Obras de BRT de Campinas começam em julho e ligação com Viracopos será por ferrovia

Prefeito de Campinas, Jonas Donizette, assina permissão para obras de BRT, ao lado do Ministro das Cidades, Bruno Araújo. Foto: Antônio de Oliveira- Prefeitura de Campinas

VLT ou monotrilho: prefeitura vai estudar os dois modais, disse Jonas Donizette

ALEXANDRE PELEGI

ADAMO BAZANI

VLT ou monotrilho? Ainda não se sabe, mas a depender da vontade do prefeito Jonas Donizette (PSB) a ligação entre o Centro e o Aeroporto Internacional de Viracopos será feita por ferrovia.

A Prefeitura vai estudar os dois modais, tanto o veículo leve sobre trilhos (VLT) como o monotrilho, que é menor que um metrô e corre sobre vigas de concreto a 15 metros do chão.

Para definir qual o modal, a prefeitura retomará a licitação suspensa em 2015, que visa contratar o estudo definidor d o melhor meio de transporte para ligar o centro da cidade ao aeroporto de Viracopos. Os recursos para bancar o estudo, que custará aos cofres da cidade R$ 1,2 milhão, foram garantidos pelo ministro das Cidades, Bruno Araújo, que ontem esteve na cidade para autorizar o início das obras dos corredores do BRT. De quebra, o ministro liberou também mais R$ 100 milhões para completar o financiamento necessário ao empreendimento, que totaliza R$ 451,5 milhões.

Por que não metrô?

Para o prefeito Jonas Donizette, a cidade de Campinas deve começar a pensar em investir em um sistema sobre trilhos, deixando o metrô subterrâneo para um futuro mais distante. O especialista em mobilidade urbana da organização Cidades Integradas, Jeferson de Oliveira, disse ao jornal Correio Popular, de Campinas, que mesmo com o desmonte ocorrido na antiga experiência do VLT da cidade nos anos 80, o sistema mostrou ser possível ter soluções mais baratas que a implantação de linhas subterrâneas de metrô.

“Uma cidade com tantas áreas de leitos ferroviários desativados não pode deixar de utilizá-los”, afirmou Jeferson ao jornal campineiro. Campinas tem 120 quilômetros de leitos ferroviários dentro do município, com 654 metros quadrados de área útil para oficinas e manobras. Os leitos ligam o Centro aos principais bairros da cidade, como aos principais municípios da Região Metropolitana de Campinas. O problema é que tudo isso é espaço vazio ou invadido. O único trecho ativo é o da Cia Paulista, utilizado atualmente no transporte de cargas.

Estudos técnicos mostram que a cidade precisará pensar em metrô um dia. Esse dia chegará quando o volume de usuários de transporte coletivo superar 70 mil passageiros por hora e por sentido. Enquanto esse dia não chega, prefeito e técnicos optam por investir em monotrilho ou VLT, soluções mais baratas e viáveis segundo estudos técnicos apresentados.

BRT começa em julho

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Corredor de ônibus em Campinas nos anos de 1980. Corredor do Centro da cidade ao Jardim Ouro Verde deveria ser de trólebus. Em 1985 prefeitura fez parceria com a CPFL – Companhia Paulista de Força e Luz, iniciando as obras. Mas em 1988, quando o terceiro trecho estava sendo concluído, a parceria foi desfeita e sistema foi operado com ônibus a diesel.

Jonas Donizette garantiu ontem (31) que as obras de implantação dos corredores Campo Grande, Ouro Verde e Perimetral começarão em julho, com conclusão prevista para três anos. Nos próximos três meses as empresas contratadas elaborarão o projeto executivo dos quatro lotes de obras. O encontro para a assinatura das liberações de recursos na Prefeitura de Campinas contou com a presença do ministro das Cidades, Bruno Araújo, do ministro da Secretaria de Governo, Antônio Imbassahy, do vice-governador de São Paulo, Márcio França, e dos deputados federais Carlos Sampaio (PSDB) e Luiz Lauro Filho (PSB).

O Ministério das Cidades liberou a última parcela de cerca de R$ 100 milhões que integram parte dos recursos necessários para os sistemas de ônibus.

O custo total dos corredores é de R$ 451,5 milhões. A Caixa Econômica Federal aprovou o financiamento no início do mês.

CORREDORES DE ÔNIBUS DE CAMPINAS:

Chamado de “Rapidão Campinas” o sistema terá três corredores de ônibus:

Corredor Campo Grande: 17,8 quilômetros de extensão. Da região central, passará pelo leito desativado do antigo VLT, seguirá pela Avenida John Boyd Dunlop até o terminal Itajaí.

Corredor Ouro Verde: 14,5 quilômetros. Da região central, seguirá pelas avenidas João Jorge, Amoreiras, Ruy Rodriguez, Camucim até o Terminal Vida Nova.

Corredor Perimetral: 4 quilômetros entre a Vila Aurocan e o Jardim Campos Elísios

CAMPINAS JÁ TEVE VLT:

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VLT de Campinas em funcionamento em 1992 – Foto Jorge Cialowski

A cidade de Campinas já teve um sistema de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos.

O modal funcionou por pouco tempo e foi descontinuado por falta de planejamento e integração com os ônibus.

O VLT de Campinas chegou a ter 7,9 quilômetros. O serviço era uma ilha de transporte, isolado, com poucas integrações com outros meios como os ônibus da região. O sistema operou de 23 de novembro de 1990 a 17 de fevereiro de 1995.

Além da falta de integração com os outros meios de transporte, problemas com as obras e até suspeitas der corrupção são apontados como motivos do fracasso do VLT de Campinas.

Para se ter uma ideia, em julho de 1990, dois dias antes da abertura dos envelopes para as obras, o então vice-prefeito de Campinas, Antônio da Costa Santos (Toninho do PT), denunciou por meio de um anúncio com “mensagem cifrada” no classificados do jornal O Estado de São Paulo os resultados da concorrência pública, que teria sido de “cartas marcadas”.

Além do resultado já ter sido combinado, a obra teve suspeitas de superfaturamento. O projeto inicial da FEPASA – Ferrovias Paulista S.A, estimava um custo de US$ 90 milhões para 13 quilômetros de extensão. Mas os 7,9 quilômetros tiveram custo em torno de US$ 120 milhões.

Toninho do PT denunciou as irregularidades ao Ministério Público e à CEI Comissão Especial de Inquérito, da Câmara Municipal de Campinas, aberta apenas para apurar estas suspeitas de irregularidades.

O Ministério Público, entretanto, teve de arquivar o inquérito, após sete anos porque a principal prova sobre o caso, o relatório final da CEI simplesmente tinha desaparecido.

As obras foram feitas pela construtora Mendes Júnior. No final do contrato de operação da Fepasa, a companhia estatal repassaria a operação do VLT para a prefeitura de Campinas que, por causa da baixa demanda e suspeitas de corrupção, não aceitou assumir a deficitária linha. Os serviços foram repassados então para a Mendes Júnior que recebia do governo estadual R$ 700 mil por mês pela operação.

O VLT de Campinas foi inaugurado em três etapas, sendo que entre novembro de 1990 e abril de 1993, não era cobrada tarifa dos passageiros pelo fato de o serviço ainda estar em testes.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes