OPINIÃO: “Cidade Linda dos Ônibus Limpos” – uma realidade possível

A Lei Municipal do Clima (14.933/2009) em seu artigo 50, exigiu que a frota de ônibus da cidade seja substituída gradualmente por ônibus limpos num prazo de dez anos, mas até agora nada disso foi cumprido e estamos na estaca zero, depois de 8 anos da promulgação da lei. A nova gestão da Prefeitura de São Paulo ficou, portanto, com a incumbência de dar um jeito nesse problema. As entidades ambientalistas e o Ministério Público estão com a faca na jugular do Prefeito.

Afinal, morrem cerca de oito mil cidadãos e cidadãs na Região Metropolitana de São Paulo todos os anos afetados(as) por doenças cardiorrespiratórias relacionadas com as altíssimas emissões da frota a diesel. Além disso, por força do compromisso da Nação Brasileira na recente Conferência Mundial do Clima em Paris (COP-21), o Brasil acaba de assinar sua iNDC (Intended National Determined Contribution) – compromisso de reduzir suas emissões de gases do efeito estufa – e a redução compulsória das emissões dos transportes será, inevitavelmente, uma das medidas da longa lição de casa que o País deverá entregar para cumprir seu compromisso com a proteção do clima do planeta.

O Prefeito João Dória esteve recentemente na Coreia há algumas semanas, e na semana passada também foi buscar auxílio com o “Exterminador do Futuro” – o ex-governador da California, Arnold Schwarzenneger – para agir cirurgicamente sobre esse problema específico da substituição dos ônibus convencionais da Capital. Mas não precisava ir tão longe, se o Prefeito acreditasse em seus técnicos de carreira e na poderosa indústria automotiva brasileira. Temos tudo aqui à mão para agir positivamente rumo à frota limpa; só falta a decisão política, Prefeito – que, lamentavelmente, não foi tomada por seus pouco atentos antecessores.

Em tempos de normalidade, a frota de ônibus urbanos em São Paulo é renovada, por obrigação contratual, em cerca de 10% ao ano. Se tudo correr bem, teremos todos os anos um lote velho a diesel a ser substituído por um lote novo provido de tecnologias alternativas com potencial poluidor menor que os concorrentes diesel novos – tanto menor, quanto maior for a disponibilidade de financiamento (local ou internacional, dos Fundos de Desenvolvimento Limpo) dos custos incrementais dos ônibus com tecnologias e energias mais limpas.

Quanto mais limpo, mais caro o veículo, essa é a regra geral, mas ela está sujeita a exceções, a serem avaliadas, caso a caso no momento que precede as substituições, não antes. Caso haja, no momento da substituição dos lotes mais velhos, a cada ano, os recursos financeiros necessários disponíveis, deve-se seguir rumo ao lote substituto mais limpo possível, simples assim – lembrando que é salutar fugir de uma única tecnologia predominante na frota.

Essa será a dinâmica do processo de renovação da frota a cada ano que virá, se houver essa aparente boa vontade da Administração Paulistana e muita pressão político-ambiental. Não há alternativa melhor; a não ser que bilhões caiam do céu no colo do Secretário dos Transportes.

A regra, portanto, é reduzir o potencial poluidor do pacote substituto novo, a cada ano, em relação ao virtual pacote diesel convencional novo (a referência); isso, indefinidamente, tanto no aspecto tóxico local, quanto no climático, até chegar ao ideal limpo e renovável.

Não há outro caminho viável. Além dessa rota básica, a frota remanescente não substituída a diesel, pode ser ambientalmente melhorada – e muito – por meio de filtros que reduzem o material particulado em mais de 90%. Santiago instalou 3.200 filtros adaptados em seus ônibus (muitos modelos brasileiros), mediante a criação de estímulos financeiros inteligentes – ônibus com filtros podem operar por mais dois anos além da idade limite contratual. Isso é técnica e financeiramente viável, também para os ônibus brasileiros de São Paulo, e pode ser comprovado por um programa de testes prévios em ônibus Euro 3 e Euro 5 que compõem a frota paulistana. O México, por sua vez, acaba de lançar seu programa de adaptação de filtros nos ônibus locais como medida prioritária de emergência para reduzir a contaminação atmosférica. Se Chilenos podem, nós podemos.

Antecipar a tecnologia Euro 6 (com filtro de particulado instalado de fábrica), vigente na Europa há cinco anos e nos Estados Unidos há sete – no caso da compra de ônibus convencionais a diesel novos para rodarem com misturas de biodiesel de alto teor – é uma outra ideia que deve ser seriamente considerada, se quisermos, de fato, melhorar a qualidade ambiental da frota Paulistana. O Euro 6 corrige as falhas do Euro 5 quando em operação urbana em baixas temperaturas dos gases de escapamento, quanto à eficiência de controle das emissões de óxidos de nitrogênio – NOx, e ainda reduz as emissões de partículas cancerígenas em mais de 90%. O Euro 5, a partir de 2012, encareceu os ônibus no Brasil em cerca de 15 a 20%, mas, segundo o ICCT (International Council on Clean Transportation) não trouxe os benefícios ambientais inicialmente previstos; trata-se de uma regulamentação ambiental defectiva e não faz sentido seguir comprando ônibus encarecidos Euro 5 em São Paulo, produzidos pelas mesmas montadoras que fornecem ônibus Euro 6 para os Chilenos respirarem um ar mais limpo.

Eis aí desenhada a rota para a “Cidade Linda dos Ônibus Limpos”, Prefeito Dória. Com essa receita, o silencioso fantasma da poluição atmosférica – esse sim, o verdadeiro “Exterminador do Futuro” – cairá de joelhos e os cidadãos paulistanos o saudarão futuramente como o alcaide que mais contribuiu para o combate à contaminação atmosférica nas cidades brasileiras.

Olimpio Alvares é Diretor da L’Avis Eco-Service, especialista em transporte sustentável, inspeção técnica e emissões veiculares; concebeu o Projeto do Transporte Sustentável do Estado de São Paulo; fundador e Secretário Executivo da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos – ANTP; Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades – SOBRATT; consultor do Banco Mundial, da Comissão Andina de Fomento – CAF e do Sindicato dos Transportadores de Passageiros do Estado de São Paulo – SPUrbanuss; é membro titular do Comitê de Mudança do Clima da Prefeitura de São Paulo; colaborador do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Instituto Mobilize, Clean Air Institute, World Resources Institute – WRI-Cidades, Climate and Clean Air Coalition – CCAC e do International Council on Clean Transportation – ICCT; é ex-gerente da área de controle de emissões veiculares da Cetesb, onde atuou por 26 anos; é membro da coordenação da Semana da Virada da Mobilidade.

3 comentários em OPINIÃO: “Cidade Linda dos Ônibus Limpos” – uma realidade possível

  1. Amigos, boa noite.

    Buzão “limpo” nunca foi, não é e nunca será o forte de Sampa, quiça buzão verde.

    Esqueçam…

    Sr. Olímpio Alvares, parabéns pelo seu artigo.

    Sugiro ao Sr. publicar um artigo sobre o “filtro particulado”; será muito útil.

    A não utilização desse filtro no buzão do Brasil é INADMISSÍVEL e INJUSTIFICÁVEL.

    Acorda Sampa !

    Att,

    Paulo Gil

  2. Sr Olimpio
    Excelente artigo. Temos excelentes soluções e técnicos capacitados localmente. Não precisa ir buscar na Coréia e com o Exterminador do Futuro.
    É necessário atitude do Poder Público para criar as Política de incentivo, como o exemplo do Chile citado.
    Paulo Lane

  3. Falando em “filtros”, reparem nos filtros do ar condicionado… Estão tão limp… sujos! Não adianta trocar o ônibus por um menos poluente, mas esquecer que a poluição continua no ar e o usuário está respirando do mesmo jeito.

1 Trackback / Pingback

  1. Câmara de SP instala Subcomissão para acompanhar concessão do Bilhete Único à iniciativa privada – Diário do Transporte

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: