gente tenha êxito nesta próxima licitação”

A atual situação econômica e a mudança na forma de remuneração das viações podem podem contribuir para que os próprios empresários pressionem para as eliminações de sobreposições de linhas.

Em geral, na região do ABC, os mesmos empresários que operam as linhas municipais também prestam serviços e intermunicipais. Quando em algumas cidades havia subsídios ou complementações, era vantajoso para o empresário colocar duas linhas diferentes fazendo praticamente os mesmos trechos dentro das cidades e recebendo tarifas mais altas.

Agora, sem subsídios e com as finanças mais apertadas, a ordem é economizar.

Entretanto, uma das preocupações em relação à racionalização das linhas é a falta de integração tarifária e até mesmo de bilhetagem eletrônica única entre os serviços municipais e metropolitanos.

Dependendo das eliminações de algumas sobreposições, o passageiro pode estar arriscado a fazer viagens mais demoradas e ter de pagar duas tarifas diferentes, sem desconto, para fazer o mesmo trajeto que hoje realiza com um ônibus intermunicipal.

Diferentemente do que ocorre com o mundo desenvolvido, na região metropolitana de São Paulo, os ônibus intermunicipais não se integram com os municipais. Além de pagar duas ou mais tarifas cheias por sentido, o passageiro é obrigado a ter cartões de bilhetagem eletrônica diferentes. Em alguns casos, dependendo do deslocamento, é necessário ter três tipos de bilhetes na carteira: um municipal, o cartão BOM para os ônibus metropolitanos e o Bilhete Único, caso a pessoa necessite seguir viagem nos ônibus municipais de São Paulo. Não há de fato uma rede metropolitana integrada.

Em relação a toda a região metropolitana de São Paulo, Joaquim Lopes, disse que os custos também são um problema e que explicam em parte a demora na elaboração dos editais para o próximo certame. De acordo com o presidente da EMTU, entre a última licitação em 2006 e o cenário atual, houve mudanças para pior no transporte coletivo, como aumento de congestionamentos que geram perdas de eficiência nos sistemas e ainda o privilégio ao transporte individual que é forte nas políticas tributárias.

 “Como é que se encontra o equilíbrio desse contrato que se pretende publicar? É uma discussão que toma bastante tempo. Nós estamos trabalhando num cenário bastante adverso. Teve queda de demanda [dos ônibus] nos últimos três anos, perda de produtividade e fatos que nós não tínhamos lá em 2006 [data da primeira licitação na Grande São Paulo]. As taxa de congestionamento que a gente tem verificado hoje são maior, há financiamento público de veículos particulares, o setor [de transportes públicos] perdeu muito. Essa engenharia de custos [é para] tratar isso de uma maneira responsável, não é publicar o edital por publicar, mas é publicar com modelos com resguardo financeiro, para ter interessados. Estamos vendo se as contas fecham, se estão adequadas, levando em conta todos os custos, e isso leva um tempo. Vamos fechar o melhor modelo para lançar o edital. ”

A EMTU vem constantemente alterando as datas de previsão para realização da licitação dos ônibus metropolitanos que transportam 2,2 milhões de pessoas por dia em toda a Grande São Paulo. Na audiência pública no final de setembro do ano passado, que teve cobertura do Diário do Transporte, a gerenciadora tinha previsto o lançamento dos editais para janeiro deste ano. Depois essa data mudou para março, em seguida foi para maio, depois junho e, agora sem uma estimativa concreta, a gerenciadora trabalha para possibilidade de o edital ser lançado apenas a partir de julho.

OUÇA EM:

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

4 comentários em ENTREVISTA: Municípios do ABC continuam sem ajudar no planejamento de ônibus metropolitanos

  1. José Aparecido Neves // 20 de junho de 2017 às 10:56 // Responder

    Acho que o Baltazar,deve ser arrancado de qualquer forma desse tipo de atividade,pois ele tem problemas,em todos os lugares que opera.Outra,que ,deve ficar de fora, é a família Setti,pois estão acabando com o nosso transporte, principalmente em SBernardo.

  2. A grande verdade é que a Emtu quer operar menos linhas com a mesma qtd de passageiros…ela esta pouco se lixando para os usuários as areas licitadas a unica melhora foram onibus mais novos de resto ouve redução das linhas, seccionamento de trajetos demandados e aumento de imtervalos, mas licitadas existe linhas com 1:00 de intervalo, se fosse no abc é linha desatualizada como é licitada é devido a baixa demanda..,isso gerou uma dispersão dos passageiros reduzindo a arrecadaçao….o sistema licitado ta um lixo…..tantp que a Julio Simoes abandonou a operação pois a Emtu matou as linhas da zona leste..,entao nao podemos esperar nada da Emtu….pois a unica preocupação é o lucro..,,menos onibus significa onibus mais cheio e busca de outro meio de deslocamento…,,existe sobreposição sim..isso devido ao péssimo serviço municipal de empresas como a Sbctrans com linhas cpm.intervalos de 40 minutos que andam.em.zigue zague…enquanto que um linha.metropolitana que sobrepoeç a msm com intervalo de 15 minutos,..sendo assim tem que ser pensado essa racionalização pois a populaçao do abc tem.o padrao de vida maior que o resto da grande sp,..e essa racionalização pode fazer a migraçao para os veículos particulares…o maior exemplo disso sao as linhas de scs que secionaram ate o sacoma e houve a fuga de passageiros para outros meios e para o carro particular

  3. A única solução e/ou planejamento que a EMTU propõe é cortar linhas e não desenvolver uma integração entre as redes (aliás ela trabalha contra, basta ver que há anos tenta cobrar a integração nos terminais da Metra em Diadema), gerar novas ligações a pontos de interesse etc

  4. Amigos, boa noite.

    “…com auxílio da Justiça de Manaus, conseguiu impedir a realização de uma das tentativas, alegando que a licitação prejudicaria o processo de recuperação judicial de suas empresas.”

    Essa excessiva competência da Justiça de Manaus eu não entendi ainda; mas ainda vou pedir a um Prof. Dr. que me explique esta questão.

    E inacreditável a inércia da EMTOSA , em ficar aguardando a boa vontade dos municípios.

    Por que não entra com um Mandado de Segurança contra as prefeituras ????

    Claro que ninguém vai mandar, afinal a sobreposição interessa aos empresários, pois como eles operam nos municípios e no intermunicipal, o que interessa é que o passageiro irá embarcar sempre na mesma empresa, apenas com cores diferentes.

    Afinal, pra que serve a EMTOSA ???

    Se não tem os dados, levantem os dados, oras bolas, afinal não estão recebendo os salários pagos pelos contribuintes ???

    Nessa maresia, até eu que sou mais bobinho…

    MUDA BARSIL.

    Att,

    Paulo Gi

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